【Cultura Japonesa Vol. 1】É nas crises que se revela o caráter nacional – o dever público e o grande terremoto do leste japonês

Bombeiros japoneses procurando por sobreviventes (17 de março de 2011, cidade de Kamaishi)
Bombeiros japoneses procurando por sobreviventes (17 de março de 2011, cidade de Kamaishi)

 


 

O cumprimento do dever público não apenas por militares da Força de Autodefesa e por bombeiros, mas até pelas “tias” de shopping center e mocinhos das empresas de transporte de cargas.

De 22/05/11
Responsável pelo texto: Masaomi Ise

SENDAI, Japão (12 de março de 2011) Um helicóptero SH-60B atribuído aos cargueiros do Esquadrão Antiesubmarino de Helicóptero (HS) 14 da Naval Air Facility Atsugi sobrevoa a cidade de Sendai para entregar mais de 1.500 libras de comida aos sobreviventes de um 8.9 terremoto de magnitude e um tsunami. Os cidadãos de Ebina City, no Japão, doaram os alimentos, e o HS-14 está apoiando as operações de alívio de terremotos e tsunamis no Japão, conforme orientação. (Foto da Marinha dos EUA / Lançada)
SENDAI, Japão (12 de março de 2011) Um helicóptero SH-60B atribuído aos cargueiros do Esquadrão Antiesubmarino de Helicóptero (HS) 14 da Naval Air Facility Atsugi sobrevoa a cidade de Sendai para entregar mais de 1.500 libras de comida aos sobreviventes de um 8.9 terremoto de magnitude e um tsunami. Os cidadãos de Ebina City, no Japão, doaram os alimentos, e o HS-14 está apoiando as operações de alívio de terremotos e tsunamis no Japão, conforme orientação. (Foto da Marinha dos EUA / Lançada)

 


 

“Mesmo com a casa nesta situação, você vai?”

Em certa loja de bebidas de uma cidade litorânea em Miyagi violentamente atingida pelo terremoto e tsunami, um rapaz e sua mãe procuravam arrumar o interior quando um oficial uniformizado da Força Nacional de Autodefesa surgiu com uma folha de papel na mão. Era uma ordem de convocação.

O rapaz, outrora membro ativo da Força, era reservista em prontidão para situações de emergência. Pôs-se em posição de sentido diante do oficial que lhe apresentava a convocação e respondeu: “Entendi, senhor!”

A um repórter de televisão que se achava ao lado e lhe perguntou: “Mesmo com sua casa nesta situação, você vai?”, ele respondeu: “Eu fui treinado por longos anos para isso. Se não for, eu me arrependeria por dez, vinte anos”. A mãe, que se achava próxima, disse- lhe também: “Vá, é para o bem das pessoas. Disto aqui eu cuido.” [1]

Dos reservistas ex-integrantes da Força Nacional de Autodefesa se espera retorno imediato à ativa em situação de emergência. Dos 5.600 reservistas, 1.300 foram convocados neste terremoto até meados de abril. O Édito Imperial sobre a Educação prega como ideal: “Em emergência, trabalhar para o bem público com cavalheirismo e coragem … “. A cena acima foi a própria reprodução desse ideal.

“Vou pelos meus companheiros”

A crise da 1ª Usina Nucelar de Fukushima, da Empresa Municipal de Energia Elétrica de Tóquio está sendo debelada aos poucos porque muitos cumpriram esse ideal também.

Em março de 2011, Makoto Nemoto (47 anos, nome fictício), funcionário veterano de uma empresa subcontratada pela Empresa Municipal de Energia Elétrica de Tóquio, se achava no terceiro andar do edifício da 1ª Usina Nuclear de Fukushima quando o terremoto ocorreu. E lá permaneceu juntamente com mais dez outros companheiros de trabalho, a pedido da empresa, para se entregar aos trabalhos de recuperação.

” Tínhamos consciência do risco da contaminação radioativa, mas a recuperação da usina era trabalho para nós, funcionários com 18 anos de experiência. Por isso, decidimos nos arriscar. “Na usina, 300 a 500 pessoas, entre funcionários da empresa e de subcontratadas passavam a permanecer no local continuamente por dias seguidos para recuperar a usina em precárias condições de trabalho: recebiam rações de emergência duas vezes ao dia e dormiam juntos, enrolados em cobertores.

Três dias após, às 11:01 h da manhã, Nemoto trabalhava na recuperação da 2ª Usina quando houve a explosão de hidrogênio na 3ª Usina que lançou aos ares toda estrutura superior do prédio.

Nemoto correu para fora. A 3ª usina estava com as ferragens da sua estrutura à mostra, e uma densa fumaça cinzenta subia ao céu azul. “É o fim … ” ouviu um companheiro dizer.

“Cuidado com a contaminação! Fujam da irradiação!”, gritou ele, e se pôs a correr por cima de tijolos caídos envergando a roupa de proteção. O carro em que viera estava com os vidros estraçalhados pela explosão e fora de uso. O prédio sismicamente isolado que servia de base de operações se achava um quilômetro adiante, mas conseguiu chegar ofegando até lá.

A ordem de evacuação emergencial da empresa obrigou Nemoto a viver por certo tempo desde o dia 15 seguinte como refugiado, mas voltou depois disso à 1ª Usina como voluntário.

“Meus companheiros estão ainda agora trabalhando na usina. Pelejando, com pouca gente. Claro, ninguém me condenaria se eu deixasse de ir. Mas eu não me perdoaria. Vou pelos meus companheiros.” [2]

“Eu não me perdoaria” – isto é “cavalheirismo”. E ir para o sítio do trabalho consciente dos riscos é “coragem”.

“É meu dever”

Floating_house_after_2011_Japanese_earthquake Airman 1º Classe Katrina R. Menchaca [Domínio Público]
Floating_house_after_2011_Japanese_earthquake Airman 1º Classe Katrina R. Menchaca [Domínio Público]
O lançamento de água sobre a usina foi conduzido tanto pelo batalhão de resgate do corpo de bombeiros de Tóquio como pela Força Nacional de Autodefesa e pela Corporação da Polícia, que acorreram ao local.

O Corpo de Bombeiros de Osaka enviou 53 integrantes para amparar o trabalho dos bombeiros de Tóquio por 90 horas contínuas a partir do dia 20, emendando noites e dias. A ordem de entrar em ação lhes foi dada após consulta a cada um. Masayoshi Katayama (48 anos) chefe adjunto do Departamento de Defesa Civil, diz sobre isso:

“Como bombeiros que somos, não podíamos apenas observar os colegas de Tóquio que arriscavam suas vidas para o bem do povo em luta isolada.Tenho um filho de 24 anos. Um jovem bombeiro de Tóquio, quase dessa mesma idade disse apenas: ‘É meu dever!’, e partiu. Seu corpo tremia.”

Enquanto se deslocavam do posto avançado a 20 quilômetros da Usina ao posto de comando a 800 metros dela abrindo as sirenes, um grupo de idosos da região se curvou à sua passagem.

“Se curvaram profundamente, dobrando o corpo em 90 graus. Eu os vi, e senti que tinha por obrigação absoluta prestar algum serviço a eles”, disse Katayama. [2]

 Chegada de três mil funcionários de empresas municipais de gás de todo o Japão

Não era possível ficar “apenas observando” – esse espírito cavalheiresco prevaleceu também entre funcionários de empresas privadas.

O fornecimento da empresa municipal de gás de Sendai sofreu interrupção que atingiu 350 mil famílias de sete cidades e vilas. Diante dessa emergência, empresas fornecedoras de todo país se mobilizaram, desde Hokkaido Gas ao norte até Japan Gas de Kagoshima ao sul, incluindo a maior de todas, a Tokyo Gas. Quase 30 empresas enviaram seus funcionários a Sendai. Cerca de três mil funcionários no total se juntaram aos quase 500 funcionários de Sendai formando uma verdadeira maré humana para reparar rupturas da rede de fornecimento e conexões casa por casa.

Técnicos de companhias diversas em uniformes variados se reuniam no quartel geral de restauração de fornecimento instalado nas dependências da empresa municipal de gás de Sendai. Toshihiko Yamada, gerente de marketing da Associação Japonesa de Gás, que enviara solicitação de auxílio a todo país, diz sobre o sentimento de dever que o impeliu a essa ação: ” A interrupção de fornecimento ao cliente representa para nós, profissionais do ramo, uma angústia. Não podíamos nos manter indiferentes como companheiros de profissão.” Takahito Sato, funcionário da empresa municipal de água e gás da cidade de Kashiwazaki, Província de Niigata, viera correndo a Sendai viajando por 8 horas para se envolver nos trabalhos de recuperação da rede da cidade. Diz ele:” Sendai nos ajudou em Chuetsuoki (terremoto).Posso agora retribuir, até que enfim! ”

Área por área, o fornecimento foi sendo normalizado graças ao trabalho de restauração realizado em esforço nacional. Kamori Yasukawa, funcionário da empresa municipal de gás de Sendai, diz com voz embargada: ” Que precioso auxílio recebemos de nossos companheiros! Temos que nos apressar em restabelecer o fornecimento emtoda região. ” [ 3]

“Cada entrega efetuada em residências e centros de refúgio era sempre respondida por vozes de alegria”

O fluxo de carga é tão vital quanto o fornecimento de energia elétrica e gás. A Transportadora Yamato reabriu seus 125 centros de distribuição em Iwate, Miyagi e Fukushima dez dias após a ocorrência do terremoto.

Uma considerável redução em comparação aos 15 a 20 dias dispendidos por ocasião do terremoto de Kobe e Awaji.

O Centro Hebita – Ishimaki, o primeiro dessa Transportadora a iniciar atividades na cidade de Ishimaki, assumiu sozinho as entregas de outros 5 centros da redondeza. E com a ajuda de funcionários da transportadora que acorreram de regiões como Kita Shin-Etsu e Kansai, conseguiu efetuar entre 3000 a 3200 entregas por dia, quando em tempos normais realizava tanto quanto 800 entregas/ dia.

Quase tudo eram donativos tais como alimentos enviados por parentes das vítimas e roupas enviadas por amigos. Diz Hiroshi Abe, gerente do centro de Ishimaki: “Cada entrega efetuada em residências e centros de refúgio era sempre respondida por vozes de alegria. Fluxo de carga, tal como o fornecimento de energia elétrica e de gás, faz parte da infraestrutura.”

Há um episódio que ilustra bem a motivação dos funcionários da Transportadora Yamato. Seus motoristas notaram desigualdades no fluxo de carga destinada aos centros de refúgio. Certos centros recebiam donativos em profusão enquanto outros centros, menores, não recebiam.

Os motoristas, que conheciam todos os recantos da área sob sua responsabilidade, passaram a distribuir donativos voluntariamente aos centros menores, para isso recorrendo até à  colaboração de outras empresas transportadoras em alguns casos.

Ao tomar conhecimento da atividade voluntária desses motoristas, o escritório central da Transportadora Yamato se apressou em organizar uma “brigada de auxílio ao transporte de donativos”, para envolver toda a companhia nessa atividade.

Trabalham atualmente no armazém provisório de donativos instalado no mercado de frutas e verduras da cidade de Kisen-numa, Provínciade Miyagi, cerca de 50 militares da Força Nacional de Autodefesa e um número igual de funcionários da Transportadora Yamato. O Exército se encarrega de transportar os donativos do depósito da província até o depósito provisório. A distribuição dali para os quase 90 centros de refúgio é feita por funcionários da Transportadora Yamato. [ 4, p 13]

Contribuição dos vendedores de automóveis

A agência Toyopet Sendai de Ishimaki – Província de Miyagi pertencente à cadeia de agências da Toyota foi assolada por uma avalanche gigantesca quarenta minutos após a ocorrência do terremoto. Quase todos os carros da agência foram levados pelas águas, impossibilitando qualquer previsão para a reabertura do comércio. E Sudo, gerente da agência, instruía a todos os funcionários que aguardassem em suas casas. Mas eles começavam a voltar um após outro depois de quatro dias de espera.

Nada havia para se vender, porém Sudo resolveu reabrir a agência. Então os clientes começaram a aparecer. Carros da agência carregados pela correnteza entravavam a entrada da casa ou impediam a passagem nas ruas. Assim, a grande maioria vinha pedir remoção desses carros.

Eram mais de dez pedidos por dia. Os funcionários saíam aos grupos para efetuar a remoção quando a limpeza e a arrumação da agência nem estavam conclufdas.

Os vendedores se puseram a ligar para os clientes tradicionais tão logo o telefone celular passou a funcionar. As primeiras palavras que ouviram desses clientes foram de preocupação quanto ao bem -estar dos próprios vendedores: “Você está vivo? E sua família, está bem? ”

Na região assolada, desprovida de trem ou ônibus, o automóvel se fazia indispensável para deslocamento e transporte. Choviam pedidos. Em três semanas após a catástrofe, 30 pedidos de carros novos e 25 de carros usados foram recebidos. Antes da catástrofe eram apenas 10 pedidos em 10 dias de atividade.

A agência de Ishimaki conseguiu entregar em 1 de abril o primeiro automóvel do seu estoque salvo da enxurrada: – um Prius híbrido. A loja fez contato com diversos fornecedores de todo o país e conseguiu arrumar 200 carros usados para venda.

Havia remessa de donativos da própria montadora Toyota quase todos os dias. A Toyopet Sendai as distribufa não apenas às suas agências como também aos centros de refúgio e hospitais. A rede de agências de automóveis enraizada na sociedade regional faz parte da infraestrutura social que sustenta a vida da população. [ 4,p 11]

” A satisfação em se poder comprar normalmente o que é necessário “

Logo após a ocorrência do terremoto, clientes e funcionários do shopping center AEON- Kisen-numa em Miyagi se reuniam diante da entrada, ponto de refúgio predeterminado. O alarme irradiado pelos alto-falantes da cidade anunciava a aproximação de um tsunami de seis metros. Chiaki Takase (59 anos), gerente, os conduziu todos a salvo em meio à nevasca que caía até o sítio do antigo colégio provincial situado em terreno elevado. Não houve uma vítima sequer a lamentar.

No dia seguinte, quando os funcionários voltaram do refúgio ao shopping center, o que eles presenciaram foi um cenário de impiedosa destruição espalhado por todo recinto de venda. O prédio subsistira de alguma forma, mas por exemplo, havia no primeiro andar um automóvel virado, atirado para dentro da loja pela força da enxurrada. E montanhas de destroços por toda parte.

Takase nem sabia o que fazer para reabrir a loja. O espaço do lado de fora havia sido ocupado pela Força Nacional de Autodefesa que instalara no local uma base. Se o interior não podia ser utilizado, restava apenas o topo do prédio. “Será possível arrumar ali espaço de venda que satisfaça os clientes? Afinal, teria algum sentido reiniciar as vendas tão cedo?” cogitava.

Contudo, muitos clientes conhecidos lhe pediam incessantemente: “Então, quando vai abrir a loja?” “Ande logo, não demore!”. Tratava-se também de precioso posto de trabalho dos seus funcionários.

As vendas foram reiniciadas em 1 de abril, em espaço provisório sob tenda instalada na área de estacionamento no topo do prédio. A mercadoria exposta para a venda se concentrava em  artigos de primeira necessidade tais como cup noodles, verduras, bicicletas e cobertores.

Produtos que necessitavam de geladeira não podiam ser expostos. Mitsuyo Saitoh (62 anos), chefe de departamento,comandou a récita pelos funcionários do juramento de obediência às regras de comportamento, realizada todas as manhãs durante a reunião matinal. Mitsuyo havia sido contratada como empregada em tempo parcial 26 anos atrás, por ocasião da inauguração da loja, mas fora posteriormente admitida no quadro de funcionários registrados e viera desde então trabalhando nesse shopping.

Durante a primeira reunião matinal, muitos funcionários não puderam conter lágrimas de alegria pela reabertura da loja custosamente conseguida.

Cerca de quinhentos clientes se aglomeravam diante das portas já antes da abertura. E imediatamente, longas filas se formavam diante das caixas. Notava-se ali a satisfação em se poder comprar normalmente o que é necessário, com certeza sentida por todos os vendedores.

Ainda hoje, não se tem previsão para a completa recuperação da loja totalmente destruída. Mesmo assim, diz Mitsuyo Saito: “Para mim, não há outro lugar se não este. E aqui vou me restabelecer, com toda certeza.” [4,p6]

O público á uma “casa grande”

O termo「公」(oyake, público) possui também a conotação de “casa grande”, derivada da visão da nação como uma “casa grande” onde as famílias residentes trabalham cada uma para contribuir para o bem estar da casa. “Atender o dever público” é isso.

As pessoas citadas neste texto, desde, é claro, reservistas da Força Nacional de Autodefesa, funcionários da Usina Nuclear e bombeiros, até operários veteranos das obras de gás, moçada do serviço de transporte de cargas, vendedores de automóveis e “tias” do shopping center, todas elas “atenderam o dever público” exemplarmente com contribuições individuais.

Essa norma de vida faz parte do nosso caráter nacional. A força motora que impulsionou o rápido progresso do Japão da era Meiji e a miraculosa recuperação do período pós-guerra está na dedicação ao dever público de grande parte da sua população, cada pessoa em seu posto de trabalho.

O grande terremoto revelou a existência de muitas pessoas que, a exemplo daquelas deste texto, continuam em seus postos a bem do interesse público. Caso o exemplo de vida dessas pessoas tenha sensibilizado de alguma forma você, leitor ou leitora, é porque certamente o DNA delas se acha presente também em seu sangue.

Que a ocorrência do grande terremoto desperte em cada coração japonês o espírito de dedicação ao dever público com “cavalheirismo e coragem” para o consolo das almas do espantoso número de vitimas desse pavoroso desastre.


Referência bibliagréfica:

  1. Jornal Sankei Shinbun, H23.04.19 “Mesmo agarrado a pedras”
  2. Jornal Sankei Shinbun. H23.03.31 “Operário da Usina Nuclear: ‘Deixa que nós fazemos'”; “Recuperação da Usina: Senso de dever de cada um”
  3. Jornal Sankei Shinbun, H23.04.03 “A população também em guerra total”
  4. Jornal Nikkei Business. H23.04.11 “3.11 Pafs lrredutfvel”

Este texto é um capítulo extraído do primeiro volume da Cultura Japonesa.

Pode acessar a página de explicação sobre a Cultura Japonesa clicando na imagem da capa abaixo.

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