Conheça a história de Alfredo Naruhiko, o brasileiro que é bisneto do Imperador da era Meiji

Alice, com o filho Alfredo “A nova era trará felicidade para os lares das famílias” (Nikkey Shimbun)
Alice, com o filho Alfredo “A nova era trará felicidade para os lares das famílias” (Nikkey Shimbun)

Em 1947, após o fim da guerra, entre os 51 membros dos onze ramos da família imperial que foram excluídos da sucessão ao trono, estava o falecido Toshihiko Tarama (antigo nome, Toshihiko Higashikuni). Filho do príncipe Naruhiko Higashikuni, ministro no final da guerra, e da princesa Toshiko, nona filha do Imperador Meiji, foi adotado pelo diplomata Tetsusuke Tarama e imigrou para o Brasil em 1951. Os jornais japoneses da época noticiaram o fato como a “vinda celestial do neto do imperador na era Showa”, enquanto era chamado carinhosamente pela comunidade nikkei de “sua alteza”. Falecido em 2015, entrevistamos a esposa, Alice, e o filho, Alfredo Naruhiko, neste momento de transição entre imperadores, relembrando “sua alteza Tarama”, que viveu nas eras Showa e Heisei.
“Meu avô fez intercâmbio na França e tinha um pensamento liberal. Meu pai deve ter sido influenciado por ele e possuía um espírito aventureiro, de sair do Japão para conhecer o exterior. Ele também disse que queria ter uma nova vida no Brasil depois de ver com os próprios olhos seu país ser destruído”, assim acredita Alfredo Naruhiko, sobre o motivo para o pai imigrar ao Brasil.
Alice comentou: “Antes de ser excluso da sucessão, parece que ele vivia em uma grande mansão com 50 empregados. E, de repente, veio ao Brasil. Certamente deve ter passado por experiências que mudaram radicalmente sua visão de vida, convivendo com várias etnias”.

Toshihiko Tarama (Nikkey Shimbun)
Toshihiko Tarama (Nikkey Shimbun)

Toshihiko Tarama, quando vivo, sempre contava de sua visita a uma fazenda no Mato Grosso, que pretendia comprar. Viajou vários dias a cavalo e chegou na fazenda à noite. Quando acordou na manhã seguinte, viu muitas corujas no teto de palha.
Talvez por essas experiências únicas no Brasil, que jamais teria no Japão, ele contratou uma babá negra quando o filho nasceu: “Meu filho não pode ser preconceituoso. É melhor que tenha contato com pessoas de outras etnias desde pequeno.”
Enquanto convivia com brasileiros sem preocupações com formalidades, na comunidade nikkei ele era chamado de “sua alteza”. Alice, com um sorriso, disse: “Eu me casei com o indivíduo Toshihiko Tarama, independentemente de ter sido membro da família imperial. Mas as pessoas o chamavam de “sua alteza”, por isso, com o passar dos anos, senti que ele era uma pessoa grandiosa”.
Alfredo Naruhiko revelou: “Meu pai devia sentir alguma responsabilidade para corresponder e agir conforme a expectativa das pessoas, pois foi criado nesse tipo de ambiente, então não conseguiu agir de outra forma. Certa vez, estava mexendo no vídeo porteiro de casa e vi meu pai no elevador. Normalmente, as pessoas se escoram na parede, mas ele se mantinha em pé, com a postura reta, mesmo sozinho. Era seu inconsciente que dizia para estar preparado, pois não se sabia quando ou quem poderia estar vendo. Em casa, ele nunca se deitou no chão”.
Quando Toshihiko Tarama faleceu em abril de 2015, a família recebeu condolências de suas majestades imperiais e de suas altezas, o casal herdeiro e o casal Akishino, por meio de um funcionário da Agência da Casa Imperial. Mais de 60 anos se passaram desde que foi excluído da sucessão ao trono, mas ele ainda mantinha contato com o atual imperador e os antigos ramos da família imperial.
Em 1981, quando Alfredo Naruhiko tinha dez anos e visitou o Japão pela primeira, a família foi convidada ao palácio Togu e teve uma audiência com a família do príncipe herdeiro. Em outubro de 2015, quando o casal Akishino visitou o Brasil, o príncipe Fumihito lembrou-se da ocasião e conversou com Naruhiko sobre o fato.
No ano passado, ele teve uma audiência especial com a princesa Mako no hotel Tivoli. Ela relembrou a experiência que teve quando fez intercâmbio no Reino Unido, tendo contato com várias pessoas sem saberem que ela era um membro da família imperial. “Foi uma grande alegria reencontrar a princesa Mako após a visita de seus pais em 2015. Em 1981, quando conheci meu avô, ele ficou muito feliz ao saber que eu tinha o mesmo nome dele e sentiu que o Brasil tinha se tornado um país mais próximo. Quando criança, eu não compreendi muito bem essas palavras, mas é um grande orgulho ter antepassados tão especiais como são os membros da família imperial”.
Por ocasião da nova era Reiwa que virá, Alice expressou o que sente: “Suas majestades imperiais sempre se preocuparam com o povo e os confortou. A era Heisei foi pacífica porque eles mantiveram o país unido”.
Alice nasceu no Brasil, mas perdeu o avô durante a batalha de Okinawa na Segunda Guerra Mundial: “A nova era trará felicidade para os lares das famílias. Espero que a era Reiwa continue sendo um reinado pacífico e sem guerras”.
(Jornal Nikkey Shimbun, Kohei Osawa)

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