Condecorado pelo governo japonês, Chiaki Ishii tem seu feito eternizado também pelo COB

(Aldo Shiguti)

Condecorado pelo Governo Japonês em 2018 com a Ordem do Sol Nascente, Raios de Prata, faltava ao judoca Chiaki Ishii, de 77 anos, primeiro medalhista olímpico do judô brasileiro – bronze em 1972 nos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha – ter seu feito reconhecido também no país que escolheu defender. Faltava. No último dia 20, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), saldou essa dívida num dos principais cartões postais da cidade e reduto das comunidades asiáticas, em especial a japonesa, residentes em São Paulo, o bairro da Liberdade, palco da comemoração que marcou um ano para os Jogos de Tóquio.
Outros medalhistas olímpicos da modalidade como Aurélio Miguel, Leandro Guilheiro, Rafael Silva, Tiago Camilo, além de Rogério Sampaio, diretor-geral do COB, prestigiaram a homenagem ao precursor do esporte mais vitorioso do país nos Jogos. O evento contou ainda com a presença de dirigentes como o presidente da Confederação Brasileira de Judô, Silvio Acácio Borges, e o presidente do Instituto Kodokan do Brasil, Takanori Sekine, além da esposa, Dona Keiko, e da filha Vânia – Tânia, a outra filha, mora nos Estados Uidos.

Otimista – “É uma honra receber esta homenagem. Agradeço ao COB e a CBJ, especialmente aos presidentes Paulo (Wanderley) e Silvio (Acácio Borges) e a todos que torceram e permitiram esse momento tão feliz e emocionante da minha vida”, disse Chiaki Ishii em seu discurso de agradecimento.
Nascido em Ashikaga, na Província de Tochigi, Ishii conta que desde a infância sempre foi otimista e se formou em 1964 na Faculdade com o objetivo de disputar as Olimpíadas de Tóquio, “mas infelizmente perdi na seletiva”. “Então decidi começar do zero, atravessei o oceano e imigrei para o Brasil. Trabalhei na agricultura para sobreviver, mas sempre com a certeza de que, no judô, eu nunca perderia para ninguém. Com apenas um judogui nas costas, treinei muito e lutei muito aqui no Brasil e em vários países da América do Sul até ser reconhecido”, disse, lembrando que, “foi quando a Federação de Pugilismo me convidou para naturalizar brasileiro e então comecei a lutar pelo Brasil”.

Ishii eterniza sua marrca “Diziam que se ganhassem do Ishii poderiam ganhar medalhas na Olimpíada” (Aldo Shiguti)

Orgulhoso – Segundo Ishii, “toda vez vez que ia lutar, na volta eu perdia o emprego de professor de judô”. “Mesmo assim treinei bastante e em 1972 conquistei a medalha de bronze nas Olimpíadas de Munique. Na época, diziam que, se ganhassem do Ishii, poderiam ganhar medalha nas Olimpíadas e isso me deixava muito orgulhoso”, destacou o homenageado, acrescentando que, depois dessa conquista o judô brasileiro ganhou 22 medalhas olímpicas. “Fico feliz em ver o judô crescendo. Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida”, afirmou .
A filha Vânia Ishii, ouro nos Jogos Pan-Americano de Winnipeg, em 1999, destacou a importância da homenagem. “É muito emocionante porque se trata de um reconhecimento de toda uma vida que ele construiu, de toda sua luta e de toda sua garra”, disse Vânia, afirmando que seu pai sempre acreditou no esporte.

Gratidão – Ouvidos pela reportagem do Jornal Nippak, Rafael Silva, Aurélio Miguel e Tiago Camilo também enalteceram a trajetória vitoriosa do homenageado.
Rafael Silva, o Baby, bronze em Londres 2012 e na Rio 2016, disse que o “Sensei Ishii foi o precursor”. “Primeiro medalhista, ele fez com que outros atletas acreditassem que era possível medalhar em Olimpíadas e deixa um legado muito importante não só para os judocas como também para todos atletas que se inspiram nele”.
Aurélio Miguel, ouro em Seul 1988 e bronze em Atlanta 1996, explicou que a conquista de Ishii “alavancou todo o esporte do nosso pais”. “Como professor ele ensinou muito transmitindo toda sua experiência e foi uma referência para o judô paulista e para o judô brasileiro”.
Tiago Camilo, prata em Sydney 2000, afirmou que o momento era de “gratidão”. “Acredito que para nós estarmos aqui hoje alguém teve que fazer acontecer. E foi o sensei Ishii que abriu as portas para nós. Acho que esse momento é de gratidão e de respeito”.
“O projeto do Hall da Fama foi criado pelo COB para reconhecer grandes atletas brasileiros, que construíram, com muito sacrifício, uma tradição de medalhas olímpicas que temos hoje. A conquista de uma medalha era muito difícil. Hoje, o Brasil já vai para os Jogos com uma expectativa maior. Isso só foi possível com a participação de atletas como o sensei Ishii. Essa homenagem é mais que um reconhecimento. É um agradecimento, não só pela conquista olímpica, mas pelo legado que deixou para o judô. Sem a história dele, certamente o Brasil não teria atingido as 22 medalhas que a modalidade conquistou até hoje em Jogos Olímpicos”, disse Rogério Sampaio, ouro em Barcelona 1992.

Chiaki Ishii ao lado da filha, Vânia, e de outros medalhistas (Aldo Shiguti)

Mural – As mãos de Ishii ficarão eternizadas no mural que será inaugurado no Parque Aquático Maria Lenk. Além dele, o Hall da Fama do COB já conta com outros homenageados como Torben Grael (vela), a dupla Sandra Pires e Jackie Silva (vôlei de praia), Vanderlei Cordeiro de Lima (atletismo) e Hortência Marcari (basquete). Ainda em 2019, o COB homenageará outros nove nomes no Hall da Fama: Paula (basquete), Joaquim Cruz (atletismo), Bernardinho e José Roberto Guimarães (vôlei); e os já falecidos Guilherme Paraense (tiro esportivo), João do Pulo (atletismo), Maria Lenk (natação) e Sylvio Magalhães Padilha (atletismo).

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