Comissão anuncia próxima etapa do ‘Network entre jovens nikkeis’

(Jiro Mochizuki)

Alvo de constante preocupação do Consulado Geral do Japão em São Paulo, a questão envolvendo os ex-dekaseguis, ou trabalhadores brasileiros retornados do Japão – como preferem alguns – serviu de mote para o evento “Network entre jovens nikkeis”, realizado no último dia 26, no Salão Nobre do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social). O evento é uma iniciativa do Bunkyo e conta com apoio do Consulado Geral do Japão em São Paulo, JCI Brasil-Japão, Nippon Country Club (Academia do Futuro) e aFundação Kunito Miyasaka.
Nesta primeira etapa, participaram cerca de 90 ex-dekaseguis e representantes de associações como André Saito (SBGC); Luciano Matsumoto (projeto Okaeri, de Londrina), chef Telma Shiraishi, Joe Hirata e as irmãs blogueiras Maru e Jeru.
Se a primeira impressão é a que fica, o projeto tem tudo para colher bons frutos. Para quem está acostumado a frequentar os eventos no Bunkyo, o de sábado surpreendeu não só por reunir pessoas “diferentes”, isto é, que não estão acostumadas a frequentar a entidade, como também pelo entusiasmo dos participantes – a maioria entre 15 e 35 anos. Afinal, a programação teve início às 10 horas e invadiu a tarde de sábado – terminou por volta das 18h30.

Para Marcelo Hideshima, balanço do encontro foi produtivo (Jiro Mochizuki)

“O balanço é de que foi muito produtivo. Considero que o encontro atingiu nosso objetivo, que era trazer esses jovens para um ambiente acolhedor, um ambiente em que pudessem compartilhar suas histórias e seus sentimentos e mostrar que eles não estão sozinhos. Que existem pessoas, existem organizações e existem empresas e associações que estão ao lado deles e que juntos vamos construir algo novo”, explicou o coordenador do projeto, Marcelo Hideshima.
Segundo ele, a comissão – formada ainda pelo presidente da JCI Brasil-Japão, Rodolfo Wada, Wagner Vilela (Academia do Futuro daoNippon Country Club), Philipe Yoshio Yoshizane (ex-dekassegui, de BH), e Esther Yoshinaga (assessora da Presidência do Bunkyo), além da jornalista Célia Abe Oi, a também assessora da Presidência do Bunkyo Marcia Mariko Nakano, o secretário da JCI Brasil-Japão, Hugo Teruya e a psicóloga Emília Yoshinaga, entre outros – deve se reunir com diretores do Bunkyo e com o próprio Consulado para alinhar os trabalhos.
Hideshima revelou também que a comissão deve fazer uma avaliação e analisar os questionários nos próximos dias. O que já está certo é que a psicóloga Emília Yoshinaga deve iniciar atendimento em uma sala cedida pelo Bunkyo na próxima semana.

Focos – Hideshima explica que o atendimento psicológico é um dos focos do projeto, mas não o único. A ideia é atuar também no ensino da língua portuguesa e até mesmo enviando currículos para empresas cadastradas no projeto, denominada Empresa Amiga.
Ele, porém, explica que a preocupação inicial é a de “conectar esses jovens”. “Nós, que pertencemos a diversas entidades e temos várias oportunidades, porque não estender essa possibilidade para eles também?”, indaga Hideshima, explicando que ficou surpreso com o número de jovens presentes no evento que não conheciam entidades voltadas para o segmento jovem. “Tanto que eles ficaram interessados nos cursos oferecidos pela Asebex (Associação Brasileira de Ex-Bolsistas no Japão) e da Abjica (Associação dos Bolsistas da Jica)”, disse Hideshima, acrescentando que a ideia é justamente inserir esses jovens na comunidade através de atividades das associações.
“Por enquanto não sabemos a proporção que isso pode atingir. Sabemos que existe um problema e, como sociedade organizada, não podemos fechar os ollhos. E o Bunkyo, como principal entidade representativa da comunidade, deve levar esta mensagem, seja para o Consulado seja para a própria sociedade brasileira através dos poderes públicos”, conta Hideshima, lembrando que o ministro da Embaixada do Japão no Brasil, Naoki Hikota, esteve presente no evento de sábado.

Akira Kusunoki (1º à esq.) com empresas apoiadoras do projeto (Jiro Mochizuki)

30 anos – Já o cônsul adjunto Akira Kusunoki destacou que, apesar de atento à questão, “oficialmente” o projeto é uma inciativa do Comitê Jovem do Bunkyo. “O Consulado poderia tomar a iniciativa como também poderia compartilhar essa responsabilidade. Então, conversamos e decidimos apoiar o projeto”, disse o cônsul, afirmando que o Consulado está envolvido desde que o movimento de ida de trabalhadores brasileiros ao Japão teve início.
“Em 1990, a lei de imigração do Japão foi reformada e desde então muitos brasileitros foram ao Japão em busca de trabalho”, contou Kusunoki, explicando que em 2007, um ano antes do governo japonês apresentar um plano de emergência para repatriar os dekasseguis, o número de trabalhadores brasileiros no Japão atingiu a marca de 320 mil, um recorde em toda a sua história.
“Hoje estamos com mais ou menos 200 mil nipo-brasileiros residindo no Japão”, estima Kusunoki que, pessoalmente, é contra o uso da palavra “dekassegui”.

Participantes buscam informações sobre o trabalho de associações (Jiro Mochizuki)

Crise de identidade – “Sou contra não só por causa da conotação um pouco pejorativa – que significa mais ou menos caipira – a palavra dekassegui refere-se, sobretudo, a agricultores que aproveitam o inverno japonês, quando não tem trabalho, para irem para Tóquio e depois retornarem para suas casas. Sou contra também porque não reflete a realidade. A maioria dos brasileiros que vive hoje no Japão tem visto permanente, tem casa própria, tem emprego fixo, então não podem ser considerados dekasaseguis”, explicou o cônsul, afirmando que o número de retornados deve ser maior que os 120 mil oficiais. “Antes de 2007 já havia muita gente que tinha retornado após atingir seu objetivo, que era comprar casa ou abrir seu próprio negócio. O número deve ser de 150 mil ou mais, entre eles, muitos jovens que nasceram no Japão e estão enfretando crise de identidade”, disse ele.
“Ninguém sabe ao certo o número de retornados, mas sabemos que eles estão enfrentando problemas de crise de identidade, mas não é só isso. Por outro lado, eles também oferecem oportunidades para a comumidade nikkei e para o Japão porque eles são recursos humanos capazes de contribuir para fortalecer os laços de amizade dos dois países”, destacou o cônsul, afirmando que “temos que debater e encontrar uma solução para o problema e também como aproveitar estas oportunidades”. “No ano que vem, esse movimento completa 30 anos. É uma geração, e este evento é um momento oportuno para debater esta questão”, concluiu.

André Saito coordena dinâmica de grupo com os participantes do projeto Network entre jovens nikkeis (Jiro Mochizuki)

Heróis – Após a cerimônia de abertura, os participantes se reuniram para uma dinâmica em grupo, visitaram o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, assistiram palestras – como as de André Saito e Luciano Matsumoto – e paineis com as irmãs blogueiras Maru e Jeru (que têm mais de 2 milhões de seguidores) e puderam conhecer um pouco mais sobre as instituições parceiras, como a Academia do Futuro (Nippon Country Club), Abeuni, Asebex, JCI Brasil-Japão, Comissão de Jovens, Abjica e Abeuni).
Roberto Nishio, que preside a Fundação Kunito Miyasaka, considerou o evento “um dos mais importantes já realizados por envolver jovens que trabalharam no Japão”. “Para nós, da Fundação, vocês são verdadeiros heróis e importantíssimos para comunidade nikkei”, disse Nishio, lembrando que, à época que trabalhava no extinto Banco América do Sul, o economista Affonso Celso Pastores já destaca a importância dos dekasseguis para a balança comercial do país. “Se considerem vitoriosos”, disse Nishio.

As blogueiras Maru e Jeru contaram suas experiências (Jiro Mochizuki)

Depoimentos dos participantes

Henrique Utiyama Dutra Pereira
“O mérito foi sentir que, não somente eu, outras pessoas passaram pelo mesmos problemas que eu. Fui aos 4 anos de idade para o Japão, nem sabia falar o português, imagine o japonês. Foi muito difícil fazer amigos”.

Carlos Uemura
“Não queria ir ao Japão, mas tive de acompanhar os meus pais. Em 1991 comecei a trabalhar numa fábrica em que eu era o único brasileiro. Felizmente teve um japonês que, com toda paciência, me ensinou o serviço e a língua. Trabalhei bastante e não tive oportunidade de estudar. Nunca abandonei a ideia de retornar ao Brasil por causa de meus filhos. Não queria que sofressem como eu. A terra deles é aqui. Meu filho queria ir trabalhar no Japão, mas fiz com ele um trato com ele, poderá ir somente depois de terminar a faculdade, o curso de robótica. Quero que vá ao Japão para trabalhar na empresa, de igual para igual. Obrigado pela oportunidade deste encontro, Foi importante sentirmos acolhidos, que tem gente que gosta da gente, que se importa com a gente”.

Augusto Yoshiharu Santos Suzuki
“Sou lider do grupo casual de internet chamado Muriwa que reúne jovens retornados do Japão. Fui ao Japão aos 8 anos e retornei ao Brasil aos 24 anos. O processo de readaptação não é fácil, acho que todos passam por essa dificuldade. Acabei me isolando em casa, nem conversava com a família e jogava dia e noite os game on line. Engordei, cheguei a pesar 115 quilos. Fui ajudado pelo professor de colegial de minha irmã mais velha que conseguiu levantar a minha auto-estima. Voltar a estudar não é simples, se formar e construir uma carreira. Considero que o evento de hoje foi bom, alegre, que permitiu compartilhar as coisas mais casuais entre nós, criou a empatia e interação. Permitiu encontrar alguém que poudesse compartilhar nossa experiência”.

Cristiane Takeshita
“Meu pai foi só ao Japão e dois anos depois fomos eu e minha mãe. Ficamos em Tóquio. Eu me considero nihonjin. Lembro que no 4o ano do Shogakko, a professora Tsuru Emiko na aula de Kokugo (língua) lendo um livro, fez uma determinada pergunta e dividiu a classe em 3 turmas. Eu acabei ficando num grupo, sozinha. Não desisti, respondi a pergunta e no final, a minha resposta que estava certa. Depois, algumas pessoas mudaram de opinião e resolveram fazer parte do meu grupo. Sempre fui bem na parte de interpretação de texto. Depois disso, nunca mais me senti reprimida, andei sempre de cabeça erguida. Gostei do evento, mas só sentir falta de mais tempo para poder interagir mais com presentes”.

Lucas Minoru Yokota
“Sou um curioso, não sou propriamente um dekassegui, mas que seria muito legal participar. Sempre achei que entre os dekassegui seria uma única história – a família que vai ao Japão para juntar recursos para os filhos estudarem. Na realidade, as histórias são as mais variadas. Achei interessante criar um ambiente em que se as pessoas se sentiram seguras para falar sobre as suas histórias, o que deu certo, o que deu errado. Saio daqui com uma sensação de que aprendi mais e com uma empatia muito forte, vamos trabalhar que junto somos mais fortes”.
(Colaborou: Célia Abe Oi)

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