Colônia Hirano preserva história de seu fundador

(Aldo Shiguti)
(Aldo Shiguti)

Um evento grandioso e repleto de significados para os moradores e ex-moradores da Colônia Hirano marcou a Cerimônia em Reverência aos 100 Anos do Falecimento do Fundador da Colônia Hirano, Humpei Hirano. Realizado no último dia 10, na sede da Colônia Hirano, no bairro Três Barras, em Cafelândia (SP), pela Associação Cultural Agrícola e Esportiva Hirano, o evento contou com a participação de cerca de 300 pessoas.

Ofício Memorial com o bispo Kajiwara (Aldo Shiguti)
Ofício Memorial com o bispo Kajiwara (Aldo Shiguti)

Destaque para a presença do cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, que acompanhou toda a cerimônia, e do bispo da Federação Sul-Americana Jodo Shinshu Honpa Hongwanji, Mario Kajiwara, que celebrou o Ofício Memorial.
Estiveram presentes também o presidente da Federação das Associações Culturais Nipo-Brasileiras da Noroeste, Shinichi Yassunaga; o presidente da Associação Cultural de Cafelândia, Nelson Kiyoshi Murae, o presidente da Federação das Associações Culturais Nipo-Brasileiras da Noroeste – Setor 1B, Takenobu Okaji; o presidente da Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Promissão, Fábio Maeda; o presidente da Associação dos Shizuoka Kenjin do Brasil, Nagato Hara; o presidente da Câmara Municipal de Cafelândia, Adilson Cirilo de Paula e o presidente do Templo Honpa Hongwanji de Lins, Kazunori Yassunaga, entre outros.
A programação teve início por volta das 9h30, com uma visita ao cemitério – distante cerca de 4 km da sede, seguindo por uma estrada de terra. No local estão enterrados os restos mortais do fundador e de algumas famílias pioneiras da Colônia Hirano. Hoje, conta o presidente da associação, Fábio Yamashita, os que vem a falecer estão sendo sepultados no cemitério da cidade.

Fábio Yamashita e o cônsul do Japão depositam flores no túmulo de Humpei Hirano (Aldo Shiguti)
Fábio Yamashita e o cônsul do Japão depositam flores no túmulo de Humpei Hirano (Aldo Shiguti)

No local, o bispo Kajiwara celebrou um culto. E o cônsul Yasushi Noguchi e o presidente da associação depositaram flores no túmulo do fundador. Como de costume, além do incenso, também foi oferecida uma genuína pinga, bebida que lhe fazia “companhia”.

Nagato Hara e Kazunori Yassunaga (Aldo Shiguti)
Nagato Hara e Kazunori Yassunaga (Aldo Shiguti)

De lá, a programação voltou para a sede, no Monumento em Homenagem à Fundação da Colônia Hirano, onde também está o busto do fundador. A Cerimônia Memorial, propriamente dita, foi celebrada pelo bispo Kajiwara no Templo Heianzan Komyoji (Templo budista da Seita Jodo Shinshu Hompa Hongwanji), o primeiro tempo budista construído no país. De acordo com Fabio Yamashita, a construção atual data de 1950, portanto, em 2020 estará comemorando 70 anos.

Jovens participam da oferenda (Aldo Shiguti)
Jovens participam da oferenda (Aldo Shiguti)

Como acontece em ocasiões especiais, o público também acompanhou a celebração em aparelhos de TV instalados do lado de fora do salão. Durante a cerimônia religiosa aconteceram o ritual de oferendas, com a participação de jovens e os discursos das autoridades, além do sermão do bispo.

Ideal de servir – Na qualidade de representante da Federação das Associações Culturais Nipo-Brasileiras da Noroeste – Setor 1B, Takenobu Okaji destacou o “ideal de servir” de Humpei Hirano. Ou como se costuma dizer no Rotary Internacional: ‘dar de si sem pensar em si’.

O vereador Adilson Cirilo de Paula (Aldo Shiguti)
O vereador Adilson Cirilo de Paula (Aldo Shiguti)

Já o presidente da Câmara Municipal de Cafelândia, Adilson Cirillo de Paula, lembrou das dificuldades enfrentadas por Humpei Hirano. “Hoje, a tecnologia tornou tudo mais fácil, mas imagina a luta desse senhor e desses desbravadores há 100 anos. Que história e que exemplo de vida eles deixaram para todos nós”, disse o vereador, que também fez um elogio à imigração japonesa. “Ah, se todos os imigrantes que formam esse nosso grande Brasil fossem como a comunidade japonesa. Com certeza a gente não ouviria tantas coisas ruins na televisão. Ouviríamos só educação e respeito à cultura que esse povo trouxe lá de trás e fincou aqui no Brasil”, afirmou.

Líder – Nagato Hara, que também estava representando a presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Harumi Goya, enalteceu as qualidades “do líder”, “do visionário” e “do desbravador” Humpei Hirano.
“Nós, de Shizuoka, nos sentimos bastante orgulhosos de falar sobre Humpei Hirano. Um rapaz bastante jovem que desde a infância tinha um ideal, um objetivo, de fazer o que ele fez. Só que ele não estava voltado para a América do Sul, mas Deus quis que assim fosse e junto com ele, o Ryo Mizuno e outras pessoas vieram antes para recepcionar os demais imigrantes que vieram no Kasato Maru, em 1908. Sendo um cidadão de Shizuoka, gostaria de destacar não as qualidades mas reforçar o fato de o Humpei Hirano ser um jovem de 20 e poucos e ter visualizado tudo isso há cerca de 110 anos. Toda família só sente confiança em tocar uma coisa quando você tem uma raiz, ou seja, uma propriedade, e isso, o Humpei Hirano era uma pessoa que enxergava longe, um homem que sabia agregar os sentimentos do povo japonês. ”, disse Nagato, que agradeceu a Associação Cultural Agrícola e Esportiva Hirano por preservar a memória “do ilustre shizukano” e ofereceu a parceria da Associação dos Shizuoka “para manter sempre viva a imagem do grande Humpei Hirano”.
“O destino quis que ele falecesse mais cedo, mas quando o ideal é uma coisa boa, firme e positivo, os objetivos permanecem”, observou Nagato Hara.

Princesa Mako – Em sua terceira visita à Colônia Hirano desde que assumiu a condição de cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi expressou “profundo respeito à contribuição e determinação de Humpei Hirano por liderar a imigração japonesa na Colôna Hirano”.
“Hoje, descendentes de japoneses estão muito satisfeitos de estar aqui, trabalhando e contribuindo para ajudar a melhorar a sociedade brasileira. Como cônsul geral do Japão em São Paulo estou muito orgulhoso desta contribuição da imigração japonesa em muitos campos”, enfatizou o cônsul, que também agradeceu a população de Cafelândia por receber bem, no ano passado, Sua Alteza Imperial, a princesa Mako. “Graças a vocês, ela ficou muito satisfeita com sua viagem, a primeira visita de um membro da família imperial japonesa aqui em Hirano. Ela sentiu de perto o carinho da população de Cafelândia e ficou impressionada com a enorme presença nikkei em Cafelândia”, disse Noguchi, destacando ainda que ficou “muito feliz” com a retribuição da princesa à acolhida, estendendo suas mãos para cumprimentar todos os que a aguardavam, mesmo contra a orientação protocolar. “Ela mostrou simpatia aos cidadãos de Cafelândia. Essa visita fez grande sucesso”, garantiu o cônsul.

Gratidão – Já o bispo Kajiwara falou sobre a importância da gratidão. Disse que, “embora não tenhamos tido oportunidade de encontrá-lo (Humpei Hirano) fisicamente nesse mundo, todas as condições foram favoráveis para que a gente pudesse estar aqui reunidos na data de hoje”. Se nossa vida existe é porque nós tivemos nossos pais e nossos ancestrais. Então, antes de mais nada, nós temos que reconhecer e compreender que nós recebemos a coisa mais preciosa desse mundo, que é essa nossa própria vida através da vida de nossso ancestrais”, disse o bispo. “Se estamos na posição de quem está recebendo as coisas, temos que tentar agradecer, mas infelizmente, o sentimento de gratidão é o sentimento que menos surge espontaneamente em nossos corações. Os nossos desejos, os nossos apegos e nossa ignorância é que afloram cada vez mais”, lamentou o bispo, que finalizou com a leitura das Cartas de Renney, Capítulo sobre As Cinzas Brancas.

Cônsul e Yamashita descerram placa (Aldo Shiguti)
Cônsul e Yamashita descerram placa (Aldo Shiguti)

Homenagem – Por fim, os convidados se dirigiram ao Kaikan, onde foi servido o almoço. Antes, Yasushi Noguchi e Fábio Yamashita descerraram uma placa em homenagem ao fundador, e o presidente da Federação das Asasociações Culturais Nipo-Brasileiras da Noroeste, Shinichi Yassunaga, foi homenageado pela Associação Cultural, Agrícola de Esportiva Hirano por sua contribuição.

Shinichi Yassunaga recebe homenagem (Aldo Shiguti)
Shinichi Yassunaga recebe homenagem (Aldo Shiguti)

Ao Jornal Nippak, Shinichi disse que ficou surpreso com a homenagem, “ainda mais em um momento tão especial”. “Esta homenagem não é só minha, mas de todas as associações da Noroeste que me reconduziram como presidente para mais um mandato. Nada mais fiz do que cumprir meu papel como presidente, sempre dando total apoio à Colônia Hirano”, disse Shinichi

Depoimentos – Entre os convidados, muitos vieram de longe. Como Tomoko Hirakuri, que nasceu na Colônia Hirano e hoje mora em Assaí, no Paraná. Acompanhada do marido, Mario, Tomoko conta que deixou a Colônia Hirano em 1988 para trabalhar mas sempre que pode arruma um jeito para visitar a Colônia Hirano, como na comemoração do Centenário, em 2015.
Tubono, mais conhecido por Uno, de 86 anos, estava voltando à Colônia Hirano depois de 66 anos. “Nasci na Fazenda Selva, distante cerca de 30 quilômetros da Colônia Hirano e cresci em Tangará 3, onde fiquei uns sete anos. Quando recebi o convite, reservei a data e fiz questão de estar presente aqui hoje porque toda minha educação foi feita aqui”, disse Uno, que atualmente mora em Adamantina.
O presidente da Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Promissão, Fábio Maeda, destacou a importância do evento. “Através da cerimônia constatamos todo respeito e gratidão que a Colônia Hirano dedica àquele que liderou os imigrantes japoneses naquele local”, disse Maeda ao Nippak.

Fábio Yamashita (Aldo Shiguti)
Fábio Yamashita (Aldo Shiguti)

Busto – Já no encerramento, Fábio Yamashita pôde, enfim, respirar aliviado. Segundo ele, os preparativos para a cerimônia tiveram início no final de dezembro, ainda sob a empolgação da visita da princesa Mako. “Nossa preocupação era atingir a expectativa de todos em relação a importância da data, mas graças a colaboração de todos conseguimos realizar uma celebração â altura”, destacou Yamashita, que também anunciou a substituição do busto de Humpei Hirano, que ficava na praça que leva o seu nome, no bairro do Cambuci (zona Sul de São Paulo). O primeiro, em bronze, foi furtado. Desta vez, o busto será todo em concreto. Segundo Shinichi Yassunaga, a Subprefeitura da Sé já autorizou a substituição.
“São ações que tem como objetivo preservar e divulgar a memória do nosso fundador, até porque o número de famílias está diminuindo e precisamos que essa história seja passada para as novas gerações”, explicou Fábio Yamashita.

Quem foi – Colônia Hirano preserva história Natural do município de Ogasa-Wara, na província de Shizuoka, Humpei Hirano chegou ao Brasil em 3 de maio de 1908, como um dos intérpretes para recepcionar e auxiliar os primeiros imigrantes do navio Kasato Maru. Após passagem pela Fazenda Guatapará, em 3 de agosto de 1915, ao lado de 82 famílias de imigrantes, iniciariam com recursos próprios a formação da primeira colônia japonesa no Brasil – colônia que em sua homenagem recebeu o nome de Colônia Hirano.
Falecido em 6 de fevereiro de 1919, com apenas 34 anos de idade – vítima de malária – não pôde ver seu sonho realizado por completo, porém, mesmo com a ausência de seu líder, a colônia prosperou e 100 anos depois permanece viva preservando sua história, tradições e cultura.

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