【Cultura Japonesa Vol. 3】Chiune Sugihara

O VISTO PARA A VIDA DIPLOMATA JAPONÊS SALVA A VIDA DE SEIS MIL JUDEUS

Texto de Masaomi Ise
24 de Janeiro de 1998

Em julho de 1940, Chiune Sugihara prosseguia emitindo vistos aos judeus no Consulado Japonês da Lituânia, contrariando a diretriz do Ministério do Exterior. O mérito dessa ação só foi devidamente reconhecido nos finais da década de 90. Recordemos esse serviço prestado em segredo à causa de um povo minoritário. (A redação)

Avalanche de judeus

Manhã de 27 de julho de 1940. Chiune Sugihara, cônsul japonês em atividade no consulado da Lituânia, pequeno país do litoral do Mar Báltico, percebeu lá fora uma agitação anormal. O que viu ao olhar pela janela de seu escritório foi um mar escuro de gente aglomerada sem deixar espaços ao redor do edifício.

O garçom Barislav já fora investigar o que ocorria. Eram judeus que haviam vindo a pé desde a Polônia até ali fugindo dos nazistas alemães. Pretendiam seguir via Japão para os Estados Unidos ou Israel, e precisavam de visto de trânsito. Segundo Barislav, havia no momento uns duzentos judeus, mas esse número deveria crescer em poucos dias para alguns milhares.

Por acordo secreto, a Alemanha nazista e a União Soviética haviam invadido a Polônia simultaneamente em setembro do ano anterior para repartir entre eles o país dividindo-o entre leste e oeste. Aquelas pessoas haviam escapado da caça aos judeus organizada na Polônia ocupada pelos nazistas, e vieram até a Lituânia, diante do Mar Báltico, à procura de refúgio. Com a Holanda e a França já derrotadas pelos alemães, não lhes restava outra rota para fugir dos nazistas a não ser por Sibéria e Japão.

[Em meio à multidão à espera do visto,uma criança de rostinho sujo segura a mão do pai.]

(Sra. Sachiko, esposa do cônsul, assim como as demais citações seguintes entre colchetes)

A população local e soldados da tropa alemã assistindo à queima de uma sinagoga na Lituânia - foto de 1941 (Wikipedia Commons)
A população local e soldados da tropa alemã assistindo à queima de uma sinagoga na Lituânia -foto de 1941 (Wikipedia Commons)

 

O sofrimento e a decisão do cônsul Sugihara

Um cônsul não possuía autorização para emitir vistos a uma quantidade assim tão grande de pessoas. Sugihara solicitou permissão ao Ministério do Exterior em telegrama cifrado. A resposta veio negativa. O Ministério não permitia uma ação hostil à Alemanha no momento em que se propunha a formar a tríplice aliança entre Japão, Alemanha e Itália.

Entretanto, os judeus seriam mortos caso o visto não fosse concedido. Sugihara não desistiu. Repetiu o pedido duas, três vezes por telegrama. Consoante o acordo secreto com a Alemanha, a União Soviética anexava também a Lituânia em 3 de agosto e ordenava ao consulado japonês que se retirasse no decurso desse mês. O Ministério do Exterior também ordenava retirada imediata.

[Ouço ranger a cama do meu marido, insone sem poder decidir sobre o visto]

Mas finalmente, Sugihara tomava uma decisão. Disse à esposa:

[“Sachiko, eu vou desobedecer ao Ministério e emitir vistos usando meu poder de cônsul. Está bem?”

“Não sei o que será de nós depois, mas faça isso.” Minha alma se unia à do meu marido. A vida de uma multidão de pessoas estava em nossas mãos. Meu marido já se conformava em ser demitido do Ministério do Exterior.

“Em último caso, quem sabe dê para vivermos da língua russa”, disse ele em um murmúrio. Percebi em suas palavras a inevitável insegurança.

“Não se aflija. Teremos quem sabe problemas com os nazistas, mas eles não vão atingir a nossa família.” Sem essa determinação, era impossível.]

Visto manuscrito pelo cônsul Chiune Sugihara (Wikipedia Commons)
Visto manuscrito pelo cônsul Chiune Sugihara (Wikipedia Commons)

 

O visto que continuou sendo concedido

[Quando meu marido se dirigiu à multidão através das grades para anunciar que os vistos seriam concedidos, as pessoas emudeceram por um instante. Pareciam atordoadas por choque elétrico. E no instante seguinte, houve uma grande comoção. Eles se abraçavam e beijavam, erguiam ao céu os braços abertos em prece de gratidão, as mães erguiam as crianças em seus braços em alegria incontida. A felicidade daquelas pessoas se transmitiu até a mim, que observava da janela.]

Por um mês desde esse dia, Sugihara continuou emitindo vistos todos os dias, de manhã até a noite. Estabelecera para si a meta de emitir diariamente 300 vistos. Redigia-os com os próprios punhos, escrevendo os nomes de cada um deles com cuidado para não errar. A caneta-tinteiro se arrebentara de tanto escrever. Continuou molhando a pena em tinta. Para maior eficiência, suprimiu a numeração e dispensou a cobrança de taxa. Terminado o dia, desabava na cama e adormecia, enquanto a esposa lhe aplicava massagens no braço dolorido.

Lá fora, uma multidão de judeus aguardava atendimento de pé, desde a manhã até a noite. Uma senhora, ao chegar finalmente a sua vez, ajoelhou-se diante de Sugihara e lhe beijou os pés. As noites eram frias, mas alguns acampavam no jardim das proximidades para aguardar a vez.

Por diversas vezes, os russos enviaram ordens de retirada. Por fim, Sugihara fechou o consulado em 28 de agosto e se transferiu para um hotel. Mas deixou um aviso pregado na porta do consulado, e assim, os judeus iam até lá. Continuou emitindo vistos, agora escritos em qualquer folha de papel disponível.

“Banzai, Nippon!”

Em 1 de setembro, esgotado já o prazo para a retirada, Sugihara embarcou em um trem de uma linha internacional com destino a Berlim. Mas algumas pessoas foram até a estação atrás de vistos. Debruçando sobre a janela do vagão, Sugihara continuou a redigir vistos.

O trem começava a se mover.

[“Desculpem-me por favor, eu já não consigo escrever! Estarei rezando pela salvação de todos!” – disse meu marido revelando na face o sofrimento que sentia. Os rostos daquelas pessoas estáticas e estupefatas permanecem gravados em meus olhos, no fundo da retina.

“Banzai, Nippon!” – alguém gritou. Meu marido pedira a cada um que recebia o visto que se manifestasse assim. Ele era diplomata, amava sua pátria. Com isso, esperava com certeza que o sentimento de gratidão que as pessoas lhe devotavam se transferisse ao Japão. “Sugihaaara! Não vamos esquecê-lo! Iremos encontrá-lo!” Uma pessoa gritava, chorando ao lado do trem enquanto corria com ele. Ele continuou gritando diversas vezes, até nos perder de vista.]

A casa onde funcionava o consulado japonês em Kaunas (Wikipedia Commons)
A casa onde funcionava o consulado japonês em Kaunas (Wikipedia Commons)

Ao Ja pão

De posse do visto, os judeus foram embarcados em grupos de centenas em trens abarrotados sem espaço sequer para se movimentarem, e cruzaram a Sibéria. O cônsul geral japonês em Vladivostok conhecia bem Sugihara. Ele convenceu o Ministério do Exterior japonês que precisavam dar passagem aos portadores dos vistos oficiais expedidos por Sugihara, se o Japão não quisesse perder prestígio no exterior.

O navio japonês de correio Harbin Maru transportou os judeus de Vladivostok até Tsuruga em viagens semanais. Era pequeno, balançava demais sobre as ondas selvagens do Mar do Japão. Os judeus rumavam ao Japão dormindo apertados, um ao lado do outro, torturados por enjoo e frio. Mesmo assim, quando deixaram atrás os mares da União Soviética, começaram a cantar. Eles haviam sido proibidos até de cantar durante a travessia da Sibéria.

Consta dos registros que no espaço de tempo de 10 meses entre 6 de outubro de 1940 a junho do ano seguinte, 15 mil judeus chegaram a bordo do Harbin Maru até o Japão. De Tsuruga, eles se dirigiram para Kobe onde receberam os cuidados de organizações como a Associação Judaica de Kobe, a Associação Cristã e a Cruz Vermelha. “Os japoneses foram gentís conosco”, disse depois um deles à senhora Sugihara. Seguiram depois de Kobe e Yokohama para Israel e Estados Unidos.

“Procurei por 28 anos!”

Sugihara regressou ao Japão após a guerra, e foi demitido do Ministério das Relações Externas. O Quartel Geral das Forças de Ocupação havia ordenado a todos os ministérios que reduzissem seus efetivos, mas Sugihara acreditou que o fato de ter desobedecido as ordens do Ministério e emitido os vistos pesara. Ele deixou o Ministério sem dizer uma palavra.

Porém, em agosto de 1968, a embaixada de Israel o procurou por telefone. Uma pessoa de nome Nishra trabalhava na embaixada israelita no Japão no cargo de consultor. Era um dos judeus salvos por Sugihara. Os judeus estavam à procura de Sugihara por 28 anos, e finalmente o haviam descoberto.

No encontro com Sugihara, Nishra lhe mostrou um pedaço de papel já em frangalhos. Era o visto que recebera de Sugihara. Nishra apertou-lhe as mãos com lágrima nos olhos.

Em 2016, para comemorar os 30 anos da morte de Chiune Sugihara, foi criada uma rua com seu nome em Netanya, cidade da costa mediterrânea de Israel. Patrocinada pela prefeitura, a cerimônia de inauguração aconteceu em junho do mesmo ano diante de inúmeros sobreviventes e convidados, entre eles, amigos e familiares de Sugihara.(Wikipedia Commons)
Em 2016, para comemorar os 30 anos da morte de Chiune Sugihara, foi criada uma rua com seu nome em Netanya, cidade da costa mediterrânea de Israel. Patrocinada pela prefeitura, a cerimônia de inauguração aconteceu em junho do mesmo ano diante de inúmeros sobreviventes e convidados, entre eles, amigos e familiares de Sugihara.(Wikipedia Commons)

 

“Nunca o esqueceremos”

Em 1969, Sugihara visitou Israel a convite. Foi recebido por Zerach Warhaftig, ministro dos Assuntos Religiosos. Ele fora o representante dos judeus que negociara com Sugihara no consulado da Lituânia.

O ministro Warhaftig conduziu Sugihara ao memorial Yad Vashem, nos subúrbios de Jerusalém, construído para cultuar a memória dos falecidos em holocausto e homenagear os estrangeiros que salvaram judeus. Sugihara plantou nesse local uma árvore e foi agraciado com uma medalha. O memorial traz os dizeres: “Lembra- te, não te esqueças!”

Em janeiro de 1985, Sugihara recebeu do governo israelense o prêmio “Homem Justo entre os Povos”. Foi o primeiro japonês a receber esse prêmio. Na época, Sugihara estava enfermo, em leito hospitalar. Sua esposa e seu filho primogênito compareceram à cerimônia. Sugihara não se recuperou. Faleceu em 31 de julho de 1986.


Referências: (1) Yukiko Sugihara – “Rokusennin no Inochi no Visa – Hitori no Nihonnjin Gaikookan ga Yudayajin wo Sukutta” (O Visto de Vida para Seis mil Pessoas – Um diplomata Japonês Salva Judeus) – Mainichi Sonorama – 1990; (2) |Yukiko e Hiroki Sugihara – “Sugihara Chiune Monogatari”(A História de Chiune Sugihara) – Editora Kin-no-hoshi, 1995


Este texto é um capítulo extraído do primeiro volume da Cultura Japonesa.

Pode acessar a página de explicação sobre a Cultura Japonesa clicando na imagem da capa abaixo.

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