Cercado de amigos, Shinji Yonamine recebe a mais alta condecoração da Assembleia Legislativa de SP

Ushitaro Kamia e Cida Guenka “ajeitam” o Colar de Honra ao Mérito Legislativo no homenageado
Ushitaro Kamia e Cida Guenka “ajeitam” o Colar de Honra ao Mérito Legislativo no homenageado

Shinji Yonamine não deixou por menos nem mesmo no dia em que foi homenageado com a entrega do Colar de Honra ao Mérito Legislativo de São Paulo, a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa paulista. Repetiu uma característica que sempre o acompanhou e o tornou o primeiro descendente de okinawanos a receber a condecoração. Realizada no último dia 7, na sede da Associação Okinawa Kenjin do Brasil (AOKB), no bairro da Liberdade, em São Paulo, a cerimônia reuniu cerca de 300 pessoas, ou melhor, 300 amigos, e foi uma das últimas ações do deputado estadual Pedro Kaká, líder do Podemos que, acamado, não pode comparecer – foi representado pelo ex-vereador Ushitaro Kamia.

“Em casa”, Shinji foi mais uma vez “o cara”. Não à toa, experiência, sabedoria e conhecimento foram alguns dos muitos adjetivos utilizados pelos oradores que discursaram, quase todos com uma história para contar, tendo o homenageado como protagonista.

Estiveram presentes, entre outros, o presidente da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, Milton Sadao Uehara; o vice-presidente da AOKB, Rui Chibana; o presidente do Conselho Deliberativo da Associação Okinawa Patriarca, Paulo Kameya; o presidente do Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), Akeo Yogui; o presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão, Yokio Oshiro; o vereador de Santo André (Região do ABC paulista), Jorge Kina; o vereador Ota (PSB); a presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Harumi Goya; o ex-vereador e ex-deputado federal William Woo e Rute Costa Sobrinho – mais conhecida como Dona Rutinha, presidente da Associação Beneficente e Cultural do Hospital das Clínicas; além de Newton Itokazu e Marcos Teruya.

Sem sair de casa há quase dois anos desde que sofreu um aneurisma cerebral, William Woo também fez questão de levar seu abraço ao amigo e mostrar o quanto Shinji Yonamine é querido e amado por todos, não só pela comunidade nipo-brasileira, “mas por toda a comunidade uchinanchu”.

Destacou a presença de seus pais e de membros de sua equipe, como o subsecretário de Empreendedorismo e da Micro e Pequena Empresa do Governo do Estado de São Paulo, Roberto Sekiya, e lembrou que conheceu o homenageado em 2000, quando venceu sua primeira eleição para vereador e foi apresentado pelo empresário Franklin Yonamine (1927-2018).

 

Aprendizado – Filho de imigrantes asiáticos naturalizados brasileiros – o pai é de origem chinesa,  a mãe japonesa e é casado com uma coreana naturalizada brasileira –, Woo conta que queria trabalhar para a comunidade nikkei. “Por causa do meu sobrenome, poucas pessoas sabiam que minha mãe é japonesa, meu pai foi soldado japonês na Segunda Guerra Mundial e nasci em Taiwan”, disse Woo, afirmando que, daquela época para cá, “foi um aprendizado de vida”.

“O Shinji que me ensinou a gostar de hidjá (sopa de cabrito). O Shinji que me introduziu a uma família que admiro muito (a família Chibana). O Shinji que faz novos líderes como Marcos Teruya e  Tério Uehara , que vão levar o nome da comunidade a continuar lutando. O Shinji que faz todos os políticos estarem aqui hoje presente”, destacou Woo, afirmando que “o Shinji é a pessoa que mais ama e conhece as tradições okinawanas”.

Falando em nome do proponente, Ushitaro Kamia destacou a importância da homenagem explicando que Shinji Yonamine atuou não só pela cidade de São Paulo como também pelo país. Recém-empossado presidente da AOKB, Milton Sadao Uehara falou sobre o trabalho de unificação do Centro Cultural Okinawa do Brasil e da Associação Okinawa do Brasil. Trabalho lembrado também por Akeo Yogui, que começou a frequentar a AOKB “motivado” por Shinji Yonamine.

 

Altruísta – Já o presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão, Yokio Oshiro, revelou uma particularidade. “Em um momento difícil da minha vida, procurei os ombros amigos do Shinji para que pudessem me confortar pois sabia que encontraria paz e tranquilidade para seguir em frente”, explicou Oshiro, que também destacou ao trabalho de aproximação junto aos jovens.

A presidente do Bunkyo falou sobre sua amizade de mais de 30 anos com Shinji Yonamine  e do caráter “altruísta” do homenageado. “Ele está sempre disposto a estender as mãos e tenho certeza que ajudou muita gente”, observou Harumi Goya.

Paulo Kameya destacou o Shinji “guerreiro e mensageiro das tradições e, principalmente, da ancestralidade e espiritualidade do povo okinawano”.  “Que Deus continue iluminando seu caminho para novos desafios”, disse.

Mercado da Cantareira – E foi assim, cercado de amigos, que Shinji se emocionou ao lembrar sua trajetória, em especial, o período que viveu na região da Cantareira, onde começou sua vida e passou sua juventude. “Uma região muito intensa. Existe a Liberdade, mas existe uma região calorosa que é o Mercado da Cantareira”, disse Shinji, destacando que, no Mercado da Cantareira pode desfrutar da “simplicidade, da vida e do sonho do lavrador japonês”.

“Foi ali que eu aprendi a me relacionar com as pessoas”, conta, explicando que costumava reunir os amigos para irem para o bar, local de muitas conversas e também, de muitas brigas. Brigas que acabaram moldando sua personalidade de “juntar as partes negativas para se tornarem uma coisa positiva, uma coisa amigável”. “Ali, aprendi muitas coisas com meus amigos e quando vim para a Associação Okinawa, vim para ajudar a terminar esta obra e também aqui existiam dois grupos que não se relacionavam muito, um do Centro e outro de Diadema”, recorda Shinji, para quem “tudo tem seu tempo”. “E acho que fui abençoado”, diz, lembrando que na década de 80 a AOKB assistiu a transição daqueles que vieram antes da guerra para aqueles que vieram depois da guerra.

O trabalho de unir as duas entidades que, aliás, era juntas e vieram a se separar por obra do acaso, teve início em 2005, quando Akeo Yogui, o primeiro nissei a tomar posse como presidente da AOKB, e Shinji Yonamine assumiu a Presidência do CCOB. O trabalho frutificou em 2008, ano das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil.

Fundador do Seisonenkai e do Urizun (Círculo de Ex-Bolsistas de Okinawa), Shinji se formou em Engenharia Civil e em 2017 recebeu o título de Cidadão Paulistano, uma iniciativa do vereador Ota (PSB).

 

Visão – Por outro acaso da vida, a partir de 2010 sua visão começou a piorar e já em 2012 Shinji tinha que pegar o pincel atômico para auxiliá-lo em suas tarefas. “Ao chegar no fim do meu mandato já não enxergava mais nada, mas pude entregar plenamente meu cargo para o Jorge Taba. Tenho certeza que alguma coisa me ajudou lá em cima e consegui fazer essa unificação sem briga”, disse Shinji, que também é fundador e presidente da WUB (Worldwide Business Association Brasil) e presidente Mundial da Associação Internacional Uchinanchu de Comércioalém de Embaixador da Boa Vontade de Okinawa (Japão) desde 1990 e membro permanente da AOTS (Association for Overseas Rechnological Scholarship), órgão filiado ao Ministério da Indústria e Comércio Exterior do Japão.

Natural de  Araçatuba (SP), Shinji Yonamine listou sete princípios que fazem a “base da motivação do uchinanchu”, entre eles, o provérvio Ichariba Chode (“A partir do momento em que nos encontramos, somos como irmãos”), a meta do uchinanchu e a ajuda mútua.

 

Farol – No final, fez um agradecimento emocionado. “Cada um de voces é um ente iluminado. A partir do momento que parei de enxergar parece que eu virei a página do escuro, cheguei ao claro e todas as vezes que vocês pegam na minha mão, valem por cem. Não tem nada que pague por essa amizade”. E gradeceu aos netos, Lina, de 4 anos, e Yuji, de 13 anos, sua companheira, Cida Guenka, a quem há dois anos a chamou de “formiguinha”  e que agora agregou mais uma qualidade, de “farol que ilumina meu caminho e me conduz aos caminhos para que eu possa encontrar sempre coisas melhores para a minha vida”.

Veja mais fotos à pág 9

(Aldo Shiguti)

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