CANTO DO BACURO > Francisco Handa: Ascensão e queda de Barry Lyndon

Em 1975 o diretor Stanley Kubrick estreou pela Warner Bros. o premiado Barry Lyndon, baseado no romance As Memórias de Barry Lyndon, de autoria de William Makepeace Thackeray, escrito em 1844. Apesar de ter ganho prêmios como o de Melhor Fotografia e Melhor Figurino, não teria agradado muito o público. De Stanley Kubrick, antes deste, causaram alardes obras como 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de 1968, e Laranja Mecânica, de 1971. Esperavam talvez, alguma coisa mais provocativa para a época, em se tratando deste diretor original. Acontece que Barry Lynton causa um aborrecimento, em plena Guerra Fria, quando o personagem principal, o próprio Barry Lynton se apresenta excessivamente pragmático, individulista e liberal, valores tão marcantes do pensamento inglês.
Coube fazer o papel de Barry Lyndon o ator Ryan O´Neal, que em 1970 realizou Love Story, grande sucesso de bilheteria. Um tanto mais envelhecido, O´Neal representa toda a ambiguidade que o personagem exige. O cenário é a Guerra dos Sete Anos, acontecido de 1756 a 1763. Nada disso interessava ao jovem Redmond Barry, um irlandês pobre, que deve enfrentar os dilemas do mundo e sobreviver. O mundo é cruel, como um jogo de xadrez em que se deve eliminar os oponentes, começando com os peões. Nesse momento, ele não passa de uma peça dispensável, que merece desaparecer, pois seu peso é menor que as outras demais.
Este é o primeiro momento da narrativa cinematográfica, do menino pobre que espera uma chance para subir na vida. De fato isso acontece. As artimanhas são muitas, não deixando escapar uma única porta que possa conduzir ao sucesso. Sem muitas opções, Lyndon resolve ingressar no Exército Britânico, que devido ao seu esforço e aproveitando das relações com um oficial de alta patente, tem reconhecimento como alguém valoroso. Está no caminho certo. A sua carreira ao lado dos britânicos acaba ao desertar e passar para o lado dos prussianos. Claro, os britânicos eram aliados do prussianos contra os franceses, Habsburgos, russos e suecos. Isso, no entanto, não justificava a traição de Lyndon contra a Inglaterra.
O importante é se dar bem na vida. Este é o pragmatismo de Lyndon. Chegar a postos mais altos, mas principalmente não deixar uma oportunidade escapar faz parte de seus planos. Como não tinha origem privilegiada, o dinheiro lhe faltava, o que deveria ser conquistado utilizando-se de todas as artimanhas. Não era muito honesto, mas isso tinha menos importância do que o exercício da cobiça. Sem a cobiça nada se deseja e lhe faltaria energia para conquistar. Seria então a cobiça algo positivo para vencer na vida, conquistar o que deseja. No caso, Lyndon não almeja postos elevados no exército, seja de qualquer país.
Não demora muito, após conquistar a confiança dos prussianos, no momento certo, mais uma vez deserta. Não existe nenhum compromisso moral, a não ser zelar pelos próprios interesses. Esta temática pode ter chateado os críticos e principalmente o público. Pode ser que Kubrick estivesse cutucando com uma ponta afiada os habitantes deste lado do mundo, que se dizia livre, liberal, em detrimento ao autoritarismo reinante para leste dos muros de Berlin. Se a critica contra os paises do leste durante a Guerra Fria existia, não queria dizer que o individualismo ocidental fosse um valor de perfeição inquestionável. Criticar o outro lado revela uma condescendência com as próprias falhas. Sempre haverá falhas.
A situação começa a se inverter quando Lyndon se une a um jogador profissional, que com a cumplicidade dele, de cartas marcadas, a riqueza vem com a maior facilidade. Isso não basta, a ganância de Lyndon o aproxima de Lady Honoria Lyndon, uma bela aristocrata, que ainda casada, a seduz para um futuro compromisso. A morte do marido será uma questão de tempo. O filme é um tanto longo devido a transformação de Redmond Barry, o ardiloso jogador, em Barry Lyndon, um aristocrata que gasta as economias da esposa.
É como o romance desse uma parada e iniciasse a segunda parte. Nessa segunda parte, Lyndon nada tem a esconder, revela-se um pervertido, egoista, e com o tempo, reforça a sua imoralidade e uma sutil maldade vai se transformando numa maldade cada vez maior, principalmente em relação ao enteado. Despreza o enteado e acalenta um amor desmedito pelo filho bebê.
Assim posto, nem sempre os bons motivos para ascender conduz a uma finalidade boa. Existiria, neste caso, um índole má no homem ou seria apenas uma questão de escolha. Numa colocação ideológica da meritocracia não seria totalmente válida em todas as situações. Se a ganância for o motor que impulsiona determinados sujeitos, numa escala maior, pode conduzir a uma liberdade totalmente prejudicial. É o mesmo que todos os meios justificam o fim. Teria acontecido justamente isso com Lyndon, que, se inicialmente, a ganância seria um motivo plausível de ascensão, mas quando se chegou a um determinado ponto, sem que houvesse um limite, tornou-se numa força incontrolável e demoníaca.
Evidentemente, esse é um caso particular, não deve servir de generalização. Nem todos podem ser um empreendedor, seja por falta de habilidade, bem como também algo que não se adequa com a sua maneira de ser no mundo.

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