CANTO DO BACURI: Um domingo maravilhoso, de Kurosawa

Tempos que antecederam o reconhecimento como diretor de cinema, Akira Kurosawa teve que aprender como auxiliar de Kaji Takimoto, renomado mestre da Toho. Aos 25 anos, ele passou a atuar ao lado de Takimoto. Seu primeiro filme, como diretor, aconteceu em 1943 com Sugata Sanshiro, aos 33 anos. Em toda a carreira, em torno de 30 filmes foram dirigidos por Kurosawa. O filme que comentamos neste artigo é “Um domingo maravilhoso“, em japonês Subarashiki nichiyobi, de 1947, do pós-guerra guerra.
Os recursos eram mínimos para a realização, mostrando carência, seja na temática, também nos equipamentos e condições técnicas. Para “Um domingo maravilhoso“, muito pouco, senão cenários ao ar livre, necessário para um filme ao estilo neorrealista, existente no mesmo período na Itália do pós-guerra nas lentes deRosselini, De Sica e Visconti. Retratar as condições sociais e econômicas de existência era a temática, numa proposta política, social e estética. Desta forma também atuou Kurosawa, com a atuação de dois atores: Isao Numasaki e Chieko Nakakita.
Um país que tenta se recuperar da destruição pela guerra, uma angústia por ter passado por aquilo, sem heróis, sem bandeiras, nem culpados, o reinício é penoso, mas para alguns, como o casal de namorados Yuzo e Masako o sonho se amalgama com a realidade. O confronto é justamente entre polos antagônicos que se atraem e se repelem. Enquanto Yuzo encarna o cético, próximo ao desespero, a jovem Masako é o inverso. Um pouco de ilusão não faz mal a ninguém, isso lhe dá força para viver a dura realidade. Outros diretores também exploraram o tema, como Kenji Mizoguchi, em Rua da Vergonha (Akasen chitai), de 1956. Temos que nos lembrar também de Misora Hibari, em Triste assobio (Kanashiki Kuchibue) de 1949. A falta de dinheiro afeta a moral das pessoas, sendo esta uma condição necessária para a existência.
Todo o resto não importa, neste instante, nem a moral, nem os ideais elevados de abnegação e de resistência espiritual. Assim que começa o filme, a cena não poderia ser mais significativa: Yuzo espera alguém, num ponto qualquer, a fim de passar o dia de domingo. Poderia ser Tóquio. As vestes de Yuzo estão surradas e leva na cabeça um chapéu amassado. De repente, vê abaixo uma bituca de cigarro. Olha de um lado, de outro, e célere para pegar o precioso prêmio. Uma mão surge e bate para que ele largue. Não se sabe de quem. A câmera está focada nas mãos. Depois se afasta e revela a presença de Masako, de beleza comum, com um rosto redondo. Masako poderia ser qualquer mulher japonesa. Era justo ela que batera na mão de Yuzo, revelou-se depois. Não se nada fala a respeito, desconversam.
Yuzo diz que fazem três dias que não coloca um cigarro na boca. Assim se inicia o filme de Kurosawa, com roteiro do próprio e de Keinusuke Uesuka. Yuzo carrega no bolso um insignificante 10 yenes e Masako 15 yenes. Muito pouco para passar o dia todo de um domingo maravilhoso. O próprio título não seria uma provocação ao público devido ao escárnio. Ou seria o contrário. Poderia evadir-se da sala, pois os acontecimentos eram previsíveis. Podemos ficar na sala e ver o que nos propõe Kurosawa neste momento.
O que se mostra são cenas exteriores, nas ruas, como um imenso painel que anuncia o lançamento de um apartamento. O preço assusta os nossos protagonistas, muito além do que podem desejar. Nem sonhar. Não é o que pensa Masako, que recupera os antigos sonhos, de abrirem juntos, após casarem-se, de um bar café. Entram num apartamento do showroom. Deixam os sapatos na entrada e, de relance, Yuzo verifica os de Masako, a sola soltando-se na parte dianteira. Podemos rir da situação ou fechar a cara apenas. Yuzo prefere fechar.
Nem tudo está perdido, o ânimo de Masako nos contagia, enquanto o de Yuzo nos leva ao desespero. Temos que concordar com Yuzo, na condição deles, a dos japoneses do pós guerra, era de cautela, sem muitos sonhos, mas acreditar na realidade concreta da existência não ajudaria em nada. Nesta contradição da existência humana entre o material e o espírito, entre o econômico e o social, entre a rebeldia e a ponderação, Akira Kurosawa nos conduz a uma possibilidade que no cinema pode ser libertador enquanto expressão dos sentimentos humanos.)
Num dos desfechos, na procura de um lugar para se divertir, que fosse gratúito – quem não passou por isso – o casal depara com um concerto ao custo de 10 yenes o ingresso. Era o que eles carregavam nos bolsos. A maldade estava presente no mundo, pois alguns cambistas compraram todos os ingressos e passam a vender por preço maior. Se a situação não estava boa, piorou.
Sem poder assistir ao concerto, ambos perambulam sem esperanças e diante de um auditório num parque público, ausente de platéia Yuzo passa a reger uma orquestra fantasma, cuja peça é a Sinfonia Inacabada, de Franz Schubert. Yuzo enlouquece por instantes, apoiado por Masako, para que o fim do dia tivesse um final feliz: Domingo Maravilhoso. A loucura é um meio para não endoidarmos de vez, algo passageiro, pois o dia tinha acabado. Outros dias haveria de surgir, com tristezas e alegrias, mas isso não era para ser pensado no momento.

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