CANTO DO BACURI: Os olhos de Ana Maria

Os olhos de Ana Maria

Quem deixou se navegar pelos olhos de Ana Maria
Jamais voltou para contar, senão enlouquecer de amores
Pois perigos são muitos na turbulência de águas insanas
Negritudes de uma noite sem estrelas para guiar
A popa, em cujo lumiar cada vez mais derrotado
Pelo canto que vem chegando e encharcando
Os tímpanos de sal que em cristais vai alojando.

Arrebatado pelos redemoinhos atlânticos
Muitos se aventuraram a perder-se completamente
Pois Ana Maria desconhece o destino infeliz destes marinheiros
Que encalham suas carcaças, barcas de velas arrancadas
Numa tempestade em que Netuno faz tremer seu tridente
Prateado, a exibir seu corpo regado de algas e mexilhões.

Daqueles que retornaram e sentiram o gosto amargo
Da bílis arrancada aos solavancos do mar revolto
Caminham pela prancha em desatino
Carregando no rosto um sorriso estranho
De ter vivido todas as emoções
Aquelas mais profundas
Mas sem arrependimento.

Os olhos de Ana Maria
Eram tão belos
Como asas de passarinho
Como passarinho frágil e selvagem
Jamais serão de alguém
Serão meus em meu pensamento
Tão líquidos como aqueles….

O pêndulo da história

Quando a dúvida se torna constante
Em que a possibilidade é uma tentativa frustrada
De realizar um ato que seja verdadeiro
Então toda a sociedade endurece
Os punhos se fecham em ataque
Pois o medo existe nas mentes e corpos
Assim os passos antes incertos
Dão de vez uma guinada
Justificada para a direita.

Nem mais a mudança é possível
Enraizada agora no solo gentil
Herdado de um passado remoto
Cada vez mais real.

A Família Real há de usufruir
Dos bens deixados
Pelos coronéis que sempre
Mandavam nas donatarias
Também mandavam
Nas almas e corpos
De senhoras e escravos
Índios e mamelucos.

O que nos ensina a História?
Nada além de mostrar-nos
Um sorriso irônico diante
Da incerteza da mudança.

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