CANTO DO BACURI: Os Amantes Crucificados

Entre os cineastas mais expressivos do cinema japonês, antes do advento do cinemascope, encontra-se Kenji Mizoguchi. A ele se faz referência o filme apreciado. Muitas vezes conhecido por Os Amantes Crucificados, trata-se do título japonês Chikamatsu Monogatari, de 1954. É uma adaptação de uma peça do teatro de títeres, do repertório poupular Joruri, muito apreciado durante os séculos XVII e XVIII. Sendo Chikamatsu um dos mais importantes criadores de peças para este teatro. Se traduzíssemos simplesmente o título em japonês, Narrativas de Chikamatsu, para o público ocidental, não teria a mesma repercussão que o chamativo Os Amantes crucificados.
Seria este filme uma homenagem ao teatro Bunraku que Mizoguchi quis realizar, como numa outra ocasião fez em relação ao Kabuki no Crisântemos tardios, de 1939. Neste último, tratou-se de um ator fracassado de Kabuki, ao lado da mulher, em suas andanças pelo interior do Japão. A presença da condição feminina como problematização nestes filmes é constante na obra de Mizoguchi. Pode-se dizer que ele era preocupado com o sofrimento feminino, num universo em que a dominação masculina era um fato, somado às necessidades materiais de existência.
A maneira de Mizoguchi contar esta narrativa, conhecida do público em geral, usando da linguagem cinematográfica trata-se de um ato de criatividade por parte dele. São cenas amplas, com vários atores e atrizes contracenando, em que o movimento natural reproduz a vida em constante desenvolvimento. Há muito o que mostrar, do que o simples enquadramento dos rostos.
Vestidos a caráter, remete ao século XVII, início do período Edo, quando do aparecimento das cidades, da classe abastada dos burgueses, que envolvidos em suas empresas, ficam cada vez mais ricos.
Existe um drama nesta classe média, de produtores e consumidores, em que os sentimentos humanos extrapolam qualquer nivel de impedimento. Existe um exagero na demonstração dos amores impossíveis, de seres apaixonados mergulhados em suas prisões subterrâneas da alma humana. Assim, teria surgido o teatro Kabuki e o Bunraku, ao gosto das classes populares. Com o advento do cinema japonês, a passagem do teatro para as telas grandes ainda se achava influenciada pela velha arte.
O que se narra em Os Amantes Crucificados, adaptado da peça Bunraku intitulado Koi Hakke Hashirogoyomi, é a moral da classe burguesa, que pretende manter padrões de dignidade da classe guerreira, aquela sendo uma classe inferior na escala social. Enquanto se permite uma certa licensiosidade por parte dos patrões, que insinuam-se para as serviçais jovens, qualquer atitude de desvio das mulheres corretas a punição exemplar é certeira. No caso, os casais que incorriam no crime de adultério sofriam uma punição pública de crucificação. Logo no início do filme mostra-se um casal sendo conduzido para o martírio. Para servir de exemplo, o casal é amarrado e juntos postos nas costas de um touro. Como um espetáculo à parte, caminham pelas ruas diante da indignação e escárnio dos outros.
Um comerciante explora os serviços de uma gráfica, nos moldes artesanais, elaborando calendários usadas pelas classes elevadas. Ele emprega muitos empregados, numa relação serviçal e subserviência por parte destes. Ainda existem muitos agricultores, plantadores de arroz nos alagados dos principes feudais. Não obstante, uma nova realidade social começa a fazer história: a vida urbana. Mohei é um empregado fiel de Ishun na cidade de Kyoto, que num ato de confiança em sua patroa, Osan, acaba envolvido num tumultuado caso amoroso. Pessoas de classes diferentes não teriam direito a um casamento, muito menos a um envolvimento.
Sabedores desta condição, procuravam distanciar-se desta possibilidade, mas alguma outra lei universal provocara a situação inversa. Estão condenados a relacionarem-se. Assim cometem o crime do adultério. O que faz com que Mohei e Osan se encontrem não depende apenas da vontade deles. É como que os deuses estivessem conspirando para a realização de um amor proibido na visão humana, nada tendo a ver com a ética dos deuses. Ao mesmo tempo que a condenação é inevitável, pois a ordem deve ser mantida, num outro nível, talvez da alma humana, a realização se consumou.
Como na tragédia grega, o papel do teatro japonês, mais tarde, no cinema, os assuntos relativos à alma novamente são colocados à prova sem impedimentos. Assim, a vida objetiva do mundo social deve ser compensada, por outro lado, nos subterrâneos da intimidade subjetiva. Não há que se negar um mundo em relação ao outro, são apenas diferentes, podemos dizer antípodas, mas cada um mantendo a sua regularidade e constância.
Penetrar fundo na alma humana foi uma das preocupações do cinema de Kenji Mizoguchi, que na década de 50 dirigiu obras primas como Oharu – a vida de uma cortesã (1952), Contos da lua vaga (1953), O intendente Sansho (1954), Os Amantes Crucificados (1954), A saga do clã Taira (1955) e Rua da Vergonha (1956). Mizoguchi é um diretor que representa uma geração que inventa uma forma de abordar assuntos populares por um viés feminista, ele próprio sensível à condição das mulheres, independentes das classes sociais. São casos de amor em que a realização somente acontece num outro universo, menos corrompido da nossa existência material, de uma forma platônica mas real naqueal categoria.
Como cantava Sakamoto Kyu, num sucesso na década de 60, quando repetia o refrão: a felicidade está acima das nuvens.

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