CANTO DO BACURI: O sol nasce para todos

Foi através do cinema que o ideal americano teria sido moldado, nas salas de projeção, parte de uma cultura massificada e, portanto, popular. De fato, uma indústria cinematográfica teria sido criada no alvorecer do século 20. Um dos expoentes deste universo formado por imagens e sons, teria sido o diretor John Ford, que explorou as nuances da alma americana em toda a sua complexidade e contradição, elementos típicos de uma cultura nacional.
Enveredando por temas que vão, do velho oeste, de duelos e intrigas, dramas e humor, em 1954, Ford lança o seu filme The sun shines bright, que em português, em sua forma chamativa foi traduzido por “O sol brilha na imensidão” ou, às vezes, de “O sol nasce para todos”. O que chama a atenção é a atuação do juiz William Pitman Priest na cidade de Kentucky em que pitadas de humor se mesclam com o conservadorismo local diante de situações delicadas como a escravidão, a moral e a hipocrisia.
O cinema pode denunciar, sem necessariamente tomar partido, penetrando fundo na alma humana em que a ambiguidade faz toda a diferença. O papel do juiz Priest coube a Charles Winninger, com o seu corpo bonachão, de meia idade, mais para velho, cuja presença torna o filme vibrante. Ele possui as suas paixões, como qualquer outro. Não quer esconder nada, inclusive o seu gosto por goles de whisky. Seria ele um irlandês? John Ford era descendente de irlandeses. Durante a Guerra da Secessão (1861 a 65), Priest teria atuado como corneteiro ao lado do exército confederado.
Sentia-se orgulho por ter sido um confederado, levando-se em consideração Kentucky, que embora tivesse lutado a favor da União, outros do mesmo estado defenderam ardorosamente a causa dos confederados. Naquela cidade havia remanescentes tanto de um lado quanto do outro, sem grandes problemas que pudessem interferir em suas vidas, assim mostrou Ford. Mas havia uma simpatia grande pelos confederados, os que perderam a guerra, através da atuação do juiz Priest.
Há um romantismo nesta questão, de que os heróis do sul mereciam ser respeitados e reverenciados. Numa das cenas é justamente isso que acontece, diante da bandeira confederada: todos tiram o chapéu colocam sobre o coração. Claro, antes tinham feito continência para a bandeira americana.
Seria esta uma das preferências do juiz Priest. Numa democracia, toda expressão de opinião é tolerável, inclusive o respeito aos derrotados do sul. Na Guerra da Secessão, os treze estados do sul proclamaram independência, o que provocou a reação dos estados industrializados do norte. A derrota não significou o abandono do maior símbolo dos que reagiram, a bandeira das treze estrelas. Mas não era isso o que fazia do juiz Priest alguém admirado. Acontece que nos Estados Unidos, no caso, o estado de Kentucky, o juiz era empossado através da vontade popular de seus cidadãos pelo voto.
Toda campanha do juiz Priest em ser reeleito dependia da simpatia dos eleitores em suas ideias e conduta na vida social. Durante o pleito dois acontecimentos poderiam dificultar a sua carreira: a defesa de um negro e também o apoio a uma prostituta. De um lado estavam os seus interesses profissionais, de outro a sua crença nos ideais liberais em que todos são iguais diante da lei dos homens e dos deuses. O que torna o juiz Priest grandioso foi justamente ao defender os princípios jurídicos de imparcialidade. O negro deve ser julgado devido uma acusação sem provas, de evidências apenas. Até que se julgue não deve ser condenado. Não é o que pensava parcela da população, que se coloca a favor de um enforcamento sem o apoio de instrumentos jurídicos. Da mesma forma, Priest vai ao enterro de uma prostituta.
Uma das cenas mais vibrante é a sem palavras. A câmera vai captando o rosto das pessoas, do juiz caminhando ao lado da carruagem fúnebre, no começo solitário, diante dos olhares de homens e mulheres, que cada um, motivado pela coragem em abandonar seus preconceitos, vai engrossando a fila dos que seguem o cortejo. Tudo isso seria capaz de colocar a reeleição de Priest num fiasco. Isso não importa neste momento.
Este filme de 1954 repetiu um outro, o de 1934, The Judge Priest, como que o diretor John Ford tivesse a necessidade de explorar um pouco mais o feito de um juiz que serviria como exemplo de um profissional do campo jurídico. A justiça foi vista por muito tempo como cega, sem tomar partido, sem a busca de vantagem pessoal. Isso não seria apenas um ideal, mas condição para que pudesse existir a Justiça. A justiça sendo realizada com os meios legais.
Em todo o momento, Priest deixou claro que a política não deve se confundir com a atividade de juiz.

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