CANTO DO BACURI > Mari Satake: Susto

Naquela manhã, ela se levantou bem cedo. Cuidou de seus afazeres, deixou a casa organizada, pegou tudo que precisava e saiu. Daquela vez, não se preocupou em fazer hora porque estava adiantada. Saiu com folga. Com tanta folga que o trânsito estava bom. Era cedo ainda. Tudo fluía bem. Enquanto se dirigia ao local, ela mesma se perguntava porque havia cancelado todos os seus compromissos do período da tarde. Ela apenas sorriu. Deve ser porque anda precisando dar uma pausa, ela pensou. Sem se preocupar muito com os cancelamentos que fez, ela prosseguiu. Pelo menos no período da manhã teria muito o que fazer. Na realidade, a única coisa que ela teria que fazer era se apresentar no local no horário estipulado, depois ela seria apenas um corpo se apresentando nas salas determinadas.
E assim foi. Muitas horas depois, entorpecida, ainda sob o efeito da anestesia, ela ouvia a voz, chamando-a de volta. Sim, agora ela poderia voltar a se vestir para tomar seu rumo. E enquanto se vestia, se dava conta de seu enorme susto. Na saída, as atendentes foram gentis, a auxiliaram na arrumação de seus pertences, fizeram-lhe inúmeras recomendações, queriam se certificar se realmente ela veio só, sem acompanhante. Sim. Mas está tudo bem, ela já se habituou. Ela saiu dali e aos poucos foi se dando conta. Ela se apresentou para fazer seus exames anuais rotineiros e de repente, o fantasma novamente a assombrava.
Andando pelas ruas já nem se lembrava dos planos anteriores para depois dos exames. Ela queria visitar tais e tais lojas, depois almoçaria naquele restaurante de quando andou por ali da outra vez. Anestesiada ainda, olhou as horas. Estava sem se alimentar já há muitas horas. Foi andando em direção à sua casa. Aos poucos, foi tomando pé de sua situação. De imediato, precisava voltar para seu pedaço. Nestas horas, o melhor a fazer é buscar o alimento nos locais que frequenta habitualmente.
Já de volta, ela olhava a tudo. Sorte que tinha deixado tudo organizado em sua casa. Pensava nos compromissos cancelados. Sorriu. Às vezes, acertamos sem saber. Atendendo às recomendações médicas, ficaria em repouso por quarenta e oito horas. Pensando bem, o final de semana estava próximo. Melhor assim. Resolveu decretar uma pausa para os próximos dias. Seus dias seriam inteiramente seu. E dos fantasmas que tentarão assombrá-la durante os dias de espera.

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