CANTO DO BACURI > Mari Satake: Retomando…

Os dias se sucedem. Um atrás do outro.
Ela se abandona em seu ritmo, fechada, enclausurada no espaço dos pequenos cuidados consigo própria. O corpo vai reagindo, a pele vai se regenerando. Ela se olha no espelho e se vê, outra vez, magra como nos dias de sua juventude. Fica feliz e ao mesmo tempo, preocupada. Tantos anos de massa corpórea, gordura e pele esticada, tudo consumido em tão pouco tempo. Será que seu fim está próximo? Ri de si mesma. Acha que não.
Olha à sua volta. Os livros. A fila dos que estavam à sua espera diminuiu consideravelmente. Está certo. Neste meio tempo, ela adquiriu novos outros. Mas estes não tiveram tempo para parar, já estão lá com os mais afortunados. À espera de novas leituras, novos leitores. Alguns até já bateram asas. Sim. Livros também foram feitos para bater asas.
A vida lá fora prossegue. Aos poucos, ela vai retomando o gosto pelas ruas. Cria lugares e roteiros para conhecer e ocupar suas horas. Sabe que dentro de mais alguns dias, já não terá mais tanto tempo, livre assim. Se assusta com o que vê pelas ruas. Tantos homens, mulheres, crianças até, ocupando os espaços das calçadas. Maltrapilhos e sujos.
Recebe alguns poucos amigos, amigas. Agora já dá para encontrá-los, ser vista. Há a alegria do instante do encontro. O alívio pela constatação de que não foi desta vez que a vida da amiga se interrompeu. Entre goles de café e chás, as conversas se sucedem. Alegres, calorosas, ruidosas, iradas às vezes. Aos poucos, as expressões comuns vão se apossando de cada um. Tristeza, desalento com o que se vê sendo feito país afora. Tudo tem seu tempo, também o tempo das visitas.
Dia após dia. Ela em seu pequeno mundo. Lá de fora, chegam as notícias. Se pergunta, vale a pena? Mas, ela sabe. Seu tempo por aqui ainda não chegou. Tenta racionalizar e encontrar as razões concretas que a prendem à vida. Não as encontra. Não importa. Importa apenas que a vida prossegue e ela deve prosseguir.
Aos poucos, vai se apossando de seus outros espaços e afazeres. As tarefas se sucedem. Ela as abraça ou é abraçada por elas? Também não importa. Cabe apenas executá-las. Na medida, e em seu tempo. Tempo que é urgente. E no corre-corre, encontra sempre uma ou outra voz amiga a lhe dizer algo que precisa ser ouvido.
Então, ela se apruma e retoma o caminho de seu pequeno mundo. Cotidianamente. Seus livros e papéis começam a se avolumar. Ela os olha e diz, daqui a pouco. Primeiro, cuidará de seu corpo e sua alma. E constata, há tempo para tudo.

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