CANTO DO BACURI > Mari Satake: Resistir

Estava com saudades aqui da coluna. Felizmente, neste tempo todo, ficou aqui o bom amigo cobrindo o espaço da coluna. Gratidão.
Confesso. Existe uma dificuldade inicial. Falar sobre o quê? Dos livros que li? Dos filmes que queria ter ido ver e não fui? Dos encontros que quis ter e faltei? Dias passados. Nada disso importa.
Importa que estamos vivos e há que se remar vigorosamente. Mesmo que contra a onda maior que impera pelo país.
Gostaria muito de ver aqueles moleques que com suas bicicletas subiam e desciam ladeira abaixo e acima, colocando em alerta, nós e o público da cerimônia das velas coloridas. E nem havia a necessidade do pânico, ficávamos ali mesmo, no recuo da calçada e eles, humildemente, se aproximavam com os bolsos cheios com os vários pacotinhos de balas que levariam para os irmãozinhos menores, e, de vez em quando, algum deles se aproximava pedindo para acender alguma vela pela saúde da mãe. Agradecidos, levavam a vela colorida ao altar pedindo ao monge que orasse pela mãe. Realizado o ato, voltavam para suas bicicletas e logo sumiam de nossas vistas. Agora, o cenário é outro. Já não armamos a mesa fora da proteção das grades. A festa, ou melhor, a Cerimônia continua a ser realizada mensalmente, mas dentro dos limites da grade de proteção.
Aquela molecada, se conseguiram sobreviver, são jovens adultos e nem vemos mais pela rua nova molecada andando de bicicletas. Aliás, a rua, fora do horário comercial ou escolar, anda quase deserta. São poucos os transeuntes. Aqueles, eram dias de esperança.
Hoje, o que temos? Ruas com jovens adultos maltrapilhos, sujos e jogados pelas calçadas. Homens, mulheres, por vezes, famílias inteiras entregues ao mundo sem o abrigo de um teto. E não é lá só nos arredores. Pela cidade toda. E haveria de ser diferente?
Desde que a insana população de pança cheia entrou na onda de bateção de panelas do alto de suas janelas, o que temos visto é aumentar cada vez mais a notícia do desemprego chegando aos lares. Cento e trinta mil engenheiros desempregados, quinhentos mil técnicos do setor desempregados. Empresas quebradas. Falência de ex-grande empresa pedida por banco público, riquezas naturais entregues de bandeja ao capital estrangeiro. Em estado bruto. O produto acabado, pronto para consumo, chegará até nós, via importação, claro! Tristeza só. Triste, não. Trágico. Aos que por aqui ficarem, restarão as bananas e laranjas super contaminadas pelos insumos venenosos.
Não. Não está fácil a vida aqui. Mas nem por isso, entregaremos os pontos. Como na natureza, depois de uma grande tempestade, vem a calmaria e a nós, caberá o trabalho para tentar reestabelecer a ordem anterior. O resultado nunca será a reconstrução tal como antes. As perdas sempre ocorrem. Felizmente. O que é podre e não tem serventia sempre é carregado pela própria natureza.
Aqui também, após estes anos de truculência e falta de inteligência, a ordem voltará a ser reestabelecida. Com mais inteligência e menos servidão. É a esperança.
Palavra de ordem. Resistência.

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