CANTO DO BACURI > Mari Satake: Parasita

Trancafiados no pequeno cubículo um porão qualquer. Celular empunhado, o garoto reclama que sua conexão foi cortada. O pai sugere que corra ao canto oposto de onde está e levante o braço ao máximo. A irmã canta uma serie de letras e números. Não dá certo. Por fim, ele consegue e prossegue com o sinal roubado. A mãe fala qualquer coisa. Lá de dentro conseguem ver o que acontece na rua, fora de suas paredes. Há o infeliz que sempre urina no mesmo ponto e os incomoda. Avista o amigo que chega. A mãe reclama. Justo naquele momento? Será uma boca a mais? O garoto corre para atender o amigo que lhe entrega uma imensa e pesada pedra, dizendo que a pedra era da coleção de seu pai. Ou avô? Não importa. Diz ter trazido a pedra para mudar a sorte de seu amigo e família. O amigo é alguém com um pouco mais de sorte. Frequenta a universidade e está prestes a viajar. Quer lhe passar um contato e a possibilidade de mudança de perspectivas. Acha que o amigo poderá ser o novo professor particular das aulas de inglês de sua aluna. O amigo lhe diz que apesar de não frequentar a universidade, considera-o bem melhor em inglês que muito de seus colegas. Com o currículo em mãos, apresenta-se à casa.
Uma imensa casa em meio a um imenso gramado. Projeto de renomado arquiteto. É atendido pela governanta. Em seguida, a mãe surge. Avalia seu falso currículo e diz querer acompanhar a primeira aula de sua filha. Sucesso total para o garoto. O novo professor da garota.
Temos então as duas famílias. De um lado, a família proprietária da casa de grife representada pela mãe ingênua, o pai confiante, empresário do ramo da alta tecnologia, a filha e o filho mimado. Acesso às necessidades reais e imaginárias não constitui problema algum neste núcleo familiar. Num estalar de dedos os desejos são prontamente atendidos. Do outro lado, temos a família de desempregados do garoto. Pai, mãe, irmã e ele próprio. Todos à sua maneira procurando um jeito de se virar na vida. Também ali para eles, desde a entrada do garoto na família rica, tudo parece se resolver num estalar de dedos. A irmã, também com um rico e falso currículo, se torna a nova professora de artes de garoto mimado. Com artimanhas engendradas por eles, a família toda acaba se infiltrando na casa. O pai vira o novo motorista da família e a mãe, a nova governanta.
Famílias felizes, a vida parece prosseguir. Não demora muito e logo se vê que também no interior ou melhor, no subsolo da casa rica algo se esconde. Na primeira ausência de toda a família dos proprietários, desde a demissão da antiga governanta, eis que, em meio a uma chuva torrencial, ela surge implorando à nova governanta que permita a sua entrada para pegar algo que esquecera no subsolo. Algo que nada mais é senão o marido endividado, escondido de seus antigos credores que querem a sua cabeça. A chegada da velha governanta interrompe a festinha da família do garoto em que, ingenuamente, todos já se viam como os novos proprietários. Dali em diante, uma série de tragédias se desencadeiam dando um desfecho inesperado e trágico aos fragilizados sociais.
Vá. Veja e reflita. Embora retratado de maneira às vezes cômica e fantasiosa, a questão central ali nos rodeia a todos. E, se tudo continuar nos mesmos moldes econômicos, as coisas tenderão a ficar muito piores.
O filme Parasita está nas telas em alguns horários de algumas salas de cinema de São Paulo. É um filme sul coreano de Bong Joon-ho ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2019.

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