CANTO DO BACURI > Mari Satake: O futuro

Se dependesse apenas de sua vontade ele jamais voltaria. Havia o corpo do pai a ser velado. Da família só tinha restado ele e o pai.
O pai já estava acamado há anos. Estavam sem se ver também há anos. Mas mesmo longe, ele nunca deixou de se inteirar da situação e fornecer meios para que o pai tivesse os cuidados necessários. Sentia-se grato a instituição que aceitou a internação do pai, a fiel enfermeira e auxiliares que o assistiram desde que o pai ficou dependente. O pai ficou aqui por pura teimosia, nunca aceitou a ideia de sair do país para viver em outro. Dizia que era aqui que nasceu, estudou, trabalhou e criou seus filhos. Não era agora que iria embora. Era aqui que iria morrer e ser enterrado.
Ele se lembra bem da época em que decidiu ir embora. Falou com o pai, a mãe ainda era viva. Queria que os pais encerrassem os seus negócios e fossem todos respirar em ares mais tolerantes. Mas o pai sempre foi irredutível. Depois veio o acidente de carro com a mãe e o irmão. Mais uma vez ele insistiu com o pai. O pai nunca aceitou a ideia. Nos primeiros anos ainda voltava para as cerimônias memoriais que o pai sempre fazia questão de encomendar. Depois foi deixando de vir, também o pai foi deixando de encomendar as cerimônias.
Agora, pelas janelas do carro que o conduz, vê o estrago sofrido pela cidade. Tem a sensação de estar adentrando por um filme de horror. Ruas sujas, paredes pichadas, lojas e prédios abandonados. Nas esquinas, homens, mulheres e crianças rotas pedindo esmolas.
Passa pela rua do colégio onde estudou quando criança e adolescente. Mal reconhece o prédio. Paredes sujas, portões arrebentados, parece que virou abrigo de crianças abandonadas. Pergunta ao taxista. O homem diz que ali é uma invasão de menores onde adultos não entram. De vez em quando a polícia invade, desocupa a área mas não demora muito tempo e novos menores voltam a ocupar o prédio.
Não fazia ideia de que as coisas por aqui estavam assim tão deterioradas. Sempre lia as notícias, sabia que a população tinha sofrido um tremendo golpe e feito aquelas escolhas equivocadas dos últimos tempos. Mas isso que via era tremendamente assustador. Até chegar onde o corpo do pai seria velado, teriam uma longa distância a percorrer e o motorista foi falando, falando, falando….
Era feia a atual realidade do país que deixou naqueles tempos de bateção de panelas. Passa pelos prédios que foram erguidos naquela época onde uma “próspera” e iludida classe média se sentia “gente de bem”. Também muitos daqueles prédios estão com suas paredes sujas, muitas janelas fechadas. Prédios relativamente novos quase totalmente desocupados.
Sente um misto de náusea, vergonha e alívio por tudo que vê, por tudo que fez. Pensa na sua nova família. A lembrança de seu pequeno garoto, o reconforta. Imagina que se tivesse permanecido por aqui, ele não teria condições de oferecer uma vida decente a sua família. Talvez, fosse mais um na estatística dos novos sem nada que assombram pelas ruas desta cidade que tanto amava nos seus tempos de estudante.
O motorista anuncia que já estão chegando. Coloca-se à sua disposição para a volta, informa que mesmo que fique parado por algumas horas esperando, é melhor do que retornar sem passageiro algum. Sim. É melhor mesmo que espere.
Aos poucos, ele vai se dando conta. São tantas coisas que tem para resolver. Já nem sabe se os seus dez dias de licença familiar serão suficientes.

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