CANTO DO BACURI > Mari Satake: Ivy

Sentada naquela mesa, no meio de tantas outras, apinhadas de gente, ela só queria descansar. Estava exausta. Precisava se recompor. Aquela área de alimentação, ali à beira mar, era o que tinha no momento. Por algumas horas, era uma sem teto. Teve sorte, pode se sentar na sombra. A posição da mesa permitia que afrouxasse seus calçados, esticasse suas pernas e ficasse olhando o mar enquanto a suave brisa refrescava seu corpo cansado. Ficou ali por uma, duas horas. Olhando o mar. Pensando nos últimos acontecimentos.
Ela olhava o movimento. Uma praça de alimentação como tantas outras que conhece. Com tanta comida boa por que é que as pessoas se intoxicam com aqueles fast foods da vida? A praga do jeito americano de viver.
Comprou um sorvete. Nem com o sorvete sentiu prazer. Engoliu aquele picolé sem graça às pressas. Tomou um litro de água. Engarrafada no plástico.
Justo em seu último dia ali, o desprazer com a comida.
Na mesa do lado da sua, bem próxima, sentara-se um casal. Também eles, sentados ali, sem pressa. Poderiam ser amantes clandestinos? Ela, pele alvíssima, cabelos claros, mulher de seus cinquenta anos. Ele, pele morena, aspecto atarracado, poderia se imaginar um nativo bem-sucedido financeiramente, jovem na casa dos trinta anos. A certa altura, quando já se sentia descansada, o jovem lhe dirigiu a palavra.
A conversa fluiu tranquila. Ele, um jovem trabalhador de empresas multinacionais, boa escolaridade. A mulher, a mãe, estava ali a passeio. Vive na Europa. Atualmente, mora na França. Disse que na Europa é muito fácil de se viver. Quando começa a enjoar do lugar onde está, arruma suas coisas e se muda. Às vezes, acontece de estar em um país, mas o trabalho a chama em outro canto. Como a aplacar alguma culpa, ela disse que há treze anos vive assim, mas antes, fez de tudo pelos seus filhos. Neste ponto, o filho interfere dizendo que a mãe cuidou dele e do irmão enquanto eles eram pequenos, até se formarem. Agora já são adultos e têm condições de viver longe da mãe. A mãe precisa também viver a vida e realizar seus sonhos. Ela concorda e reforça a tese deles, dizendo que mães sempre dão a vida pelos filhos pequenos e depois é hora de deixá-los cuidando da própria vida e seguir cuidando de si. A mãe diz que é o que procura fazer. Pergunto se pensa em voltar a viver no país. Diz que não sabe. O filho diz que sim, ela voltará, mas não agora.
Ouvindo aquele relato, ela quis saber qual era o trabalho daquela mulher de maneiras tão suaves? Teve pudor. Não perguntou. E se?……e se? E a conversa se estendeu por um tempo mais. Gentil, o homem quis saber como iria ao aeroporto. Ah, sim. Se o serviço já está contratado, então tudo bem. Conversam um pouco mais e ela tem pressa em sair.
Tantas horas depois, já em sua casa, ela se lembra daqueles dois seres, tão diferentes no aspecto físico, mas tão simbióticos em seus gestos e olhares. Com certeza, dois seres que se amam.

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