CANTO DO BACURI > Mari Satake: Dia das bruxas

Logo cedo, a pequena se esmera com a nova fantasia. Desde o começo ela anunciou, não gosta dessa história de se fantasiar de bruxa. Ela que tudo consegue com os pais, tias e avós, bateu o pé firme dizendo que não queria saber de roupa de bruxa. Se todos vão fantasiados para a escola, então ela quer fazer de conta que é alguém que gosta de ver nos programas infantis.
Pois bem, ela quer se vestir como a Rena Rouge. A mãe pergunta se pode ser outra fantasia, caso não encontre. A garota é firme, diz que não. Só aceita a fantasia de Rena.
Agora, já não basta se fantasiar no dia 31 de outubro. Desde o dia anterior, já começa a folia. Assim, logo cedo, ainda no dia anterior, a garota se produz toda e pede à mãe para tirar uma foto dela produzida com a fantasia e enviar às avós, tias e tios avisando que hoje e amanhã só atenderá se for chamada com o nome de sua personagem. Rena…?
Uma das tias, mora perto. A menina viu que hoje não estavam atrasadas e sugeriu a mãe para passar na casa da tia, mesmo rapidinho. Ao ser recebida, a tia nem se lembrou e caiu na besteira de chama-la pelo seu nome. A garota fez que não era com ela e perguntou se mãe tinha se esquecido de avisar. Não. A tia que se esqueceu! A menina desculpou. Mas, na despedida, ao abraçar a tia, falou baixinho: assista o Miraculous. Ainda reforçou: não vai esquecer!
Recomendação ouvida. Mãos à obra. A tia tratou de procurar logo pelos vídeos.
Não demora muito, outra mensagem. Desta vez, é a mãe do garoto. O garoto fez bico, não deixou a mãe nem o pai tirar uma foto dele. Ele queria estar fantasiado com outra coisa. Também a escola dele aderiu à onda dos dois dias de folias alusivas ao Dia das Bruxas. A mãe acha tudo uma grande bobagem, essa história de Dia das Bruxas. Com o seu senso extremamente prático, comprou uma camiseta cor de abóbora e alguns acessórios. Simples, ela pensou. A camiseta cor de abóbora pode ser usada depois, no dia a dia e os adereços são coisas à toa. Afinal de contas, no dia das bruxas que ela se lembra de antigamente, tinha um monte de abóboras servindo de luminárias. Fantasiado de abóbora, recusou a parte de cima da fantasia. O garoto até vestiu a camiseta colorida e seguiu para a escola, mas chegando lá é que se deu conta que poderia estar melhor fantasiado e disse ao pai que fantasiar-se de laranja é o que ele menos quer na vida. A mãe retrucou que era abóbora e não laranja. Abóbora, laranja. Não é nada disso que ele quer e se recusou a tirar a foto da escola. É uma criança de cinco anos. Que notícias anda captando este garoto, indago aos meus botões.
Mas a verdade é que vamos mal. Se querem instituir um dia para as crianças irem à escola fantasiadas e darem asas às suas imaginações, por que aproveitar o gancho de 31 de outubro? Mesmo que fosse 31 de outubro, seria melhor que se destacassem os elementos que são próprios da cultura e folclore brasileiro.
País de dominados. Triste país.
Alguém há de me retrucar e falar de uma ou outra experiência, onde as crianças são estimuladas a conhecer e brincar com os temas próprios da cultura local. Se assim for, nem tudo está perdido. E sei, há pais e mães que tentam fugir deste modelo de dominação cultural. São poucos. Mas há. Felizmente.

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