CANTO DO BACURI > Mari Satake: Desajustes

Chegou ali sem quase nada saber. Ficou encantada com aquele mundo de regras, ritos, cantos e alegorias. Dos mais graduados aos tão novatos quanto ela, via todos envoltos no encantamento. Às vezes, acreditava que também ela poderia ser inserida naquele distinto mundo desconhecido.
A realidade de seu dia a dia era algo bem distante daquele suspenso mundo a que se permitia frequentar por algumas poucas horas em um, dois ou até três (raramente) dias da semana. Dizia que era seu alento. Entre tantos outros.
De alento em alento ia tocando sua vida sem grandes guinadas. Apenas sustos para ajustes de percurso. Os anos se passaram. Um dia ela se viu sem a obrigação do crachá. Não descansou de imediato. Na realidade, já vinha se preparando para a nova realidade que teria pela frente. Tratou de encher as horas de seu dia, poltronas, mil leituras, grupos de estudos, discussões teóricas, um sem fim de correrias. Não demorou muito e, outra vez, ela se perguntava para quê? e por quê? Nada dramático, nada drástico. Aos poucos, foi abrindo mão disso, daquilo e daquilo outro.
A vida segue. E ela, sempre às voltas daquele suspenso mundo encantado. De encantado mesmo, apenas o encantamento de quem o olha e assim o vê. Ela observa atentamente. Tentando apenas viver. Quando tem sono, dorme. Se tem fome, come. Se tem muito trabalho, ela trabalha. Se não tem, ela inventa. Se as crianças chamam, ela atende.
Ela se lembra do amigo distante. Ele dizia que ela viveria até o fim de seus dias, a síndrome do eterno aprendiz. Será? Seu medo é deixar o barco passar e ter que voltar para repetir a lição.

–––––– XXXXXX ––––––

Ele, ao contrário, nunca demonstrou pouco saber e nem mesmo que tinha dúvidas. Chegou ali, viu e gostou. Era aquilo mesmo que sempre buscou em sua vida. Preparou seu enxoval. Largou família, trabalho, amigos. Partiu em busca de sua nova vida. A verdadeira. Na despedida, prometeu que voltaria só dentro de uns vinte anos. No topo da carreira.
Aos três meses, assim que pode entrar em contato com o mundo exterior, chorou, berrou e esperneou. Ali onde estava, estava tudo errado e ele não queria se submeter àquela escravizante rotina. Foi compreendido. Chorou o que pôde. Se aquietou e ficou mais alguns meses. Bem longe dos vinte meses, vinte anos!? Nem pensar.
Voltou. Continua cheio de saberes. Saberes e verdades. Deu para se ligar aos astros. Hoje se banca como astrólogo e conselheiro. Diz que sua agenda vive lotada.

–––––– XXXXXX ––––––

O amigo distante fazia troça, dizia que ela padecia da síndrome do eterno aprendiz. Toda vez que ficava sabendo que ela estava frequentando algum curso novo ou mesmo algum grupo de estudos, tecia longas críticas. Dizia que na verdade, ela precisava trabalhar mais e teorizar menos.
Outro dia, reapareceu.
Em meio à conversa, convidou-a para conhecer um novo espaço do saber. Assim mesmo: “espaço do saber ……”. A proposta é convidar pessoas de notório saber para palestrarem sobre assuntos de sua competência. Público alvo: estudantes da área da saúde no último ano do curso, clientes/pacientes dos empreendedores do espaço e interessados de modo geral. O espaço fica numa área nobre da rica cidade interiorana para onde o amigo se mudou há alguns anos. Pelo visto, agendas andam com horas ociosas.

Comentários
Loading...