CANTO DO BACURI > MARI SATAKE: 2020 vem aí

Na sala de espera apenas velhos, velhas. Vez ou outra, um rosto mais jovem. Mas estes, sempre trazem em seu traje superior a chamativa etiqueta vermelha grudada. De acompanhante. E ela é mais uma velha entre tantos outros. Apesar de há alguns anos frequentar aquele ambiente médico, tem sempre a sensação de estar fora de lugar. Ri de si mesma. Desde sempre. Sempre a mesma sensação de não pertencimento. Aborrece-se com seus pensamentos. Aborrece-se com a longa espera. No painel à frente, o pedido de desculpas. Infelizmente, devido à fatores incontroláveis, três dos profissionais escalados naquela manhã, estão ainda ausentes. A sala vai ficando cada vez mais cheia. As conversas se avolumam. Naquela manhã ela não levou nada para distrair seus olhos ou pensamentos, nem mesmo o celular. As visitas àquele centro médico costumam ser sempre tão rápidas. Achou que em menos de duas horas seria atendida e estaria de volta a sua casa. Olha para o grande painel. Está a espera a não menos que quarenta minutos. Pelo jeito, o médico que a atenderia é um dos atrasados. Imprevistos acontecem, ela tenta não se aborrecer.
Nas poltronas próximas, duas mulheres, aparentemente bem mais velhas que elas. Mulheres bem vestidas. Bolsas e calçados de boa qualidade. Estão ali há algum tempo também. Ela tenta desviar seus pensamentos e não acompanhar a conversa das duas. Tenta desviar a atenção, mas a voz dolorida atinge seus ouvidos, seu pensamento. Tudo começou com a amiga dizendo da imensa saudade da filha única que há anos deixou de morar no país. A de voz mais alta retruca lhe dizendo, melhor assim. E passa a falar de seu amado filho que a outra conheceu quando ambas eram bem jovens ainda. Fala do distanciamento do filho desde que começou a namorar a hoje nora. Fala dos anos iniciais do jovem casal e de quanto ajudou a cuidar dos bebês que tiveram, um seguido do outro. Agora vive só, sorte a sua que o finado marido lhe deixou a casa e uma boa aposentadoria. O filho queria a casa para ele e que ela fosse morar no pequeno apartamento que o marido mantinha alugado no centro da cidade para reforçar o ganho mensal. Ela não concordou e desde então, começou a campanha contra ela. Hoje vive só. Não só está proibida de ver seus netos, mas também ela já nem deseja mais vê-los. Para quê? Nos últimos tempos, até o menor, que na época tinha uns quatro, cinco anos, dizia não querer o abraço dela.   Imagine! Semana passada teve o grande encontro na casa de seu velho tio que, de tempos em tempos, reúne todos os familiares no seu enorme casarão. Lá ela reencontrou o filho, nora e netos. Do filho e nora apenas um leve roçar de mãos, dos netos nem mesmo um abraço. O mais novo, ao ser tocado, ainda a repeliu bruscamente, dizendo não suportar seu detestável cheiro de velha, sua pele encardida e cheia de manchas. A amiga nada diz. Tenta disfarçar seu mal-estar dizendo que hoje em dia, as crianças andam muito salientes. O painel à frente anuncia um nome. A amiga tenta animá-la dizendo que está com sorte. Há pessoas que chegaram há mais tempo e ainda não foram chamadas. A mulher se levanta e diz que será breve com o doutor. Logo mais as duas poderão sair juntas.
Novamente, ela olha para o painel. Nada de seu nome aparecer. Quase noventa minutos de espera. Pensa naquela conversa que acabou de ouvir. Pensa em seus dias de idosa sem filhos ou netos. Pensa em sua diminuta família. Pensa nos dias atuais. As lojas e luzes anunciam, é tempo de festas. Os pais se foram há muito tempo, há os que se casaram e os que não. Mas, para todos da família, é tempo de reencontro quase que sem aviso prévio. Avisos prévios apenas para tratar de pequenos detalhes, local, troca ou não de presentes, cardápios e pequenos detalhes outros que possam surgir. Pensa também nos poucos amigos ou amigas que foi fazendo e conservando ao longo da vida. É tempo de reencontro e festas também com eles. Lembra-se de alguns outros que foram muito próximos em outros tempos e hoje já nem sabe por onde andam. Por onde andarão? Há também aqueles de quem se distanciou por questões de crenças e ideologia. Acha uma pena que rupturas, às vezes, ruidosas, aconteçam. Mas, faz parte da vida! Acontece. Também a eles deseja, Boas e Felizes Festas e que o raio do bom entendimento os atinja.
2020 vêm aí! Boas e Felizes Festas!!!

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