CANTO DO BACURI: Jovens águias do Kamikaze

Muitos foram os filmes que abordaram os tempos de guerra, conforme o cinema japonês. De alguma forma, aqueles dias de dificuldade não poderiam ser esquecidos. Diferente dos filmes americanos, em que o inimigo declarado devia ser combatido, para o bem da pátria, da liberdade e da democracia, os japoneses, em grande parte, exploravam as condições em que a loucura da guerra provocava em seu combatente. Havia, de certo, um inimigo que não se encontrava lutando do outro lado, isso o menos importante. Outros eram os dilemas a serem combatidos, principalmente as falhas humanas.
Em 1968, numa produção pela Companhia Toei, foi lançado Ah! Yokaren, cujo título comercial fora do país Os jovens águias Kamikaze, na direção de Shinji Murayama, enumerava alguns jovens atores de realce, como o ator/cantor Teruhiko Saigo, e outros que tornariam mais tarde famosos como Junko Fuji e Shinichi Chiba. A estes, dois veteranos que agradariam o público: Koji Tsuruta e Tetsuro Tanba. Levando-se em consideração o ano de 1968, isso significa pouco mais de vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas ainda a memória mantinha-se fresca em relação à guerra e o esquecimento não poderia ser considerado.
Os anos sessenta tem um significado especial para os japoneses, que nas décadas anteriores, tinham sofrido as agruras da humilhação e a reconstrução do país. Com as olimpíadas de Tóquio, de 1964, o Japão tinha mostrado ao mundo de que uma nova era dava início, com crescimento na economia e avanço tecnológico. Uma dessas conquistas seria a invenção das trilhas férreas rápidas do Shinkansen – o trem bala, inaugurada também naquele ano. Entretanto, os filmes de guerra encontravam abrigo do público, assim poderia servir de bálsamo para curar velhas feridas, justamente ao falar de assuntos delicados e ainda para serem resolvidos na alma japonesa.
Nada de apologia da guerra, de uma guerra perdida e deixada no passado. O cinema tem a magia de recontar a mesma história por um viés em que deixa à mostra a estética e a emoção. Houve filmes mais de ação bélica do que Os jovens águias Kamikaze, que apesar de abordar um tema polêmico como os kamikaze, penetra fundo no sentimento de jovens pilotos que, por um destino inexorável, submetem-se a um grupo de pilotos suicidas. Na mensagem no início do filme, deixa claro. Aquele filme foi dedicado aos pilotos que morreram no fim da guerra, justamente os kamikaze.
O que se mostra é de que os tais pilotos eram soldados comuns, da marinha imperial, que animados pela juventude empenhavam-se em perseguir os seus objetivos: ser pilotos de um grupo de elite. O que diz o comandante dos pilotos, no papel de Koji Tsuruta, é o seguinte: somente os melhores terão vez. Assim seriam escolhidos pelo próprio esforço. Pertencer ao grupo e não ser o escolhido seria motivo de vergonha. Suportando todas as dificuldades e agressões físicas durante a preparação, outras provas teriam pela frente. O fracasso e assim a vergonha poderiam conduzir ao suicídio.
Mas daqueles que mostravam motivados em continuar a vida de piloto, os motivos eram vários, mas somente os de coração puro poderiam avançar. Assim, em entrevistas constantes, o comandante especula dos motivos de combater. Um diz de que precisa se vingar de um irmão morto nas ilhas setentrionais do Pacífico. Se isso existia, não servia para pilotar, pois o campo de batalha não comportava tais sentimentos. Uma vez que estava tomada a decisão de lutar como piloto kamikaze, a única certeza era a morte. Não se fala neste momento em morrer pela pátria, nem pela possível derrota japonesa. Parece-me de que estes assuntos eram das altas patentes, distanciados de uma realidade vivenciada pelos próprios pilotos. Para eles, lutar era o compromisso, de manter continuamente enfrentando perigos e desafiando a morte.
Antes toda uma preparação para lutar é levada em consideração. Tem aulas, inclusive, de poesia. Alguns poemas são colocados na lousa e declamados. Para que serviram os poemas? Principalmente, para que serviriam tais objetos de arte, a beleza dos versos e o ritmo de sua composição? Assim pergunta um dos pilotos. Morreriam inevitavelmente, era uma certeza. O professor ensina: vivam intensamente este momento. Se quiseram estudar poesia, façam com todo empenho no momento do agora.
A vida por outro lado, devia ser preservada, ensina o comandante. Deve-se lutar e não morrer em vão. Aqueles pilotos treinados por ele eram como alunos, mais do que isso, quase filhos. Era um dilema a ser vencido. Numa dessas missões, o último daquele grupo de pilotos, levando quilos de bombas nas asas das naves, o comandante desafia as ordens superiores. São quinze os aviões a deixarem a base, que aumenta para dezesseis. O comandante iria junto. “Querem que eu fique para formar mais pilotos suicidas”, desafia ele.
Homenagear aqueles pilotos era uma questão de honra. A guerra é sempre injusta e totalmente absurda. Quanto ela acontece, por força das circunstâncias, deve-se tomar uma decisão. Ainda que a nada disso acontecesse nos anos sessenta, as feridas da memória tinham que ser sanadas. Um filme desta natureza, nos dias de hoje, teria um outro propósito. Morrer, significava para eles, acabar com a guerra, assim uma era de paz poderia se instalar. Diz um dos pilotos ao final.

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