CANTO DO BACURI: Início da Primavera de Yasujiro Ozu

Quem com grande maestria teria construído a imagem da família no Japão que se modernizava, através do cinema foi Yasujiro Ozu. Muitos foram os filmes em preto e branco, destes, em grande parte mudos. Ainda o cinema falado, muito menos o cinemascope tinha sido inventado. É do interesse nosso, como historiador um período em questão, a década de 30, que antecede a Primeira Guerra Mundial, e posterior, no momento da ocupação americana e reconstrução do país. São filmes sonoros. Minimos são os filmes coloridos.
Neste artigo, apreciemos Soshun, conhecido também internacionalmente por Early Spring, algo como o início da primavera, de 1956. O enredo gira em torno do casal Masako e Shoji Sugiyama, que vive em Tóquio e como todos os demais homens e mulheres do país pertencem à classe média urbana. Existe uma revolução social e econômica do pais do pós guerra, da formação das indústrias e prestação de serviços, empregando uma grande soma de mãos e mentes a fim de servir ao modelo vigente dos tempos modernos. O Ocidente é o modelo, tendo nos Estados Unidos o principal a ser imitado.
Claro, existe um trama a ser contado, da crise na família, do antigo a ser substituído pelo moderno, dos kimonos pelas calças e vestidos. Neste momento de mudança, ao mesmo tempo que agrada, pode causar dissabores. Ozu mostra a aparente contradição dos prédios, construídos de um lado e do outro, agentes anônimos que se entregam ao mundo do trabalho, da alta burocracia da produção e desenvolvimento. Assim deve ser. A visão dos prédios é insólita. Das janelas pode-se obsevar os assalariados, sem cara, entregues à lida. Também, mostra as indústrias com as suas chaminés queimando uma fumaça negra em constraste ainda com o céu claro do interior. Mas Tóquio não é interior, mas nas vilas centradas nas periferias, as máquinas estão a todo vapor.
Neste mundo em que o Japão esquece os tempos de carência dos anos que se seguiram à guerra, tem de andar com as próprias pernas. Assim, o protagonista Shoji segue o padrão vigentte, esforçando-se em alcançar postos mais elevados na empresa. Todos agem desta forma, mas nem todos chegam ao topo do sucesso. Os motivos para isso acontecer são vários e as incertezas muitas. Não há lugar para todos. Não obstante, há uma crença no liberalismo de que nada é impossível desde que se esforce para isso. O paraíso é para poucos, diria Calvino, pois somente alguns são eleitos na teoria da predestinação. Nem há lugar para Calvino nestes trabalhadores japoneses, mas uma cultura do trabalho e do mérito como premiação.
A vida de Shoji é comum, de trabalho a trabalho, com momentos de distração compartilhados com os amigos do trabalho nas mesas de bar. Momentos de descontração, em que os dilemas são amenizados pelo consumo de saquê. Sem muita comida, saquê e tabaco, cuja fumaça entorpece qualquer movimento mais apaixonado ou de revolta, pelo contrário, existe a aceitação do mundo da maneira que se apresenta. Cenas de bar são constantes no cinema de Ozu. É um ambiente masculino, em que as conversas giram em torno de suas vidas e necessidades urgentes.Não poderia ser diferente com Shoji. Em casa, está a esposa Masako, dedicada aos afazeres do lar, não trabalha fora. Até o casamento parece ter entrado numa fase de exaustão, um permanente tédio, pois nada mais pode ser alcançado além de se seguir a rotina. Os olhares não se cruzam mais, qualquer intimidade perdeu terreno.
Pode-se dizer que os japoneses não costumam mostrar afetividade como os ocidentais, que se abraçam, se beijam, se tocam. Ao invés disso, existe uma cumplicidade no olhar, no canto dos olhos, nos olhos que revelam uma singularidade que nas lentes de Ozu é bastante evidente. Os olhos falam por si. Nesse momento as palavras são dispensáveis, que no cinema acontece na postura da câmera e na habilidade dos atores. Os discursos acontecem nos momentos certos, deixando que as imagens produzam uma experiência de grande emoção na platéia. Seria esta também uma função do cinema japonês, em particular em se tratando de Yasujiro Ozu.
Quando Shoji envolve-se com a colega de trabalho de alcuma Kingyo, em meio ao silêncio dos dois, na tentiva de ocultar o romance, as coisas se tornam por demais evidentes. O próprio público se torna cúmplice de uma irregularidade. Existe algo de errado, que precisa ser corrigido naquela sociedade em transição mas que mantém a ordem. A mudança é possível mas a ordem deve ser mantida. O próprio Ozu tem uma preocupação em relação ao mundo moderno que despreza os mais velhos (veja Tokyo Monogatari, também Todake no kyodai), assim a unidade familiar é preciosa demais para que possa desfazer-se.
Entretanto não se pode desprezar os benefícios da modernização e do acúmulo de capital por parte dos assalariados, que podem agora comprar uma máquina de lavar roupa para a esposa. A esposa Masako ainda mantém velhos padrões, dependendo do marido para manter as finanças em dia, cuida da casa, cozinha e lava. Nada disso a torna menor. Do outro lado existem moças como Kingyo que ingressaram no mundo do trabalho, como suas colegas, executando trabalhos burocrátricos como datilógrafa. Assim, Kingyo é independente, usa saias rodadas, com a cintura fina, tal qual as artistas americanas de Hollywood ou Brigitte Bardot no cinema europeu. Em Kingyo, uma aura moderna está presente, uma possível ativista da revolução sexual.

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