CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Um encontro do passado

Dias desses, um dia comum como qualquer outro, a mensagem na lista das mensagens eletrônicas, que costumo apagar a maior parte delas, algo me chamou a atenção. Antes mesmo de verificar o conteúdo, o nome do remetente: nada de novo, muito pelo contrário, um tanto assustador, feliz e incomodado ao mesmo tempo. Era de uma colega da faculdade, que nunca mais a vi, nestes últimos 41 anos, para ser mais exato. Ela me perguntava se era eu mesmo, aquele que frequentou o mesmo curso, sentava-se próximo e assistia as aulas de história da arte, publicidade e administração de empresas. Disse, sem meias palavras, “sou eu mesmo”.

Aproveitei para contar um pouco do meu trajeto, após aquele curso, que terminei em 1978. Chamava-se Lea Maria Machado. Daquele grupo de alunos, que se sentava bem no final da sala, bem próximo à porta de entrada (também de saída), a quem me uni para os trabalhos, ela era a mais bonita. Quer dizer, tinha uma presença agradável, um tanto despojada, enfiada em calças jeans, que naquela época se chamava apenas Lee. Usava óculos de sol, de lentes verdes, quando saia para a rua. De fato, ela tinha estilo.

Numa mensagem de retorno, feliz da vida por ter me encontrado, Lea contou um pouco de sua vida. Ela tinha trabalhado na área de turismo, justamente a do curso. Senti uma certa inveja, pois, no que se refere a mim, depois da formatura, veio uma crise profunda: o que fazer agora. Avaliei por algum momento, aquele não tinha sido o curso certo, mas algo precipitado. Que motivos tinha para ter feito Turismo? Como um turbilhão de imagens, a resposta não seria mais óbvia: para deixar a minha terra do interior, para aventurar-se na Capital, para esfriar meus ânimos filosóficos. Tinha pensado antes em Ciências Sociais, temeroso demais naqueles dias. Também Filosofia, o mais adequado para mim, descartado pela abstração exagerada. Com a formação em Turismo poderia ser um empregado comum, numa empresa comum, como agência de viagens, numa rede hoteleira, numa empresa de aviação ou ainda na Secretaria de Turismo após um concurso público. Muito bom.

Se fizesse isso, aposentadoria definitivamente os livros de Jean Paul Sartre, com aquela coisa de Existencialismo, um inconformismo com a vida privada e pública, com o modo de produção, enfim com o mundo em direção à felicidade como realização da classe média. Mas uma maldição caiu sobre mim, toda fuga de mim mesmo teria sido um retorno às indagações anteriores. Não é o que tinha acontecido com a Lea. Fui me encontrar com ela, agora uma senhora, que mantinha os mesmos olhos, aqueles olhos doces, sem nenhuma malícia. Se não fosse pelos olhos, não a reconheceria. Toda a transformação dela era a transformação em mim que não tinha percebido.

Não apenas ela, mas outras colegas, pois os colegas eram poucos naquele curso, queriam me ver. Com a tecnologia existente nos dias de hoje, ninguém consegue mais se manter no anonimato. Justamente eu que fujo das páginas de amigos virtuais, um crítico feroz das amizades cibernéticas, ligadas por uma memória artificial, pode ser encontrado nesta rede de informações que quebra qualquer privacidade. Assustador o filme 1984, de George Orwell. O que já foi assustador tornou-se hoje vitrine da vaidade e exibição. Se fala de tudo, sem acrescentar nada, inclusive com erros crassos de português.

Mais duas colegas vieram. Uma delas, do ramo de comércio de roupas e modelitos da moda, encontradas nas galerias da Rua Augusta, continuou em seu velho ofício, que expandiu enormemente, inaugurando lojas em shopping centers de renome. Quando da virada dos novecentos para o de dois mil, a onda das mercadorias vindas da China, com preço competitivo, também provocou mudanças em sua vida profissional. Mas continuou no ramo. Num restaurante chinês, no Largo da Liberdade, em São Paulo, confidenciou: “deveria ter feito Direito”. De qualquer forma, nunca iria exercer a atividade.

A outra colega, no mesmo restaurante chinês, pediu talheres ao invés dos tradicionais hashi. Sempre trabalhou na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde veio a se aposentar. Dito de outra forma, todas elas eram aposentadas. Menos eu. Por negligência, por algum motivo em minha vida profissional, tenho que me aposentar aos 65 anos.

Este encontro, pode ter acontecido com muitos. Ficou a pergunta: que razões teria para acontecer? Perguntei aos amigos próximos, que responderam “nenhuma razão”. Ainda que sem uma razão aparente, ou inconsciente, seria: “o que foi a minha vida”. Se contasse tudo, não caberia nestas míseras páginas. Apenas vivemos, sem pensar muito nela, participando das Diretas Já, da inflação galopante do Sarney, das loucuras do governo Collor, das maravilhas do Plano Real, do sonho petista em inserir os pobres, para finalmente presenciar com curiosidade o presidente bater continência, comunicar-se na rede social, a ministra dizer que o menino usa azul e a menina verde. Nada contra, nem a favor, apenas o teatro social que se assemelha a uma peça de Nelson Rodrigues.

O passado é um sonho que se esvai, o presente um espetáculo que se paga para assistir. Não seria o presente um sonho que se repete, como os outros sonhos, sendo a vida vivida uma grande ilusão que só se percebe quando a repetição começa a tomar forma do novo. “Tempos interessantes”, como previu Eric Hobsbawn.

 

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