CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Os vermelhos contra os azuis

Só quem viveu pode dizer algo a respeito. Enquanto o mundo todo vivia os tempos de incerteza da Guerra Fria (1947-1991), situação que aconteceu após a 2a. Guerra Mundial, numa nova organização geopolítica das potências em disputa ideológica, de um lado os Estados Unidos, do outro a União Soviética. Nunca entraram diretamente em confronto, não obstante houve provocações de um lado e do outro. Nisso, os Estados Unidos fabricavam aviões caças sofisticados como o F14 e 15, respondido pela União Soviética com os aviões Mig17 e 19
Vivia-se uma constante polarização, dos chamados países livres, liderados pelos Estados Unidos, de outro os países do leste, tendo a frente a União Soviética. Para quem não sabe, esta última era formada por algumas federações coligadas e a Rússia no comando. Provocações à parte, a guerras eclodiam, como a Guerra da Coréia (1955 a 1953), a do Vietnã (1955 a 1975), a Revolução Cubana (1959) e o perigo dos comunistas avançarem por outros países, como a América Latina e a África. Metade da Europa se tornara satélite de Moscou.
Nesse impasse, instalavam-se governos autoritários na América do Sul: Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai. Nunca se viu tamanha polarização. O medo estava instalado. Se havia um confronto direto dos Estados Unidos com os soviéticos, acontecia principalmente nos jogos olímpicos. Dizia-se que os participantes deviam ser amadores, uma exigência dos países do bloco soviético. Não que os atletas soviéticos fossem totalmente amadores, pois eram patrocinados diretamente pelo Estado. O que não acontecia com os atletas do mundo livre. Assim, os soviéticos superavam os Estados Unidos na contagem das medalhas. Não ficavam atrás Cuba e a Alemanha Oriental. Situação de desconforto para alguns, para os outros servia de propaganda ideológica do sucesso da administração estatal.
Ao lado disto, acontecia a corrida espacial (1957 a 1975), quando cada lado lançava um foguete em direção a lua, cujo programa, depois da chegada dos astronautas americanos ao local de conquista, sem mais sem menos, deixamos de ouvir notícias a respeito do assunto. Tratava-se de uma guerra de propaganda. Do lado de cá, ninguém torcia pelo time de lá. Entretanto, havia uma rede de informações a serviço de um lado ou do outro. Os americanos eram os benfeitores, loiros e altos, numa rede de espionagem conhecida por CIA. Os feios eram os soviéticos, alemães orientais, na maior parte das vezes, conforme mostravam os romances da época. A situação podia ser mais crítica, como demonstra o inglês John le Carré, em 1963, com O espião que saiu do frio, em que trata de um agente duplo. Havia este personagem enigmático, do profissional da espionagem que, conforme o seu ganho, podia trabalhar sem problemas para um lado ou para o outro.
Tentar corromper o espião do lado oposto podia se tornar uma glória, também uma tragédia, por isso não se confiava em ninguém, pois o colega de ofício podia ser um espião colaborador do inimigo. Esta era a situação da Guerra Fria, conforme os romances. No cinema, em1963, Moscou contra 007, com Sean Connery, o eterno espião a serviço de Sua Magestade, a Rainha Elizabeth II. Bem, ele não pertencia à CIA, mas a algum outro serviço especial do ingleses. Os filmes de 007 não tinham que combater diretamente os soviéticos, mas outros gananciosos ricos e maldosos. Aquele filme de 007, o citado acima, tem por título em inglês From Russia with love, nada muito antagônico.
De todas as diversões cinematográticas como literárias, nada se compara do que (sic) ZZ7, vendidas nas bancas de jornal, com preço módico. Eu próprio li muito as peripécias de Brigitte Monfort, a heroína daqueles livrinhos em papel jornal, que podia ser lido num dia. Ela era uma espiã da CIA, morena e alta, de olhos verdes. Havia algo de sobrenatural nela. Aquilo não poderia existir no mundo real. Ao contrário de outros personagens homens, que entravam em luta corpo a corpo, a bela Briggite nada fazia disso. Tinha apenas uma pistola Beretta, num coldre posto na perna direita. Atirava sem provocar dores desnecessárias, ouvia-se ploc-ploc. O russo tinha partido para melhor.
O personagem Brigitte Monfort surgiu pela primeira vez em 1965, aproveitando-se de um outro personagem Giselle Monfort, heroina francesa durante a ocupação alemã na 2a, Guerra Mundial. Mas Giselle foi fuzilada pelos nazistas, conforme David Nasser, o autor das histórias, publicado no Diário da Noite, jornal do Rio de Janeiro em 1948. Assim, na tentativa de dar prosseguimento àquele heroina, disse-se de que Giselle tinha uma filha, justamente Brigitte, dessa vez a favor dos Estados Unidos e contra os russos vermelhos e seu séquito. Não apenas as peripécias desta espiã atraiam o gosto do leitor, havia um apelo de imensa sensualidade num rosto de imensa beleza, que aparecia na capa de cada edição, criação do artista Benício. Teria servido de modelo a socialite carioca Maria da Fátima Priolli.
Tempos bons, sob a ameaça de uma guerra que nunca aconteceu. Mas nas histórias de revistas baratas como a de ZZ7, a guerra acontecia basicamente no submundo da espionagem e sempre ganha pelos americanos, os azuis. Fiquei sabendo de que do outro lado, havia histórias semelhantes, com seus espiões inteligentes e espertos, passando para trás seus antagonistas.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, o bloco soviético sucumbiu e os comunistas perderam importância na corrida armamentista e ideológica. Os chineses que não estavam diretamente disputando espaço na Guerra Fria continuaram comunista e, atualmente, tornou-se a segunda potência econômica ultrapassando o Japão e aproximando-se dos Estados Unidos. A Guerra Fria findou e lutar contra os comunistas se tornou obsoleto, algo anacrônico, que somente os desavisados insistem em continuar a lutar contra um inimigo que não existe mais.

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