CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O silêncio dos paralelepípedos

O silêncio dos paralelepípedos

Há sempre um momento em que as bocas se calam
Assim as paredes também se calam
Também as ruas de pedra deixam de falar
Assim apenas um murmúrio ao entardecer
Como morrêssemos um pouco
Sem nenhum lamento, deixando que o frescor
Suave das aves que planam em desencantamento
Não deixem rastros algum por entre as nuvens

São aves de arribação que surgindo os tempos duros
De inverno
Partem em derradeira viagem aos pontos cardeais
Acima do Equador
Sempre foi deste jeito
Sem jeito para repetir um jogo marcado
Preferiu o esquecimento

Dos que ficarem não resta senão viver
Na contramão e errar continuamente e sangrar os pés
Enquanto caminhar
Subindo ladeiras, descendo serras, sucumbindo pelos umbrais

Nenhum amigo que possa conversar
Pois se foram alguns, outros não encontro mais
Outros ainda nada posso contar

Sem tempo para as mágoas, mantenho os olhos secos
Sem esmorecimento, brincar com o vento
E entregar-me ao movimento de uma dança
Dramática de um tango portenho
Que certa vez assisti extasiado

A morte do besouro

De pernas para o ar jazia
Um besouro
Sem que importasse alguém
Que havia no caminho
Um besouro

Que importância tinha isso
Se isso pudesse mudar algo
Em nossas vidas

Havia um besouro
Pelo caminho

Nada fiz senão juntar as mãos
E orar baixinho
Pela vida perdida
A vida do besouro
Vida que era também
A vida minha

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