CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O mestre silencioso

Com toda a paciência que a vida lhe ensinou a ter, após a demonstração do tema escolhido para a aula do dia, ele apenas faz gestos. Seus alunos entendem que é hora de cada um se dirigir à mesa que escolheu para trabalhar e iniciar mais uma vez o seu trabalho.
Ali, o grupo é pequeno. Mulheres. Apenas uma vez, um candidato a aluno do sexo masculino passou pelo grupo. Era bem jovem ainda, gostava de mangás. Tímido a dar pena. A mais prestativa do grupo logo lhe arrumou as folhas de papel, pincéis e tinta. Não cheguei a ver algo que tenha feito durante a aula, mas, de longe, o observava. Pobre garoto! Não deve ter sido fácil a experiência.
Na verdade, é por mim que falo. Há anos ali na prática e a cada vez que me vejo com meus papéis, pincéis e potes de tinta nas variadas gradações, o início da tentativa de trabalho em aula, acontece sempre da mesma forma. A dúvida é sempre a mesma. O desconforto comigo mesma é grande. Mas não me importo. Faço troça da situação e sofridamente gasto folhas e mais folhas com meus borrões. Quase sempre o professor quer ver o que ando fazendo. Com muita vergonha, deixo que ele veja. Ele sorri. Faz seus comentários com certa ironia. Bondosamente, ele observa meus movimentos com o pincel. Faz suas observações. Senta-se ao meu lado. Em certas ocasiões, ofereço-lhe uma folha em branco e faço algum comentário. Ele se põe a trabalhar e enquanto executa seus movimentos fala uma ou outra frase. Nestas ocasiões sempre se forma um grupo à sua volta. Olhos e ouvidos bem atentos. Às vezes, quando satisfeito com a produção, pega o mais fino dos pincéis à disposição e se põe a escrever como a fechar a composição estética. E quase sempre, as alunas que observam não conseguem decifrar o aparente enigma. Alguém lhe pede que diga o que está ali escrito. Querem saber o autor das palavras. Simplesmente, ele diz que as palavras lhe ocorreram naqueles instantes. Singelas palavras. Palavras saídas da mente e coração de alguém a quem se possa chamar de mestre de sua arte.
Da última vez, ao se levantar da cadeira em que se sentara ao meu lado, após sua produção, folheou algumas das ilustrações fornecidas em aulas anteriores e que estavam espalhadas em minha mesa, escolheu uma e olhando fixamente em meus olhos, apenas disse: – na próxima aula quero que me traga esta, traga hein!? Vou querer ver.
Entendo o recado. Não. Não creio que serei expulsa de suas aulas se não lhe apresentar algo. Mas, se nada lhe apresentar, a mim caberá apenas o reconhecimento como péssima praticante do caminho. E este vexame é melhor não acrescentar na minha bagagem.

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