CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O desaparecimento de Aristóteles

Mas que nome inapropriado para se dar a um gato! Não para a sua dona, a dona Sachie, viúva, dois filhos formados, que viviam distante. Era Aristóteles o seu motivo de viver, muito mais do que estar na companhia dos netos. Dificilmente viajava, pois tinha que deixar o gato aos cuidados de estranhos. A última vez que isso ocorreu, numa excursão para a terceira idade, a Fortaleza, deixou o gato na casa de uma amiga. Em menos de duas semanas, o gato emagreceu, pois ficava o tempo todo amuado, cabisbaixo, de um lado para o outro, totalmente sem nenhuma alegria. Emitia uns sons, quer dizer, miados de desencanto e saudades. Será que um gato tem saudades? Se não era saudade, que motivos o gato tinha para ficar daquele jeito?
Quando a dona voltou, Aristóteles miou desesperado, como que algo muito esperado se realizasse: retorno de Sachie. Depois da anunciada alegria, o gato ficou arisco, demonstrando insatisfação pelo suposto abandono. Ele, de fato, sentiu-se naqueles dias intermináveis de outono totalmente entregue a um destino infeliz. Havia ração, a mesma de sempre, cujo sabor não trazia emoção. Rosa era a amiga de sua dona, que satisfazia-se em dar a ração necessária pela manhã, outra à noite. A água não era saborosa, um gosto de água parada, sem envolvimento ou carinho algum. Se pudesse, Aristóteles daria uma lição em sua dona. Ela que pensa que é a sua dona, que para o gato a situação invertia-se. Sachie era o seu bichinho de estimação, que resolveu fugir por duas semanas. Sem dar notícias, por duas semanas.
Depois de um período de indiferença por parte do gato, ninguém mais aguentava aquela situação. A vida voltava ao de antes. Aristóteles tinha dois anos, era peludo, meio cinza, meio azulado, de bigodes longos, como os de um fidalgo, esnobando-se em passos graciosos pelos corredores do prédio. Ficar apenas dentro do apartamento não era com ele. Isso o deixava desalentado. Bem cedo, aprendeu a arranhar a porta e pedir para sair. “Se quiser dar uma volta, eu deixo, mas volte”, avisava Sachie. Sabia que ele voltava. Pouco mais de duas ou três horas ele chegava de mansinho e arranhava a porta. Lá estava ele de volta.
No início, Aristóteles visitava os andares superiores, e ficou sabendo da existência de um Buldogue inglês no décimo segundo, um collie também inglês no oitavo, uma gata siamesa no décimo andar. Maldito o dia que Satie ouvindo os conselhos de uma cunhada levou o gato para ser castrado. Assim, ele se acalmava. Ela tinha ouvido cada história: o macho que tinha voltado com um olho furado, um outro com a garra da pata direita arrancada. Nas noite de amor dos gatos, sempre os acidentes eram inevitáveis, por parte deles próprios, também dos homens. Atirava-se coisas sobre eles, pois, todo ato de violência se justificava pela maneira descontrolada dos gatos unirem-se em colóquio. Isso não vai acontecer com o Aristóteles, tinha decidido Satie. Dos males, o menor. Sacrificar a masculinidade do gato ao invés de uma vida de tormento dos amores noturnos sobre os telhados e porões. Não havia vizinho que aguentava.
Indiferente à castração imposta em nome dos bons costumes, Aristóteles não abandonou o hábito de passear. Claro, estava bem mais resolvido. Ficava distante, observando as coisas passarem diante de seus olhos felinos. Não perdia uma só cena do cotidiano. A dona do 5º. Andar tinha um amor secreto. Aparecia sempre à noite, todas às terças. Trazia a tiracolo presentes: uma caixa de bombom e flores. Era um verdadeiro cavalheiro. Também ficou sabendo que uma mulher idosa criava canários belgas. Eram lindos aqueles passarinhos. Até arriscou entrar pela janela dela e catar um desses, mas depois desistiu da ideia.
Certo dia, Aristóteles resolveu aventurar-se numa casa imensa, que ficava nas proximidades de seu prédio. Ninguém morava lá. Apenas um guarda cuidava para que não fosse invadida. Não era suficiente para deter o gato. Lá foi ele, pianíssimo, sujando as patas felpudas com a poeira de muito a ser limpo. Enfim chegou ao forro, um lugar estratégico, meio sombrio. Entretanto, não conseguiu mais voltar. Depois de dois dias, para o desespero de sua dona, alguém ouviu o seu miado e as conversas a respeito se alastraram. Chegaram aos ouvidos de Satie. Era domingo, quando ela aos berros, tentou vencer a resistência do guarda, que dizia ser ali uma propriedade privada. Se não for pela política da cordialidade, será pelas forças armadas. Satie ligou para o corpo de bombeiros. Mas este foi impedido de subir e salvar o gato fujão. Não havia impedimento para Satie, ela queria mais era recuperar a própria saúde com o gato sob a sua guarda. Resolveu ligar para um vereador, que estava em meio a uma macarronada na casa da sogra. Não teve jeito, foi também para o local do desentendimento.
Negociações a parte, convenceram o dono do imóvel que a dona do gato pudesse ir até o sótão. Responsabilizou-se pelo sumiço de alguma peça nesta invasão de domicílio. Nada sumiu. Os bombeiros ficaram na porta, para qualquer eventualidade. Quando Satie aproximou-se do gato, este veio ao seu encontro e aninhou-se em seus braços. Estava salvo. Neste meio tempo, uma multidão se formava na rua, acompanhando o desfecho do caso. “É só um gato”, dizia um, demonstrando frustração. “De fato, é só um gato, mas se trata do meu gato”, devolveu.

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