CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O Anjo Azul e a origem do totalitarismo

Lançado em período ao mesmo criativo e de grande incerteza na história da Alemanha, o Anjo Azul, de 1930, tem algo a ser revelado para a nossa alma humana. No elenco temos Marlene Dietrich e Emil Jannings. É justamente Jannings de atuação espantosa, que torna o personagem Imannuel Rath uma esfinge que deve ser desvendada. Período conhecido por Expressionismo, uma característica bem germânica, teria influenciado artes como cinema, teatro, arquitetura, música e pintura.
O Expressionismo Alemão é uma manifestação mais profunda dos sentimentos do homem, tentando extrair um caldo nebuloso, dolorido e sinistro que se oculta numa zona ainda desconhecida. Supostamente tem uma influência da psicanálise e as descobertas de Freud, também da filosofia irracional de Nietzsche. Não é por acaso, a Alemanha tinha sido derrotada na Primeira Guerra Mundial, sendo humilhada com o Tratado de Versalhes.
Neste período que compreende o final da Primeira Guerra, 1918, e a ascensão de Adolph Hitler como chanceler, em 1932, é conhecido como República de Weimer. O ano seguinte a subida de Hitler é também o fim desta república. Período democrático com um governo social democrata, o SPD, foi a melhor época em que governos do bem-estar social tiveram chances de estabelecer um programa de crescimento econômico e distribuição de renda. Em parte, deu certo, depois entrou em colapso, principalmente com a Crise da Bolsa de Valores de Nova York, de 1929. Seguiu-se a uma crise política, que culminou com o avanço dos conservadores, marcado principalmente pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Alemães – conhecido também por Nazismo.
0 que mostra o Anjo Azul são os anos que antecedem o avanço da extrema direita, que tem tudo a ver com a própria irracionalidade, próxima das entranhas emocionais, de ódio e medo, principalmente vergonha diante da inevitável derrota na guerra. O professor Imannuel Rath, de um romance de Heinrich Mann, desempenha o seu papel da forma como a sociedade exige: disciplinador, cumpridor dos deveres, de bons costumes e moral elevada. Afinal, ele é um moralista diante de alunos travessos, presunçosos e imorais. Imorais ao ponto de frequentarem o Anjo Azul, uma casa noturna, de diversão fácil e subterrânea. Aquilo que não deve acontecer aos olhos dos homens de respeito, acontece naquela casa.
Lá se apresenta Lola, no papel de Marlene Dietrich. Ela canta com as roupas minúsculas, revelando anáguas e outras roupas de baixo. Sua canção é atraente para os ouvidos acostumados com os discursos elevados dos bons costumes, que naquele universo escuro, de lâmpadas leitosas, tudo é permitido. Tudo o que acontece no Anjo Azul é permitido apenas naquele local, uma válvula de escape numa sociedade reprimida, num vai e vem político e econômico de grandes incertezas. O próprio modelo Expressionista de cinema mostra cenários deformados, contraste nas sombras e sombras com silhuetas humanas exageradas, como se viu também em Nosferatu, de 1922, com braços que avançam no reflexo na parede, unhas retorcidas e grandes. Também neste filme, numa das cenas, repete-se o mesmo tema. Unhas que chegam para arranhar, unhas marcadas a veneno, como as garras que viriam com o nazismo.
Justamente o exemplar Professor Rath a deparar-se com aquilo que mais combatia: os instintos. Seriam realmente instintos ou algo diferente disso? Ao conhecer Lola, vai desarmando qualquer resistência ao perigo das fraquezas humanas. Muito mais do que os que frequentam o Anjo Azul, mas que retornam ao convívio social, com Rath o mesmo não se dá desta forma. Abandona a carreira de docente, professor de literatura e língua inglesa, para seguir a trupe a quem Lola se encontra presa num contrato de trabalho. Assim, ele passa a viver à custa do salário da mulher, acompanhando-a por toda a Alemanha, sem nada fazer, enquanto os outros trabalham: o mágico, o palhaço, as dançarinas. Enquanto o mágico é uma espécie de gerente do grupo, o palhaço se mostra sempre triste e perturbado, enquanto as dançarinas, a própria Lola, tem algo de grotesco, com o seu andar vulgar, pesada, suas pernas grossas de paquiderme.
Começa a partir de então a decadência de Rath, sem moral alguma, até que assume um papel de importância naquele grupo de artistas mambembe, o de palhaço. Veste-se de palhaço, com o seu colarinho grande, cabelos desgrenhados, e uma maquilagem marcando os olhos, boca e nariz. Uma máscara de palhaço que serve para criar um personagem, que se confunde com o outro, que nada disso precisa, mas muito mais incômodo em seu papel verdadeiro. Seria Rath a própria Alemanha, humilhada, que jogada na lama, se arrasta para sobreviver. Rath age justamente desta maneira. Ou seria Rath como palhaço alguém perigoso, um lunático, a vir a governar um país, que por motivos desconhecidos levou a população a apoiá-lo como dirigente.
Todos os dirigentes seriam como palhaços, perigosos e tristes, que, se não fosse uma tragédia, seria cômico. E Lola em seu espetáculo continua a cantar: “os homens me rondam como mariposas diante da luz, quando se queimam nada posso fazer por eles”.

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