CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Em caso de dúvida, duvide

Em caso de dúvida, duvide

Será sinal dos tempos
Tempo ruim e temporal
Aquilo que era azul diz ser branco
Do branco diz ser vermelho
Se perde num campo mirrado
Milharal que se faz Sonrisal
Assim caminha errante
Tropa de artistas aloprados
Que faz rir
Que faz chorar
E grita em direção ao vento
Ao moinho de ventos
A roda dos ventos
De oito direções
De cima e de baixo
Uma piada ruim
(Mas tão ruim)
Que nada produz
Senão um ódio latente
Que se expande
E se espalha
Contaminando o que antes
Era tão somente inocência…

O ódio é recorrente
Contra o que deve ser odiado
Odeia-se sobretudo o que não aprecia
Seja este estrangeiro
Migrante ou refugiado
Preto ou sarraceno
Seja pobre ou estudado
Mulher ou travesti
Tudo deve ser separado.

Era afinal o sinal dos tempos
A correnteza a correr ao contrário
A razão sem razão alguma
Por um triz
Um olhar enviesado
A iniciar um linchamento
Sem causa aparente
Aparente demais para ser
Verdade
A verdade desta feita
Pode ser qualquer coisa
Até a coisa inverdade.

O cão da vizinha

Não foi a primeira vez
Nem foi a segunda
Foram inúmeras vezes
Quando o cão envelhecia
Adoecia
No petshop levava
O cão de tantos dias
De tantas horas
Uma picada só
Era o suficiente
Sem muita dor
E o cão dormia
Um novo cão trazia
Para que a saudade não fosse tamanha
Do cão que lá deixara
Em dias
Tudo esquecia.

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