CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A revolta do Coringa

Desde que foi lançado, no início de outubro, o filme Coringa, dirigido por Todd Phillips, tem despertado inúmeras críticas por causa das cenas de violência. Dizem certas vozes de que um filme violento é capaz de suscitar violências no mundo. A questão talvez seja a de que os filmes acabam mostrando uma realidade que tentamos a todo custo ocultar. Esta é uma maneira de dizer “a violência não existe”. Seria ela apenas um sintoma que acomete toda a sociedade, ademais, distante do mundo em que vivo.
Entretanto, todos estamos expostos à violência. Uma coisa é o combate à violência através de medidas de proteção como a segurança pública, nisso se inclui o aumento do aparato policial e a melhora de seus equipamentos. Outra coisa, acredito, seria ver as causas dessa violência. O Coringa não é violento sem motivo algum! É justamente neste campo que o filme Coringa tenta responder. As causas são várias justificáveis ou não em sua total ambiguidade.
Tudo acontece em Gothan City, a cidade gótica em que todos os nossos sonhos e pesadelos se realizam. É onde vive a ricaça família do clã Wayne, que também tem vez neste filme. São os antecedentes para o aparecimento do Batman, o herói dos quadrinhos, que na tela grande do cinema acabou por revelar o seu perfil esquizofrênico. Nada fala dele. É do Coringa que trata, ou melhor de Arthur Fleck, um cidadão comum, que de dia parece-se com qualquer outro.
A rotina de Arthur Fleck é trabalhar, cuidar da mãe enferma e assistir aos programas da televisão. São bastante populares os de entrevista com personagens interessantes. O trabalho de Fleck é o de palhaço diante de uma loja em dias de liquidação. Faz palhaçadas para atrair o público e segura uma placa indicando o caminho para as compras, Nada mais do que isso. Como todo mundo da cidade grande, tem os seus problemas. Fleck teria distúrbio mental e por isso visita constantemente a psicóloga do serviço social. Ele quer, na verdade, que aquela profissional o encaminhe ao psiquiatra que lhe receita remédios para controlar o seu desequilíbrio mental. Sem estes, é capaz de surtar.
Um certo dia, a psicóloga comunica-lhe de que o governo não tinha mais dinheiro para manter o serviço. A situação de Fleck fica mais complicado. “Nem estão preocupados contigo, nem comigo”, lamenta a psicóloga. Não apenas isso, o cliente que o contratara reclama dele junto à agência, motivando a sua demissão. “Eu gosto do trabalho”, confessa. Nenhum outro trabalho lhe era possível. Fleck acha que nasceu para fazer os outros rirem. Afinal ele se considera um palhaço.
Assim que inicia o filme ele mostra seu rosto pintado, mas lhe falta o sorriso. É um palhaço triste. Serão os palhaços realmente tristes? Com a ajuda dos dedos desenha no próprio rosto um sorriso esticando o canto da boca para cima. Ele teria todos os motivos para ser triste. Não foi criado pelo pai, que o abandonou assim que nasceu. Sua mãe o maltratava quando criança. Parece que o mundo todo conspirava contra ele, como que sua existência não tivesse a mínima importância. “Todos agem como eu não existisse, mas existo”, disse numa das falas.
Ao se viver num mundo barulhento em que as vozes se confundem, de alegria e tristeza, anônimas, de pedidos de ajuda, escárnio, ninguém mais ouve. Então surge a solidão. Fleck mergulha sem sua própria solidão e se perde nas imagens da doença. Sua gargalhada surge de maneira desafiadora, quebrando padrões, justamente nos momentos de grande medo. Não serve para espantar o medo, mas é consequência disso. Ao gargalhar mostra toda a sua violência interior, que ele próprio teima em ocultar. Aquele ato provoca a ira dos demais, gerando mais violência.
Por fim, Fleck deve deixar de ser um simples palhaço para se tornar no Coringa. Assim, aqueles que o desprezaram passam a ser vítima de sua vingança. O que nos incomoda é que identificamos com ele e a sua dor. Toda ordem deve ser destruída e assim impere o caos, pois nada deve ser mantido: o mundo é mal e corrupto. Se Fleck não devia existir, passou a existir o Coringa. Isso acontece, logicamente, numa narrativa alegórica do cinema. Cinema como ilusão em que podemos liberar todos os sentimentos recalcados por uma moral que cria a sensação de estabilidade. Coringa vem para provocar.
Os palhaços sempre foram personagens estranhos, que provoca a risada ao fazer graça, tem um rosto que não é o seu, trata-se de um outro eu. Existe uma certa violência em suas quedas, que provoca graça. Ninguém deveria ter graça na queda dos outros, que por dificuldade dos movimentos, por doença, avanço da idade ou desequilíbrio mental acabam por cair. Riem de suas atrapalhadas pois erram ao seguir os padrões aceitos pela sociedade. Quanto mais tentam acertar, mais erram e provocam graça. Um dia, o palhaço resolve fazer o correto e se vinga dos que riram dele. Temos uma identificação pelo Coringa pois algo semelhante anima a nossa alma. Temos que tratar dele para que não se volte contra nós. O que assusta mais não é o Coringa do cinema, nem da violência do filme, mas de outra coisa: os coringas internos, a violência interna.
Esta violência gera uma cultura do ódio, tão presente em nós, nos discursos e justificações. Que o Coringa seja apenas um personagem do cinema!

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