CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A rebelião do verde

Entre os autores da moderna literatura coreana encontra-se Han Kang, nascida em 1970, que lançou A vegetariana, em 2018, pela Editora Todavia. A sua importância se deve por ter sido vencedora do Man Booker International Price, um reconhecimento de que não pode ser desprezada entre os talentos da atualidade. O título A Vegetariana mais parece um manual de alimentação saudável ou ainda um movimento político ecológico em defesa dos animais. Possivelmente não compraria um livro apenas por este título ou seria, então, uma provocação. Bem do que poderia esperar, nada de muito correto está na literatura de Han. Existe uma tensão no estilo rude de descrever os acontecimentos, sem nenhum floreio,direto que toca diretamente nas feridas que insistem em não fechar.
Tudo gira em torno de uma mulher, Yeonghye, de cerca de trinta anos, casada, bastante comum que num certo momento resolve romper com todos os padrões impostos. Após um sonho, resolve tornar-se vegetariana. Não teria problema algum, pois no mundo todo existe uma infinidade de vegetarianos, que se submetem a este regime. Os restaurantes se espalham por toda a cidade. Não somente isso, surgiram também as tribos de veganos, com regime semelhante ou, alguns, mais extremistas. Claro, todos podem conduzir as suas vidas da maneira que quiser em se tratanto de suas alimentações. Quanto à nossa protagonista, não se trata, no primeiro momento, de levantar uma bandeira a favor da vida dos animais. A questão dela é uma repulsa ao gênero humano e a civilização que o criou.
Conforme a autora teria declarado numa reportagem, a idéia de escrever um assunto abordando este tema sugiu a partir de um conto, de sua autoria, que não teria encerrado a questão. Este conto é O fruto de minha mulher, em que descreve alguém que resolve se transformar numa árvore. Em A vegetariana, o processo de fugir dos padrões aceitos, como de ingerir carne, a conduz num labirinto de incertezas e processos absurdos que a conduzirá a uma mudança de padrão mental. Quando o marido a procura, ela diz que ele cheira carne. Por isso, cada vez mais ela se isola, se preocupando unicamente em viver unicamente de vegetais. Não cuida mais da casa e nem mesmo de sua aparência, cada vez mais desleixada.
Esta situação de se transformar em algo, diferente do humano, lembra A Metamorfose, de Franz Kafka, uma situação do absurdo em que a condição humana é visto com desconfiança. Tudo acontece de uma maneira em que nada pode ser questionado, como numa tragédia em que a única coisa a fazer é repetir tudo como sempre se fez. Por esta perspectiva, Yeonghye nega-se a seguir os padrões normativos como membro da classe média coreana, casada e sem filhos, com um marido que trabalha como qualquer um outro. Nada fora do eixo. Talvez isso seja um dilema dos países que conseguiram formar uma classe média atuante na economia e socialmente estável.
A literatura é um retrato da sociedade em que se vive: seus dilemas, a insatisfação, a falta de perspectiva. O que teria levado a escritora Han a escrever situação tão mórbida também serve para uma reflexão dos grandes centros econômicos, das grandes capitais e população densa. Yeonghye nega o mundo em que vive e evita o contato humano. Há vários narradores: no começo o marido, depois ela mesma. Num outro momento, um narrador exterior, a própria autora do livro. Diante da recusa em comer, existe a figura do pai, alguém todo poderoso, que simplesmente enfia goela abaixo um pedaço de carne. É um momento de grande violência. Tal atitude não é aprovada pelos demais, que assistem o acontecimento mas nada fazem senão ficar olhando.
A violência é uma atitude humana, o que não aconteceria com os vegetais. Yeonghye quer se tornar um, pois não consegue mais viver com os humanos. Mas ela encontra-se só. Em nenhum momento os demais intervém a seu favor. Falta coragem para provocar uma mudança, sendo aquela atitude um mal estar construído historicamente numa relação de poder. “Assim foi e assim será“ acabou se perpetuando na sociedade em nome da ordem, e assim, imposta.
Não há mais o que fazer do que revoltar-se, e assim faz Yeonghye. Há um mundo a ser enfrentado, o que conduzirá a um total fracasso de qualquer tentativa de resistência. Cada vez mais a desumanização de Yeonghye a conduzirá a um estado vegetativo, quase selvagem, em que a única coisa que resta é a sexualidade. Não é mais a sexualidade entre um homem e uma mulher. Deve ser agora entre plantas, pois as plantas não sentem atração pelos homens. Há uma resistência de Yeonghye em continuar sendo uma mulher humana, ao invés disso uma mulher vegetal, totalmente fora dos padrões sociais aceitos. Contrariando assertivas como a de Rousseau de que o “homem é bom“, isso não se aplica no mundo moderno. Não se fala diretamente disso, mas a protagonista vive neste mundo que impõe uma maneira de ser e atuar que em sua humanização, possivelmente promove o seu contrário. Não se trata apenas em comer carne, sendo esta de origem animal, mas num processo de antropofagia comer os outros humanos para sobreviver.
Ao mesmo tempo que conduz a um desencantamento do mundo, Han Kang apresenta um sentimento de revolta e sem uma saída. Isso não pode ser visto como algo negativo, mas apenas crítico de uma depressão que não cessa. Uma sombra que nos persegue e fingimos não ver.

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