CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A face do outro

Estava no fundo da mala de couro trincado por ressecamento, lá onde ninguém mais mexia depois do falecimento dos avós. De certo, um dia, alguém novamente iria descobrir seu paradeiro e fazer perguntas. Uma seda de boa qualidade envolvia a peça, muito delicada e antiga. Teria vindo na bagagem dos antigos, cortando mares, contornando o Cabo da Boa Esperança.
Com cuidado, foi desembrulhando até que saltou-lhe aos olhos. Por pouco, deixava cair. Era uma máscara, dessas de madeira trabalhada nos detalhes, um tanto assustadora. Tinha visto uma, num livro de artes, ao lado de tantas outras de formas curiosos. Gostava daquilo. Nem chegou a se incomodar com o par de cornos que sobressaiam da fronte. E aquela boca escancarando os dentes dourados como ouro. Sabia do que se tratava. A máscara preciosa era a de Hannya, visto antes num chaveiro, que o tio-avô carregava orgulhosamente na cintura enquanto pitava sua cigarrilha.
Tinha ouvido falar de que vovó Matsue estudara artes dramáticas antes de vir ao Brasil. Aquela máscara possivelmente era uma das lembranças do tempo de teatro. Era do Teatro Noh. Mais tarde soube melhor da história em que envolvia a máscara. Hannya aparecia numa peça espetacular chamada Aoi no ue em que a protagonista era possuída por um sentimento de ciúmes, quando seu rosto se transformava naquele aspecto terrível.
Tempos antigos em que o príncipe Hikaru Genji era o desejado no palácio de Kyoto, cujas Narrativas de Genji (Genji Monogatari) revela de maneira visceral os sentimentos mais profundos em total perdição. Hannya é o ciúme capaz de transcender o tempo, a vida e a morte, a realidade e a fantasia. Lady Rokujo é bela, aristocrática, inteligente e extremamente ardilosa. Casada com o príncipe herdeiro, ela, filha de um ministro, quer ascender ao poder e tornar-se imperatriz. O destino foi outro: morre o marido e ela não pode dar continuidade às ambições. Foi quando, por algum motivo, apaixona-se pelo príncipe Hikaru mas este não corresponde. O ciúme leva a arquitetar uma vingança, desta vez contra a princesa Aoi, esposa de Hikaru. Transformada num demônio, com os aspectos de Hannya, vai assombrar a Aoi.
Este é o ponto central da peça. Ao mesmo tempo bela e aterradora. A máscara Hannya era o próprio rosto feminino no momento de grande paixão. Capaz de tirar a vida por egoísmo. Com a máscara nas mãos, que alisava com a ponta dos dedos, refletia demoradamente. Havia entretanto uma força descomunal em Hannya, ou o sentimento que dela emanava. Curiosa, depois intrigante, poderia também se tornar como ela. Examinou cuidadosamente a máscara, os olhos saltantes, a boca num sorriso sinistro, algo ameaçador capaz de impingir uma força jamais experimentada. Será possível!
Poderia arriscar mas acabou cedendo à prudência e guardou-a da maneira encontrada. Ficaria para a próxima.
Por algum tempo esqueceu-se do assunto. Passou o outono, o inverno e chegou a primavera. Havia uma alegria no ar e uma dúvida que martelava as têmporas. Dirigiu-se ao local e mais uma vez a máscara tornara-se no objeto de apreciação. Antes tímida, cada vez mais aumentava-lhe o brilho nos olhos, um sorriso escapando-lhe do canto da boca. Ficava por horas, num sonho em que cavalgava um alazão em campo aberto, atropelando arbustos e pedras, sem que nada afetasse seu ânimo, como também o animal que a conduzia.
Cada vez mais, acostumava-se com a visita ao velho alçapão, onde tudo acontecia. Passou também a ostentar a máscara, amarrando-a atrás por entre os cabelos soltos e rebeldes. Viu-se assim no espelho e pode executar uma dança, a dos guerreiros prontos para a batalha. Simulou golpes de espada, lanças e alabardas, correntes esticadas nos cabos de foices, cordas de arcos disparando setas com pontas de meia lua.
Tornava-se ousada cada vez que punha a máscara. Seu comportamento mudara, pois não havia situação que metesse medo. Tentaram roubar-lhe a bolsa quando subia no ônibus. Não precisou ajuda, sozinha dominou o ladrão e derrubando-o agarrou-lhe o pescoço num estrangulamento que demorou o suficiente para a reforço policial chegar. Até tentaram interferir, mas nada de ceder.
– Sei que ele é um ladrão, mas também é gente – bateu no braço dela, pedindo clemência.
– Já está bom, se continuar assim, vai matá-lo – disse a outra.
– Apanhou o suficiente, deixe que ele se vá.
Aquela situação começava a se tornar incontrolável.
Na peça Aoi no ue, Lady Rokujo no momento de fúria consegue se transformar no demônio e viajar no espaço somente para causar desastres em sua oponente. Ela se torna numa ikiryo, num fantasma vivo e movido pelo ciúme, que adquire poderes paranormais que somente possuem os ensandecidos. Quanto mais Lady Rokujo alimenta-se destas artimanhas, maior é o seu insucesso em conquistar o amor do Hikaru. Ainda que tenha levado à morte a princesa Aoi, Rokujo não realiza seu intento. Entretanto, a paixão de Rokujo não diminui, mas ao final acaba morrendo. Poderia ser o fim da história. Não nesta. Da outra margem, Lady Rokujo se torna num shinyo, um fantasma de uma pessoa morta, para desta vez assombrar a nova esposa de Hiraku, Lady Murasaki.
Usar a máscara Hannya remetia à história de Lady Rokujo em sua infeliz empreitada em direção ao desespero. Nem precisava usar, bastava inspirar-se nela, enlouquecer de ciúme e tormento numa relação amorosa possessiva.

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