CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A escola proibida

Aos fundos do balcão do Empório Paranaense, Toshihiro Morimoto fazia a limpeza das prateleiras com o espanador, cujas pontas das penas tocavam de leve a sujidade das garrafas. Na entrada, duas portas, que deixava o interior um tanto escuro, principalmente à tarde. Seus fregueses, eram os que viviam na zona rural, ajudando na colheita do café, alguns nas culturas perenes. De barba raspada, de cara lavada, o sol não escurecera sua pele de tonalidade amarela. Nem mesmo a poeira da terra vermelha chegava a penetrar-lhe nos poros.
Dois filhos e uma filha. Nunca ajudavam, permanecendo no interior da casa, cuja porta de acesso se dava ao lado da casa, num corredor até o quintal. Havia também uma sala, separado do resto da casa. Era lá que à noite ensinava às crianças a língua japonesa. Vivia-se tempos difíceis. As escolas de japonês tinham sido proibidas e qualquer atividade estranha virava caso de polícia. Por isso, todas as vezes reforçava:
– Quando saírem, não caminhem em grupos, tomem sempre a rota mais rápida para as suas casas.
Sempre que Janete, da casa da frente, entrava no estabelecimento examinava as mercadorias, algumas bem interessantes usadas pelos japoneses. Era engraçado o serrote que tinha os dentes ao contrário. Por momentos olhou demoradamente os vidros do balcão e contemplou os lenços de seda. Aproveitava em permanecer no local e lançava os olhos em direção à uma porta, pois ouvia-se a vitrola ligada.
Não havia tempo ruim para ela, que não hesitava em atender o pedido da mãe para que fosse até o empório. Quase sempre algum tempero. Lá estava ela de novo
– Seo Toshihiro, um litro de óleo para cozinha.
Estendeu-o até que ela segurasse com ambas as mãos. Embrulhara algo num papel de embalar frios, colocando-o no balcão. Nada que pedira. Emburrou, sem entender direito.
– Para você, é mochi com recheio de feijão azuki – insistiu.
Nunca acontecera antes. Nem era amigo do Toshihiro, a quem o via com respeito mas com distanciamento. Olhou para o presente, sem saber o que fazer. O que diria a mãe neste caso. Levantou os olhos para o japonês, de olhos finos, cuja expressão facial era de amizade. Ele queria ser amigo dela. A menina desconfiou mas sem jeito na recusa.
Bem logo o empório fechava, a escuridão tomava conta. As crianças chegavam. Algumas delas, colegas de Janete no grupo escolar. Havia o Hideko, a Clarissa e o Paulo. Uma certa vez, cruzou com um deles quando retornava de uma visita na casa de uma família, cuja avó encontrava-se enferma. A mãe de Janete tinha habilidades em usar as ervas, seja nos chás, também nas benzeduras. Foi quando soltou-se:
– Fala comigo Hideko – que correu e sumiu entre as árvores velhas.
No outro dia quis falar com ele, que desconversou. Não insistiu. Havia algo de errado naquela atitude. Não demorou muito. Numa das aulas, a professora Eugênia, com seus óculos de garrafa fez o sermão. Os japoneses lutaram na guerra do lado oposto, e resistiam em participar da cultura nacional. Um cisco entrou no olho direito de Janete, que esfregou com insistência. Era aquilo. Os vizinhos sabiam que o japonês ensinava a outra língua, entretanto faziam de conta que nada havia de anormal.
Mas a polícia chegou e carregou tudo, livros aos montões e Toshihiro foi fichado. Alguém o denunciara. Nunca se soube do responsável. Janete ficou penalizado e ao visitar o empório entregou uma fatia de pão caseiro.
Os olhos dele molharam, mas em seguida adquiram o brilho de sempre.

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