CANTO DO BACURI: Era uma vez um pai

Dentre os filmes de Yasujiro Ozu, meses antes da deflagração da guerra contra os Estados Unidos, foi lançado Chichi Ariki, que podemos traduzir por “Era uma vez um pai”, em que podemos ver a atuação de Chishu Ryu bastante jovem. Seria este ator uma unaminidade nos filmes de Ozu. A produtora foi a Shochiku. É justamente Ryu que desempenha o papel de Shuhei Horikawa, um professor de matemática, viúvo e idealista, que enfrenta os dilemas da vida. Ele tem o único filho, a quem deve manter os estudos para tornar-se alguém igual ou superior a ele. Claro, tem um viés pedagógico, de uma moral confuciana de esforço e abnegação.
Trata-se de um Japão mais antigo, do antes da modernização imposta pelos Estados Unidos, em que a simplicidade é condição essencial para se levar a vida. Isso Ozu mostra muito bem, ao compor as cenas apenas com o indispensável, A sala de estar é mostrada, como um exemplo de lar japonês, com as coisas organizadas como a chaleira posta sobre a mesa de centro, algo velho mas resistente ao tempo, no lado direito um guarda-chuva preto enganchado num móvel e acima um cantil e uma bolsa de água, dessas usadas durante o inverno para esquentar as pernas
De fato, as coisas estavam difícies ao Japão em 1942, sem matéria-prima o suficiente para abastecer seu mercado interno e o boicote por parte dos Estados Unidos, a guerra do Pacífico seria inevitável. Pelo menos assim era a situação vista pelos japoneses. Chichi Ariki antecede estes acontecimentos, mostrando, sobretudo, o senso de equilíbrio de um pai diante das dificuldades. Os tempos de carências e sofrimento estavam mais perto. Este filme é apropriado daquele momento.
Um professor é responsável pelo bem estar dos seus alunos, seja segurança física como espiritual. Realizar excursões pelos pontos turísticos e históricos é um fato comum entre os estudandes. Visitam o Buda gigante de Kamakura, tiram fotos diante dele, os alunos com seus uniformes negros, bonés de igual cor na cabeça, a mesma mochila para todos. Numa das cenas, mostram caminhando por uma estrada de terra, aos fundos uma canção. Parecem soldados, ou seriam soldados os estudantes japoneses que não se envergam e seguem adiante. Não é este um filme de propaganda no decurso da guerra, mas mostra sinais de um possível conflito. A canção levanta a moral dos momentos de desepero.
Aquela excursão, que deveria ser apenas uma viagem para enaltecer o espírito e relaxar o corpo um fato novo acontece a fim de mudar os rumos: a morte de um aluno. Por uma fatalidade, sem que ninguém pudesse impedir, o aluno acabou por afogar-se num lago. Daí por diante, a carreira do professor acaba. Seria ele, então, responsável pelos alunos. Ele não tem dúvidas. Decide que não poderá mais lecionar. As agruras de uma nova vida coloca o próprio filho Ryohei a viver distante do pai, pois deverá aprender a se virar sozinho e dedicar-se unicamente aos estudos. Essa era a condição do momento. O próprio Yasujiro Ozu, depois de dirigir este filme, vai à China servir no Exército Imperial. Não somente no caso dele, muitos outros fizeram o mesmo. Nada havia a fazer os filhos do que estudar.
Para que os estudos acontecessem, o pai Shuhei teria que trabalhar fora e ganhar o suficiente para pagar as despesas de manutenção do filho e os estudos. No momento em que o pai conta ao filho a novidade não muito agradável, a câmera mostra o rosto imenso do pai a falar diretamente olhando para a câmera. Produzia uma sensação estranha de que a conversa era para toda a sala de exibição. Num outro momento, o pai revela que ele chegou ao posto de professor pelo esforço do pai dele, professor de clássicos chineses, gastando todas as reservas em favor da educação do filho.
A conversa do pai com o filho pequeno acontecia numa pescaria, os dois, com a câmera às costas, que lançavam a linha contra a correnteza, que vai arrastando a vara, para novamente repetirem o gesto. Os dois fazem o mesmo movimento no mesmo instante. A vida é uma constante luta contra a correnteza. Cada vez mais, a distância entre o pai e o filho fica maior. O pai deverá se transferir para Tóquio. Lá a vida é mais agitada, com as máquinas trabalhando a todo vapor. Há funcionários uniformizados e para Shuhei arranjar um emprego não é difícil assim. As cenas mostram uma cidade mais dura, das paredes de concreto dos altos edifícios, as janelas anônimas que surgem ausentes de personagens. Enquanto isso, dentro dos escritórios as mulheres estão diante de máquinas de escrever e produzindo o ruido do metal sendo batido..
Existe uma nostalgia nos filmes de Ozu, de um interior que perdeu a importância em substituição à vida concorrida das cidades. A relação nestas parece ser apenas econômica. Enquanto no interior os escolares usam os tamancos guetá e calçam hakamá, nada disso acontece em Tóquio. Vinte e cinco anos passados, nada aconteceu de diferente na vida de Shuhei, mas do filho Ryohei o sonho do pai se realizou. Tornou-se professor, a mesma profissão inicial do pai. A questão do tempo marca constante dos filmes de Ozu, aqui, mais do que nunca se faz presente. O pai envelheceu enquanto o filho adulto cresceu mas ainda não possui a experiência e nem a sabedoria do pai. Num encontro entre ambos, num balneário, o filho revela um desejo: morar em Tóquio, próximo do pai. Não é uma boa idéia, aconselha pai. Aquela atitude mostraria uma indolência do filho, uma atitude de fraqueza, tudo aquilo que condena o pai. “Não faça isso” aconselha o pai.

Comentários
Loading...