CANTO DO BACURI: 13 assassinos ou a saga da vingança

Em se tratando de cinema japonês, os filmes de época, destes de espada, homens com penteados característicos, mulheres usando quimonos, sempre teve um público cativo. Destes, um dos mais representativos foi “13 assassinos” (Jusan nin no shikaku), em versão preto e branco de 1963. Teve a direção de Eichi Kudo e roteiro de Kaneo Ikegami. Mais recentemente houve uma versão mais trabalhada, colorida, de 2010. Houve distribuição ao grande público desta última edição nas salas de São Paulo.
Muito outros filmes do gênero foram produzidos no cinema japonês, como “Os 47 ronin”, em inúmeras versões: 1910, 1928 e 1958. Este tema esteve presente no teatro Kabuki e no Bunraku, cujas peças tornaram-se populares com o nome Chushingura. Não podemos nos esquecer também de “Os sete samurais”, na direção de Akira Kurosawa, em 1954. Influenciado por este, os americanos lançaram “7 homens e um destino”, de 1960, estrelados por Yul Brynner e Steve McQueen. Em 2015 com a direção de Quentin Tarantino, chegou às telas “Os 8 odiados”.
O assunto abordado, seja na forma japonesa, com samurais e espadas, na americana, com aventureiros do velho oeste, com revolveres e pólvora, a questão do ajuste de contas é o que chama a atenção. Nada muito complicado, pelo contrário. Faz parte do público em geral uma aventura em que o mal deve ser pago com a força das armas, fazendo-se justiça a todo o custo. Algo que se realiza no campo da idealização em forma de arte, seja teatro, seja, mais tarde, com alcance maior, no cinema.
No cinema de Eichi Kudo, a história é bastante provável. Um príncipe feudal, de nome Naritsugo Matsudaira, do clã Akashi, abusa do poder além do permitido, ainda que fosse o irmão caçula do xogum Ieyoshi Tokugawa. Seria ele alguém que cometia as piores maldades seja dirigido aos comuns, também aos outros príncipes feudais. Ele assassinava sem causa aparente, violentava e cometia atrocidades sexuais contra as mulheres. Numa dessas ocasiões, ao passar pelo feudo Owari, hospedou-se numa pousada, e admirado pela beleza de uma das mulheres, resolveu arrastá-la aos seus aposentos. Esta mulher era justamente a esposa do filho do príncipe feudal de Owari. Ao cair em desgraça, a mulher se mata após o marido ter sido abatido pela espada de Naritsugo.
A partir deste motivo, tudo tinha de ser feito para destruir Naritsugo Matsudaira. Sabedor de que ele poderá assumir um posto elevado no governo central, a convite do irmão xogum, alguns se reuniram para colocar um fim em sua carreira, justificada pela sua índole de maldade. Na época, existia um sistema implantado pelo governo em que os feudos aliados deveriam enviar seus familiares a viver em Edo, a capital do país, durante o governo dos xoguns Tokugawa. É o que deveria acontecer com Naritsugo. Sabedor disso, uma emboscada poderia ser posto em prática.
Desta forma, um grupo formado por 13 assassinos, com motivos para a execução ou simplesmente ao atender os pedidos de seus mestres, também quem tomava parte por gosto da aventura ou por dinheiro, tornaram-se protagonistas da execução. Todo o filme passa em torno da execução do plano até a derrocada de quem deveria morrer.
A maneira de ser contada, ou melhor, filmada sem que caísse na rotina, dependeria da posição da câmera. Existe planos fundos e outros amplos, como numa sala, em que os assassinos discutem os pormenores do plano. Existe beleza na postura dos agentes, com o dorso ereto e pernas dobradas sobre os joelhos. Outras vezes, a câmera se coloca de maneira distorcida, criando um olhar totalmente original. São focos de cima para baixo, igualmente pelo uso da câmera baixa. A câmera parada foi utilizada muitas vezes por diversos diretores, o que aconteceu também em “13 assassinos”.
Nesse tempo, havia uma pesquisa no cinema, por parte dos diretores dos Estados Unidos e do Japão. O cinema americano, destes de índios e invasões nos fortes, feitos de troncos postos lado a lado, teria inspirado o diretor Eichi Kudo neste filme. Ao final, durante o encurralamento de Naritsugo numa aldeia, assemelha-se muito com os filmes americanos citados. O cinema americano influenciou sobretudo o cinema de espada japonês, principalmente os mais populares, de séries como Zatoichi e Lobo Solitário. Havia uma semelhança grande entre os heróis e anti-heróis de ambos os países.
Cada um a sua maneira, nos filmes japoneses de espada, havia um atrativo a mais: o código de honra dos samurais. Independente da opinião a respeito da índole de seu senhor, um samurai servidor sempre mantinha sob a sua tutela garantindo-lhe a fidelidade e a honra. É o que acontece com Hanbei, capaz de morrer em defesa de seu senhor. A honra era mais importante do que os próprios valores individuais. A todo momento, essa era uma questão a ser valorizada.
Se de um lado, havia Hanbei, que servia a Naritsugo, de outro lado estava Shinzaemon, o líder do grupo de assassinos, que havia jurado fidelidade a um senhor, cuja atitude fora das instâncias legais, pudesse denunciá-lo em caso de fracasso. A vingança ainda que justificável era uma medida extraordinária mas que poderia causar algum bem: a morte da maldade. Esta dicotomia entre o permitido e o vai além do permitido se realizaria na arte, tal qual a tragédia Medéia de Eurípedes no teatro clássico grego.

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