BRUMADINHO: ‘Faremos o que for possível para abreviarmos o sofrimento das famílias’, diz Pedro Aihara

(Jiro Mochizuki)

Bacharel em Prevenção de Catástrofes pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais e em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em Gestão de Projetos pela USP e em Gestão de Desastres pela Universidade de Yamaguchi, no Japão, além de mestrando em Direitos Humanos (UFMG), o tenente Pedro Aihara impressiona.
Não só pelo currículo – apesar de ter apenas 26 anos –, mas também pela serenidade e segurança que o tornaram conhecido nacionalmente na tragédia do rompimento da barragem de Brumadinho. Seja num bate papo informal com amigos e admiradores ou numa entrevista – como a que ele concedeu para a reportagem do Jornal Nippak no sábado passado (12), logo após encerrar, sob aplausos, sua participação como um dos palestrantes da Convenção Nacional da JCI Brasil, realizada no Espaço Hakka, no bairro da Liberdade, em São Paulo, Pedro Aihara aparenta sempre ser um sujeito tranquilo. E inspira.
Embora ainda muito jovem, Brumadinho não foi a sua primeira grande ocorrência. Em termos de repercussão já tinha trabalhado em Mariana (MG). Não como porta-voz, mas ele também estava na operação ocorrida em 5 de novembro de 2015 e que na época foi considerada a maior tragédia ambiental da história do Brasil, deixando um saldo de 19 mortos. O tenente também esteve no ataque na creche Gente Inocente, em Janaúba, no norte de Minas Gerais, em outubro de 2017, que deixou 13 vítimas e também comoveu o país.
“Infelizmente, a tragédia faz parte da rotina da nossa profissão”, diz Pedro Aihara, explicando que a tragédia de Brumadinho “foi muito forte pela quantidade de vítimas e pelo impacto na comunidade local por não se tratar de uma cidade muito grande”. “Então, em termos de repercussão, de dificuldade de operação – nove meses é muito tempo para manter uma operação – com certeza até o momento Brumadinho se apresenta como maior desafio para minha carreira”, afirma, lembrando que, passados quase nove meses de operação, os bombeiros conseguiram localizar 251 das 270 vítimas, ou 93% delas.

Pedro Aihara também falou sobre o Japão: “A nação vai se recuperar e voltar a ser exemplo” (Jiro Mochizuki)

Promessa – Segundo ele, uma operação que não parou em nenhum momento. “Todos os dias, todos os finais de semana e feriados continuamos de maneira incansável trabalhando no local e o que nos mantém desta forma é justamente a percepção de que, para estas famílias, todos os dias de espera são importantes e o que a gente puder fazer para abreviar este sofrimento que eles estão passando nós iremos fazê-lo”, explicou ele, afirmando que hoje, em média, estão trabalhando em Brumadinho cerca de 150 militares por dia e mais de 170 máquinas pesadas operando paralelamente, além de um serviço de inteligência que monitora todas essas ações e desenha novas estratégias para a continuidade desses trabalhos.
Para ele, localizar as 19 pessoas que ainda estão desaparecidas foi uma promessa que os bombeiros fizeram à famílias. “Iremos continuar até localizarmos essas 19 pessoas que ainda estão desaparecidas ou então até o ponto que a busca se torne inviável do ponto de vista técnico. Como a gente fala de um corpo que está em avançado estado de decomposição, chega um momento que não é mais possível fazer este tipo de localização porque a matéria se mistura com o rejeito, mas até que se atinja esse ponto nós continuaremos até localizarmos essas pessoas”, disse Aihara, lembrando que sua equipe chegou 20 minutos depois do rompimento da barragem e o que se viu foi um cenário de guerra.

Pedro Aihara fez especialização na Universidade de Yamaguchi (Jiro Mochizuki)

Vínculo – Segundo ele, o sentimento que fica é de tentar reconstruir, de levar um pouco de esperança para as comunidades. “E a melhor forma que a gente encontrou de fazer isso é trabalhando de uma forma comprometida, de forma abnegada. A própria população de Brumadinho construiu essa percepção em relação ao Corpo de Bombeiros uma vez que eles nos veem lá diariamente trabalhando todos os dias, de forma incansável. Mesmo diante de tanta tragédia, num cenário tão caótico, foi possível estabelecer um laço, um vínculo com essa comunidade muito forte e mostrar que juntos nós vamos superar isso de uma maneira muito mais rápida e saudável do que a gente imagina”, conta, afirmando que, nos primeiros momentos da tragédias, a ajuda recebida de todas as partes foi muito importante”.
“Nesse momento atual, como a operação já está bastante estruturada, ela basicamente funciona pelo corpo de bombeiros com apoio logístico da empresa responsável, a Vale. Como já organizamos todo processo, de fato a operação tem ficado mais concentrada. Mas nos primeiros momentos da tragédia, o apoio de outras forças, de outras associações, foi muito importante”, explicou, acrescentando que atualmente a operação é realizada também com a coordenação com outros corpos de bombeiros militares do país, “principalmente no que tange ao apoio com algum recurso especializado, como é o caso dos cães de busca”.
Segundo ele, hoje a busca ainda oferece riscos para os bombeiros. “Existem materiais como cilindros de acetileno, objetos cortantes e existe também a questão da presença de alguns metais pesados. Só que, para tudo isso, também existe uma estratégia desenhada de vários protolocos de saúde que são adotados justamente para garantir a saúde desses militares”, diz o tenente, afirmando que “todos que trabalham na operação recebem um acompamento e são monitorados por médicos e psicólogos antes, durante e depois da operação no curto, médio e longo prazo”.

– “Uma de nossas principais preocupações também é manter a nossa tropa em condições de realizar este tipo de salvamento”, destaca, explicando, aliás, que a serenidade e segurança que o tornaram conhecido foi resultado de uma preparação técnica e gosto pela carreira.
“Em primeiro lugar, nós temos uma preparação técnica para isso, para saber do assunto que a gente está falando ou então, dentro disso, existe uma preocupação no preparo sobre esses assuntos, protocolos que são aplicados e geram uma tranquilidade maior”, conta, afirmando também se tratar “de confiar muito no serviço da minha corporação”. “São homens muito qualificados, muito dedicados e terceiro, manter fé e a tranquilidade nesses momentos também é importante. Saber que a gente está participando de algo que diminui um pouco o sofrimento das famílias. É a responsabilidade que a gente tem nesse momento, de fazer que respeite o outro, pela consideração que o outro está sofrendo. Quando você coloca todos esses ingredientes nesse processo, o resultado sai naturalmente desta forma”, diz Aihara, que destaca seu orgulho de ser descendente de japoneses e se solidariza com o drama que o país está vivendo após a passagem do tufão Hagibis neste fim de semana que deixou um rastro de destruição e mais de 70 mortos por enquanto.

“Mesmo num cenário caótico foi possivel estabelecer um vínculo” (Jiro Mochizuki)

Solidariedade – “O Japão é um país muito preparado para lidar com este tipo de tragédia e é muito parecido com o povo brasileiro em termos de solidariedade. Os japoneses já passaram por guerras mudiais, por ataques de bombas atômicas, por terremotos e tsunamis e isso foi capaz de estabelecer uma união muito forte no povo japonês. Enxergo esse momento com muita tristeza, é lógico, mas tenho certeza que a nação japonesa mais uma vez vai se recuperar a exemplo do que aconteceu antes e ser, novamente, um exemplo de resiliência, de união, de solidariedade e, especialmente, do amor mesmo que aquele povo tem pela nação, pelo país deles”, disse Aihara, que ficou dois a três meses em 2016 no Japão onde se especializou em Gestão de Desastres pela Universidade de Yamaguchi.
Para ele, a educação foi um dos principais legados que herdou de seus país. “Também sempre me preocupei em estabelecer esse vínculo com o Japão e fico muito feliz de poder trazer muitos ensinamentos nessa especialização que eu fiz lá aqui para Brasil e com isso contribuir para o estreitamento de laços ente as nossas nações”, concluiu.

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