BACURI / CHICO=O Grande Ditador de Chaplin

De imensa beleza plástica e um certo incômodo, devido a temática, está o “Grande Ditador”, dirigido e com atuação de Charlie Chaplin, de 1940. Também é o primeiro filme falado deste ator, consagrado através do cinema mudo. Justamente no ano que foi lançado, a situação mundial, principalmente a Europa, não era das mais favoráveis. Em 1938 a Alemanha tinha anexado a Áustria, depois a Tchecoslováquia em 1939, abrindo caminho para tomar a Polônia. É o início da 2ª. Guerra Mundial e a ascensão do nazi-fascismo na Europa.

Diante desta situação, em que os Estados Unidos ainda ignoravam os acontecimentos, Chaplin produziu o “Grande Ditador” em que reproduzia uma outra história, a desejada, em que a tragédia continha elementos de grande humor. O “Grande Ditador” trata-se de Adenoid Hynkiel, seria este uma versão menos tensa de Adolph Hitler. Neste é o ditador de um país chamado Tomania, cujo dirigente acalenta o sonho de dominar o mundo. É como fosse uma criança num jogo de faz de conta, atuando de maneira autoritária em relação aos subalternos e simpatizantes.

Se de um lado temos Adenoid Hynkiel, de outro temos o barbeiro judeu, sem outro nome, alguém comum, um tanto inofensivo, com as mesmas feições do anterior. É como que um fosse a sombra do outro, da maneira pensada por C.G.Jung. Não se sabe quem é a sombra nem quem é o ser que reflete a sombra. De um lado o tirano, de outro o tiranizado. De um lado a raça ariana, de outro a judia. Em ambos, entretanto, existe um humor circense, daqueles palhaços que deixaram de existir, por sua inocência, presentes agora apenas na memória.

Até mesmo a soberba de Hynkiel tem uma carga de humor, em sua fala, que levanta plateias, levanta o braço direito em saudação, e todos o imitam como que aquilo fosse um sinal de poder. Se existe uma loucura em Hynkiel, esta contamina todos os seus seguidores, quer dizer, todos de Tomania. Existe uma repetição de gestos, às vezes assustador, outras vezes engraçado. O que pode ser engraçado pode ser também trágico. Estes dois elementos, parece-me, andam juntos.

A graça do barbeiro judeu é a sua simplicidade em fazer justamente o que sempre se fez, sem grandes sonhos, apenas a vontade de viver e amar. Mas justamente a sua simplicidade é a maior arma contra o autoritarismo, que jamais se rende àquele. Assim vivem também os demais como ele, vendendo tomates e batatas nas bancas, lavando roupas e fazendo a faxina.

Bem ao contrário destes, estão os milicianos, uma espécie de força policial autônoma, com seus capacetes prussianos e uniformes militares. Na verdade, não são militares, agem por conta própria, deixando a destruição por onde passam, quebrando vitrines, violentando homens e mulheres, saqueando as frutas vendidas nas bancas. Talvez, Chaplin tivesse fazendo uma paródia dos SA nazistas, mais tarde substituídos pelos terríveis guardas SS. São estes justamente os principais apoiadores do ditador Hynkiel.

Esta milícia age contra a presença dos judeus e transformam o bairro em que eles vivem num campo de batalha, distribuindo sopapos e repetindo cenas exemplares. A faxineira Hannah levanta a voz contra eles, desafiando-os. O acontecimento é inevitável: passam a lançar sobre ela uma dezena de tomates, como apedrejassem uma prostituta dos tempos bíblicos, totalmente justificável em algumas religiões. A única culpa dela, é ser judia. Não é de hoje que isso acontecesse, junto as populações minoritárias, de etnia, religião e cultura. Para que isso ocorra, deve existir uma ideologia da intolerância e ódio contra determinados grupos sociais. Isso acontecia entre as torcidas de futebol, mas atualmente isso não se restringe apenas a elas. Esta situação se espalhou pelo mundo afora, o ódio se justifica em nome da pátria, da família e da moral. Até o ódio se tornou algo tolerável subtraindo toda forma de racionalidade e do bom senso.

Num momento de loucura, consentida e aprovada, o chefe da propaganda do regime de Hynkiel declara diante de multidão os valores superados da democracia, liberdade e igualdade, como sendo males que impediam o progresso da nação. Uma nação que pretende se alastrar pelos países vizinhos, numa Europa unida pela ordem de um ditador. Este é um líder carismático, o mais temido de todos, detentor de uma oratória capaz de destruir qualquer resistência ao proposto. Aproxima-se de líder religioso e fundamentado em ideias e dogmas que justificam os seus fins. Conforme Max Weber, é a dominação carismática.

Por uma ironia, neste filme, o final é mais surpreendente. O barbeiro toma o lugar de Hynkiel, enquanto este é preso ao ser confundido com um judeu. Como Hynkiel, o barbeiro faz a sua saudação. Diz ele: “Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades”.

Apesar de ser indicado a vários prêmios em Hollywood, “O Grande Ditador” foi proibido de ser exibido nos Estados Unidos. O próprio Charlie Chaplin, que era inglês, impedido de retornar aos Estados Unidos por ordem de J. Edgar Hoover, o chefe do FBI. Período conhecido por macarthismo, alusivo ao senador republicano Joseph McCarthy, passou a perseguir os considerados comunistas, entre eles Charlie Chaplin. Período nefasto, de grande vergonha na história americana. De fato, haveria de achar um culpado: seriam os judeus para Hitler, os comunistas para os conservadores. Odiar seria uma maneira de resolver problemas internos, de frustração e não reconhecimento num mundo em que a diversidade seria uma condição da existência democrática.

 

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