Alexandre Kawase vence o 2º Concurso de Monografia

Alexandre Kawase ladeado pelo jurista Kiyoshi Harada e pela advogada Felícia Harada (Jiro Mochizuki)

Não foi uma escolha fácil para os membros da Comissão Julgadora, mas por ter que apontar um vencedor, Marcelo Hideshima, Mário Iwamizu, Massami Uyeda, Roberto Nishio, o professor Sedi Hirano, Patricia Murakami e o escritor André Kondo acabaram por eleger o trabalho de Alexandre Kawase, representante da JCI Brasil-Japão, como vencedor do 2º Concurso de Monografia, numa disputa equilibrada com o segundo colocado, Leonardo Inomata, também da JCI Brasil-Japão. A cerimônia de divulgação e premiação aconteceu no último dia 28, no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, no Edifício do Bunkyo, no bairro da Liberdade, em Sãom Paulo, e contou com a presença da cônsul Reiko Nakamura, de representantes das entidades parceiras, jurados e 9 dos 11 participantes.
Instituído pelo jurista Kiyoshi Harada com o intuito de perpetuar aspectos da cultura japonesa – alguns mais conhecidos e outros nem tanto – nas novas gerações, a iniciativa, pioneira, contou com apoio do Bunkyo; da Associação Brasileira dos Ex-Bolsistas “Gaimusho Kenshusei”, Seinen Bunkyo e da JCI Brasil-Japão. Esta segunda edição, que recebeu 17 inscrições, teve como tema “Desafios da Manutenção da Cultura Japonesa no Brasil”.

Reiko Nakamura entrega medalha ao ministro Massami Uyeda (Jiro Mochizuki)

Coube ao presidente da Comissão Julgadora, o ministro aposentadodo Superior Tribunal de Justiça (STJ), Massami Uyeda, anunciar o vencedor, que recebeu um bonito troféu, além de R$ 10 mil em dinheiro. Todos os demais participantes receberam uma medalha.
Antes, Uyeda destacou que, apesar de ainda estar em sua segunda edição, o concurso “já está se tornando um momento importante na cultura da comunidade nipo-brasileira”. Membro da Comissão julgadora pelo segundo ano, o ministro afirmou que “a qualidade dos trabalhos apresentados pelos concorrentes nos surpreendeu agradavelmente”.

Comissão Julgadora, cônsul, Kawase, Márcia e Kiyoshi Harada (Jiro Mochizuki)

Cultura nipo-brasileira – Segundo ele, um dos aspectos que chamou a atenção dos avaliadores foi o fato de todos os participantes assinalaram que não há mais uma cultura japonesa. “Em 111 anos de imigração japonesa em terras brasileiras, nós estamos vivenciando a cultura nipo-brasileira, que não é nem japonesa nem brasileira. Então esse trabalho mostra isso, uma oportunidade de conhecermos o pensamento médio dos jovens nikkeis, isto é, os jovens que fazem parte desta comunidade nipo-brasileira, que não é japonesa, mas que honra as raízes japonesas. Todos nós membros da Comissão ficamos muito satifeitos em ler estes trabalhos”, explicou, acrescentando que “a Comissão deu pontos para os trabalhos sem saber quem eram os seus autores”.

Newkei – E anunciou o vencedor. Alexandre Kawase, que já havia ficado em segundo na primeira edição, cujo tema foi “Causas e Consequências da Imigração Japonesa no Brasil” em concurso vencido pelo diretor de Operação da Japão House São Paulo, Claudio Kurita. Kawase agradeceu a oportunidade de poder expressar suas ideias e “também estudarmos um poucos mais a história da imigração japonesa”. Criador da expressão “newkei” – termo usado para definir os não descendentes de japoneses simpatizantes da cultura japonesa – Kawase destacou que “o ganho foi o conhecimento que adquirimos” e deixou uma sugestão para que as entidades promotoras desenvolvam um painel ou fórum onde todos que entregaram seus trabalhos possam externar suas ideias.
Para a elaboração de seu trabalho, ele explicou que procurou saber o que outras comunidades – como a portuguesa, a italiana, a alemã, a judia e a espanhola – estão fazendo para a manutenção de suas culturas. “E a conclusão final, levando em consideração os dados que pude levantar, conversando com pessoas destas comunidades e analisando outras biografias, é que a comunidade nikkei, no fundo, é a que mais tem feito esforços em prol de sua cultura, do seu legado. Portanto, nós jovens, temos uma grande responsabilidade, uma grande missão que é levarmos esse legado adiante. Acho que iniciativas como essas são realmente muito importantes para que possamos preparar essa geração para realmente conduzir este legado”, afirmou Kawase, que em outubro coordenou a Convenção Nacional da JCI Brasil.

Jorge Yamashita com Lucas Vellardi (Jiro Mochizuki)

Esforço – Para Lucas Barbosa Vellardi, da Comissão de Jovens do Bunkyo, foi “um esforço intelectual bem grande, pois nunca tinha participado de um concurso de monografia”. Para ele, que não tem ascendência japonesa, no início foi difícil entender alguns conceitos. “Participo das atividades da comunidade japonesa desde 2015 e é através destas atividades que vou sendo inserido, entendendo pouco a pouco esse sentido de comunidade e de manter a cultura”, disse Vellardi, lembrando que, quando começou a frequentar a Comissão de Jovens do Bunkyo, também participava em Santos e pensava em fazer uma atividade em conjunto com outras comunidade, como a italiana quanto a espanhola. “Mas fiquei sabendo que nenhuma delas mantêm grupos de jovens, apesar de terem grupos culturais, E aí comecei a perceber como a comunidade japonesa valoriza isso ao manter esses grupos e quão importante eles são para a manutenção de sua cultura”.

Wada com Lucas Slobodticov (Jiro Mochizuki)

Pontualidade – Outro que participou pela primeira vez e também não tem nenhuma ascedência japonesa, foi o advogado Lucas Batista Slobodticov. Descendente de russos, ele representou a JCI Brasil-Japão. Conta que estudou no Colégio Oshiman e por isso, desde criança, sempre foi muito ligado à cultura japonesa. “Mas especificamente no final da graduação fui me envolvendo mais ativamente na comunidade e foi ai que conheci a Marcia Nakano (ex-presidente da JCI Brasil-Japão e hoje assessora da Presidência do Bunkyo) e também o Consulado do Japão. E uma coisa foi puxando outra”, explicou Slobodticov, acrescentando que “a gente tem costume de achar que cultura são apenas manifestações artísticas”.
“Procurei desenvolver um pouco melhor essa ideia e apontar que isso é um pensamento incompleto. A cultura, na verdade, é uma série complexa de aspectos envolvendo condutas e padrões comportamentais, que vão desde a pontualidade – que é tida como um padrão na comunidade japonesa e que para nós não é, infelizmente – e procurei traçar este panorama de análise comparativa de padrões nas duas culturas, verificando o que é positivo e o que pode ser implementada em ambas”.

Rodolfo Wada com Priscila Regina Sato (Jiro Mochizuki)

Cultura imaterial – Para Priscila Regina Sato, da Comissão de Jovens do Bunkyo, que também participou pela primeira vez, “entre fazer a pesquisa e a monografia, o mais valioso foi o processo porque durante o processo eu pude refletir muito, não só sobre a cultura japonesa mas como estou inserida na sociedade brasileira e como me sinto divivida”. Segundo ela, a pesquisa ajudou a descobrir que muitos amigos consomem a cultura japonesa como uma cultura material. E caso decida aprimorar seu trabalho, pretende mostrar “o valor da cultura imaterial, ou seja, os valores que estão embutidos, não só através do sushi e do sashimi ou do resultado de uma arte da ikebana, mas sim de realizar esse processo”.
Na opinião do professor emérito da Universidade de São Paulo e ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (2002-2005) e ex-pró-reitor de Cultura e Extensão (2005-2007) da USP, Sedi Hirano, “o número de candidatos cresceu e a qualidade dos trabalhos ficou mais densa”.
“O primeiro colocado teve todo mérito, mas o segundo também fez um belo trabalho”, disse Sedi Hirano, afirmando que o fato de não descendentes de japoneses participarem do concurso significa que a cultura japonesa não é algo exclusivo dos nikkeis. “A cultura japonesa está expandido muito, o que limita um pouco é a linguagem. Tenho a impressão que muita gente fala que a cultura japonesa é uma imitação, mas Lévi-Strauss, um dos maioress antropólogos, diz que não, que a cultura japonesa tem uma coisa muito especifica, muito particular que é japonesa”, diz Sedi, que considera positivo concursos como o idealizado pelo professor Kiyoshi Harada porque ressalta uma simbiose entre a cultura não japonesa com a cultura japonesa, “que chamam de nipo-brasileoira mas que na verdade é uma cultura multicultiural”.

Rodolfo Wada e Kiyoshi Harada (Jiro Mochizuki)

Livro – Na avaliação de Kiyoshi Harada, o concurso “está cada vez melhor”. “A cada nova edição os participantes trazem novos elementos, de maior qualidade e perfeição. A tendência é ir elevando o padrão desse concurso a cada ano que passa”, disse Harada, que lamentou apenas o tempo escasso dado aos participantes. “Na próxima oportunidade vamos disparar no primeiro semestre para poder concluir em meados do segundo semestre e fazer a premiação próximo ao final do ano”, antecipou o jurista, revelando que pretende lançar uma coletânea com as monografias das duas edições a ser publicado no ano que vem. “Independente disso, o trabalho vencedor será publicado no Bunkyo News e nos anais do Congresso Latino-Americano que vai acontecer em abril de 2020”, afirmou Harada.

 

Membros da Comissão Julgadora e Harada com participantes (Jiro Mochizuki)
(Jiro Mochizuki)
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