AGRICULTURA: 49ª edição do Prêmio Kiyoshi Yamamoto homenageia ‘verdadeiros heróis do país’

Homenageados com esposas e autoridades na cerimônia de abertura do 49º Prêmio Kiyoshi Yamamoto (Jiro Mochizuki)

Realizado no dia 8 de novembro, no Salão Nobre do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), no bairro da Liberdade, em São Paulo, a 49ª edição da Cerimônia de Outorga do Prêmio Kiyoshi Yamamoto – a primeira da era Reiwa – homenageou quatro personalidades de destaque da área agrícola. São eles: Elliot Watanabe Kitajima, Tamio Sekita, Masatoshi Otani e Walter Toshio Saito, atualmente morando no Japão. O evento contou com a presença do vice-cônsul do Departamento de Economia do Consulado Geral do Japão em São Paulo, Naoki Nakano; do presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão, Eduardo Yoshida; do vice-presidente do Bunkyo, Jorge Yamashita; do vice-presidente do Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), Akira Kawai e de Marta Yamamoto (representando a família de Kiyoshi Yamamoto).

Masatoshi Otani com Marta Yamamoto (Jiro Mochizuki)

Instituído em 1965 pela Associação Brasileira de Estudos Técnicos da Agricultura (Abeta), o Prêmio Kiyoshi Yamamoto é um dos prêmios mais tradicionais do setor agrícola do Brasil. Desde 1999, é promovido pelo Bunkyo, já tendo premiado mais de 150 pessoas e instituições por suas relevantes contribuições ao Brasil nas áreas de produção vegetal, produção animal, ensino, pesquisa, fomento, inovação e difusão de técnicas agropecuárias, bem como ações comunitárias e sociais.
O 1º Prêmio foi outorgado em 1965, ano 40 da era Showa, do imperador Hirohito e até 1988, ano 63 e último da era Showa, foram concedidos 22 prêmios e homenageadas 76 personalidades e duas cooperativas. Em 1988, com o início da era Heisei, do imperador Akihito, e até 2018 (ano Heisei 30), foram concedidos 26 prêmios e homenageadas 81 personalidades. Em 48 anos, foram homenageadas 157 personalidades e duas instiuições.

Kunio Nagai (Jiro Mochizuki)

Surpresa – Este ano, a Comissão Organizadora do Prêmio Kiyoshi Yamamoto – presidida pelo engenheiro agrônomo Kunio Nagai –, se deparou com uma “grata surpresa” ao receber o maior número de indicações nos últimos sete anos. Em parte, reflexo pelo bom momento que o setor atravessa e também pela tão ”decantada” redes sociais, que passaram a ser utilizadas com mais intesidade.
Explica-se. Hoje a divulgação do Prêmio não depende mais única e exclusivamente das correspondências enviadas a mais de 400 entidades. Algumas dessas cartas são divulgadas pelas redes sociais que, por sua vez, são replicadas, gerando uma verdaderia bola-de-neve, ou seja, é possível descobrir potenciais candidatos sem a necessidade de garimpá-los por meio de contatos corpo a corpo, como acontecia num passado não muito distante.

Elliot Watanabe Kitajima (Jiro Mochizuki)

Número 1 – Este ano, diferentemente dos anos anteriores, a maioria dos candidatos não eram oriundos do setor hortifrutigranjeiros, que concentra o maior número de premiados. Aliás, o primeiro homenageado da noite, conforme anunciou Kunio Nagai, foi Elliot Watanabe Kitajima, um dos pioneiros no uso do microscópio eletrônico, que se tornou uma arma eficiente para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à vírus.
Nagai lembrou que o homenageado “entrou e se formou em primeiro lugar na Esalq – Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ – “sem estudar”. “Sem estudar, que eu quero dizer, é que ele não anotava as aulas. Por ser muito inteligente, ele conseguia gravar tudo e assim conseguiu se formar em primeiro lugar. Esse é um dos motivos pelo qual ele foi selecionado para o uso deste microscópio eletrônico, devido a sua alta capacidade intelectual. E hoje, aos 83 anos de idade ainda continua firme não só na área de pesquisa como também se dedica à formação de novos pesquisadores”, disse Nagai, que destacou também que o avô de Elliot, Kenzo Kitajima, um militar e médico na colônia de Registro, foi enviado para o Brasil para cuidar da saúde dos imigrantes e o pai, farmacêutico, igualmente trabalhou em prol da comunidade japonesa de Registro.

Tamio Sekita com o vice-cônsul Nakano (Jiro Mochizuki)

De Tamio Sekita, Nagai reforçou que o homenageado foi um dos pioneiros a desenvolver a agricultura na região do Cerrado e hoje produz hortaliças e cereais, além de ser um dos maiores produtores de leite do Brasil.
Já sobre Masatoshi lembrou que ele atualmente é um dos grandes produtores de melão e melancia do Rio Grande do Norte, “não tanto pelo volume, mas pela alta qualidade e alta produtividade “. E o quarto e último homenageado da noite, Walter Toshio Saito, foi outra grande novidade desta edição, conferindo um caráter internacional ao Prêmio.

Walter Toshio Saito (Jiro Mochizuki)

No Japão desde 1990, isto é, praticamente desde que o fenômeno dekassegui teve início, Toshio Saito conseguiu a proeza de ser “coroado” o “rei da cebolinha” no Japão.
“Além disso, ele também introduziu a cultura da mandioca no país, o que para um agrônomo é algo praticamente impossível: introduzir uma cultura tropical num clima temperado. Mas, devido ao seu espírito empreendedor e baseado em pesquisas ele conseguiu essa façanha”, resumiu Nagai, que destacou ainda características em comum entre eles.
“A primeira é que todos os quatro enfrentaram grandes obstáculos, difíceis de serem superados, e não só os superaram como alcançaram êxito. E, além disso, todos eles se dedicaram também à sociedade”, explicou Kunio Nagai, afirmando que “essas quatro personalidades são verdadeiros heróis do nosso país”.

Jorge Yamashita (Jiro Mochizuki)

Representando o presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, o vice, Jorge Yamashita, destacou que os homenageados, “com seus espíritos empreendedores, identificaram as oportunidades e, sem medo de correr riscos, assumiram os desafios em transformar seus sonhos em realidade”. E concluiu enaltecendo os currículos dos homenageados com um ditado: ‘Você é o tamanho do seu sonho’.

Representando o cônsul geral, o vice-cônsul Naoki Nakano disse que os imigrantes japoneses contribuíram significativamente em muitas áreas da sociedade brasileira, “especialmente no campo agrícola, como pesquisas de pragas e o desenvolvimento de técnicas inovadoras para o aumento da produtividade, melhoria de gestão e cultivo, lançando os alicerces para o desevolvimento do Brasil como uma potência agrícola mundial”.

Nakano: “País de muita relevância para o Japão” (Jiro Mochizuki)

“No Brasil podemos observar muitas fazendas, empresas alimentícias e de máquinas agícolas nipo-brasileiras. Creio que não há outro lugar no mundo, além do Brasil, onde possamos sentir o Japão mesmo estando fora dele”, observou Nakano, acrescentando que, “hoje o Brasil é uma das principais potências agrícolas do mundo e, certamente, é um país de muita relevância para a segurança alimentar do Japão”.

 

 

(Aldo Shiguti)

Homenageados destacam importância do Prêmio

Natural de Cornélio Procópio (PR), Tamio Sekita dedicou o Prêmio aos pais, Katsuji, que faleceu aos 99 anos de idade, e dona Etsuko. “Esse Prêmio nada mais é do que um legado que ele deixou para nós. Da mesma forma que a saga da imigração japonesa não foi fácil, também não foi fácil entrar no Cerrado há 45 anos. Mas conseguimos com muita dedicação e com muito apoio, na época da Cooperativa Agrícola de Cotia e dos mineiros, que abriram as portas para nós. Nessa trajetória toda, viemos trabalhando na agricultura mas sem esquecer da sociedade na qual a gente vive. Fui presidente de creche e de orfanato e, já no final, do Sindicato dos Produtores Rurais de São Gotardo”, explicou Otani que, ao Jornal Nippak, disse que a família contribui também com as áreas religiosa, da saúde e do esporte, onde a filha e o genro desenvolvem um projeto para mais de 300 atletas.
Indagado pela reportagem que legado gostaria de deixar, Sekita respondeu que, “um legado de trabalho de contínua inovação, de produção de quliadade, mas, acima de tudo, além de trabalhar para produzir e ganhar dinheiro, transformar todo esse trabalho em algo voltado para a sociedade”. “Hoje, dentro dos nossos quatro grupos, trabalhamos diariamente com mais de 1200 trabalhadores, que acabam agregando mais de 5 mil pessoas. Temos uma responsabilidade muito grande na regiçao”, afirmou Sekita, acrescentando que a produção do grupo hoje é perto de 70 mil litros de leite/dia, 200 mil caixas de cenouras/mês, 100 mil caixas de beterraba/mês e 5 milhões de toneladas de alho/ano. “Acredito que estamos no meio do caminho, mas ainda tem muita coisa para ser realizada, tem muita coisa para ser inovada tecnicamente. Tem que ter sempre um produtor rural para complementar um estudioso”, finalizou Sekita, para quem as pesquisas são poucas valorizadas no Brasil.

Ego – O pesquisador Elliot Watanabe Kitajima agradece. “Esse Prêmio tem uma conotação especial porque é da comunidade nikkei. Minha mãe, em particular, tem uma ligação muito forte com essa sociedade e existe ainda a ligação com o prórpio Kiyoshi Yamamoto, porque ele foi um pioneiro para a gente. Mas me sinto plenamente feliz por ter sido reconhecido pois não tabalhamos para ser isso, mas é sempre agradavel e é uma massagem no ego ser reconhecido”, afirmou.
Masatoshi Otani, que fez seu discurso em japonês, revelou ao Jornal Nippak que ficou emocionado. “Nunca esperava ganhar esse Prêmio e, no começo, fiquei realmente muito assustado porque nunca tive esse pensamento. Minha preocupação sempre foi buscar minha sobrevivência”, disse Otani explicando que “nunca fiz nada sozinho”.
E o último homenageado da noite iniciou sua fala destacando a matéria publicada no Jornal Nippak – mas sob sua ótica: “santo de casa não faz milagre” e “em casa dse ferreiro, espeto de pau”. “Normalmente, por eu ser brasileiro e estar tão distante do Brasil, ser reconhecido desta forma não tem preço”, disse Saito, que lembrou sua trajetória no país do sol nascente.
“Muitas das conquistas que obtemos ao longo de nossas vidas ocorrem devido à credibilidade das pessoas que estão ao nosso lado”, contou, afirmando que foi ao Japão com o intuito de todos os dekasseguis, ou seja, ganhar dinheiro. No seu caso, seu objetivo era ajuntar dinheiro e abrir um escola no Brasil.
“Hoje faz dois anos que deixei a direção do nosso grupo, que hoje tem escola, parte da agricultura, parte de recrutamento e coisas menores, como resturantes, imobiliárias e exportação e importação. Atualmente trabalho em três setores distintos, educação, agricultura e na indústria”, disse Toshio Saito, que chegou ao Japão para trabalhar como dekassegui, fundou várias empresas e hoje é conhecido como o “rei da cebolinha”.
“Quando comecei ninguém acreditava. Um ‘gaijin’ fazendo agricultura no Japão não existe. Primeiro, porque, para você plantar no Japão você precisa de uma licença para ser agricultor. Não é como no Brasil onde você compra um pedaço de terra e já pode plantar. Lá você tem que ter as características e cumprir uma série de requisitos. E quando falei que seria o número um, então? Mas esse foi o desafio”, disse, acrescentando que uma das lições que sempre procura transmtir é “acreditar em você mesmo”.

Rei da cebolinha – Ao Nippak, disse que nessas três décadas enfrentou várias dificuldades. “Foi a bolha americana, foi o tsunami, foram tempestades de neves… Mas quando a gente consegue passar por essas dificuldades, se torna um trunfo, um prêmio. Ou seja, comos japoneses falam ‘arigatai’”, disse, explicando que, seu grande mérito foi “estar onde estou hoje”. “Há dois anos deixei de ser diretor da minha empresa e uma coisa que sempre falo, o presidente não é aquele que manda, mas o verdadeiro presidente é aquele que prepara seu sucessor”, disse, explicando que “hoje muitas empresas no Japão estão fechando por falta de bons sucessores”.
“É uma coisa que sempre falo, quando você é o diretor de uma empresa você tem que prerarar seu sucessor e tentar sair o quanto antes para que, se por acaso acontecer alguma coisa, você voltar e poder socorrer. Não po falta de capacidade da outras pessoas, mas você precisa estar preparado. Esse é um dos nosso propósitos. E com 50 anos, ceder o meu lugar para um jovem de 36 anos, uma coisa que nós montamos durante praticamente toda a nossa vida ter que entrgar realmente doi. Porém, não devemos pensar em nós, mas no futuro da empresa. Essa é a caracteristica de um grande lider”, conta Saito, que também mantém a Fundação TS, cujo objetivo é pagar universidade para os alunos brasileiros que estão no Japão,

Kansha – “Pagamos a bolsa de estudo integral e ele não tem vínculo nenhum com a gente nem precisa restituir no final do curso. Esse dinheiro é arrecadado em cada caixa de cebolinha que vendemos. O dinheiro é repassado para a fundação que paga a faculdade do aluno, que hoje gira em torno de 10 mil dólares por aluno ao ano”, disse Toshio Saito, que encerrou sua fala com “kansha” (agradecimento, em japonês).

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