【Cultura Japonesa Vol. 7】Os bastidores da vinda dos navios negros

Progresso Americano, 1872, de John Gast. Esta pintura é uma representação alegórica do Destino Manifesto.
Progresso Americano, 1872, de John Gast. Esta pintura é uma representação alegórica do Destino Manifesto.

Os Estados Unidos almejaram desbravar a rota do Ocea no Pacífico para resguardar seu s interesses no mercado chinês.

Texto de Masaomi Ise

Proposta de abertura da nação japonesa

 

John Middleton Clayton
John Middleton Clayton

Em 17 de setembro de 1849,Aaron Palmer, advogado americano de Nova York, submeteu ao secretário de Estado John Clayton a “Proposta Revisada de Abertura do Japão”, uma edição revisada da primeira proposta enviada 5 meses antes. Três anos depois, Perry chegou ao Japão com os seus navios negros, para pressionar o país à abertura ao mundo sob a ameaça de recorrer às armas, mas essa ação nasceu dessa proposta.

Palmer sugeria, como exigências a serem impostas ao governo japonês, a proteção humanitária aos náufragos, o abrigo aos baleeiros em situações de emergência, e também para abastecimento e manutenção. E prevendo a eventual recusa do Japão a essas exigências, atribuir ao enviado especial o poder de impor bloqueio à baía de Edo.

“Com a interrupção do fornecimento de bens à capital, eles não deixarão de concordar com as nossas exigências … O Japão é frágil em todos os sentidos. O povo é corajoso e combativo, mas incapaz de se defender contra o ataque de uma só fragata.” [1, pag.147]

Ao mesmo tempo em que apresentava exigências puramente humanitárias, como proteção aos náufragos e abrigo aos baleeiros em situações de emergência, ou para abastecimento e manutenção, o documento revelava também um endurecimento em nada humanitário como bloqueio à baia de Edo. Por que motivo?

O parágrafo acrescentado ao final do documento sugere esse motivo: “Fornecer ( o governo Japonê) uma base para o suprimento de carvão para os navios de vapor japonês que liga São Francisco – Xangai”.

 

A maior rede criminosa de fornecimento de drogas na América do século 19

 

Warren Delano RobbinsNa época, a Inglaterra ocupava posição central no comércio com a China. O comércio do ópio em particular totalizava um terço da receita anual da China, rendendo aos ingleses um lucro fabuloso. A China guerreou contra a Inglaterra em 1840 ~ 41 para acabar com a importação de ópio, mas foi derrotada nessa Guerra do Ópio e decaiu, transformada parcialmente em colônia inglesa.

À sombra dessa Inglaterra, comerciantes americanos estavam na verdade obtendo também enormes lucros com o comércio do ópio. Posteriormente, no intervalo entre a primeira chegada de Perry ao Japão para exigir a abertura do país ao mundo e a segunda chegada no ano posterior, o Comodoro costumava hospedar-se com frequência na residência de Daniel Spooner, vicecônsul americano em Cantão, e também sócio da Empresa Comercial Russel.

Sobre essa empresa, informa um comerciante de ópio que visitou a esquadra de Perry:

“Eles possuem uma mansão em Macau e também um quarto luxuoso em um navio ancorado nas proximidades da ilha Nei Lingding, que serve de armazém. Dizem que a venda realizada através desse ponto é de 2 a 3 milhões de dólares por ano.” [1, pg. 187]

A Empresa Russel é tida como “a maior organização crimino sa de droga da América no século 19”. Os lucros obtidos no contrabando de drogas dessa empresa eram levados aos Estados Unidos, e parte deles oferecida como contribuição às universidades de Yale, Princeton e Colômbia.

Warren Delano, que defendeu o contrabando de ópio como “justo, honroso e legítimo”, era ligado à empresa, e avô do 26º presidente Theodore Roosevelt que mediou a trégua da Guerra Russo-Japonesa. Seu primo Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente dos Estados Unidos, apoiaria Chang Kaishek e induziria o Japão à guerra contra o país.

As fortes ligações entre o establishment oriental americano, que movia a política americana, e a China, tiveram início no comércio do ópio.

 

São Francisco, ponto de partida para a China

 

Na época, a Inglaterra assegurava sua rota para a China dominando a colônia do Cabo na extremidade sul do continente africano, e também o estreito de Malaca e Singapura, que davam acesso ao Oceano Pacífico.

Se os Estados Unidos Se os Estados Unidos quisessem alcançar a China, outra alternativa não lhes restava senão cruzar o Atlântico e servir-se da rota dominada pelos ingleses. O trajeto era longo, e poderia ser impedido caso ocorresse algum atrito com a Inglaterra.

Eles então tiveram a ideia de ampliar seu território até a costa pacífica para poderem rumar dali diretamente para a China.

Como parte do plano dessa expansão territorial, aproveitaram o movimento de independência provocado por americanos no Texas, em 1835, para anexá-lo finalmente em 1845. Depois, vitorioso na guerra contra o México, tomou-lhe também Arizona, Califórnia Colorado e Novo México.

Uma vez expandido o seu território até a costa pacífica, tratou de construir uma ferrovia transcontinental desde a região oriental. Iniciada em 1862, ela foi aberta ao tráfego em 1869. Em 1849, um ano antes da sua “Proposta Revisada de Abertura do Japão”, Palmer declarava:

“São Francisco se tornará, sem dúvida, centro do comércio da costa pacífica. Quando esta cidade se conectar por ferrovia aos estados orientais, ela se tornará ponto de partida para a China (mercado).” [1, pg. 149]

 

A rota marítima entre Califórnia e a China

 

Millard Fillmore, 13º presidente dos Estados Unidos
Millard Fillmore, 13º presidente dos Estados Unidos

A ferrovia transcontinental tornou possível sair dos estados orientais e chegar a Califórnia em cerca de 5 dias. Desse ponto, cruzar o Pacífico e chegar à China levaria menos de 20 dias. A China poderia ser acessada em pouco menos de um mês.

A esquadra de Perry levara quase 4 meses para cruzar antes o Atlântico e o Índico e chegar a Hong-Kong. Compreende-se, assim, como a rota do Pacífico era comparativamente eficaz. A abertura dessa rota deixava os americanos em posição absolutamente superior aos ingleses.

O presidente Filmore estabelecia na época a seguinte diretriz:

“Rota marítima entre Califórnia e China – é o último elo restante. É necessário completar de vez os planos para a proposta desta rota aos nossos empresários.” [1, pg. 164]

A meio caminho da rota marítima entre Califórnia e China, o Japão se fazia necessário para o abastecimento de água e carvão.

 

A opinião pública dividida nos Estados Unidos a respeito da excursão da Marinha americana ao Japão

 

Matthew Perry, supremo comandante da frota americana das Índias Orientais, fora nomeado comandante da excursão ao Japão. Ele participara da guerra México-Americana como comandante da belonave americana a vapor Mississipi. Fora também ordenado antes disso supervisor responsável no desenvolvimento de navios de correio a vapor, e conhecia bem a tecnologia da máquina a vapor.

A opinião pública americana se dividiu em dois quando soube da excursão por vazamento da mídia americana. O influente jornal Express de Nova Iorque adotou a seguinte postura simpática à excursão:

“O Japão não tem o direito de ocultar suas riquezas entre muros, e nem manter seu povo fechado em meio à ignorância e superstição. … É nossa obrigação educar o Japão.” [1, pg. 166]

Era uma tese baseada na visão medieval racista do século 19, pela qual os Estados Unidos deviam colonizar as terras das raças coloridas e civilizá-las, porque se tratava de uma “missão clara atribuída por Deus” (Manifest Destiny).

O rival New York Daily Times contra argumentava replicando que os Estados Unidos deviam empregar meios pacíficos para tratar da abertura do Japão ao mundo.

“(O envio da esquadra) é uma declaração de guerra ao Japão. … Pode-se prever claramente que ações belicosas farão o povo japonês detestar os Estados Unidos.”

E defendia: “Neste momento em que os Estados Unidos e o mundo criticam o colonialismo inglês pela Guerra do Ópio, não devemos seguir essa mesma rotina.”

O noticiário do “Japão, país bárbaro” que abafou a tese contrária à expedição ao Japão

Nessa ocasião, porém, uma reportagem saiu publicada no New York Daily Times: – Murphy Wells, tripulante de navio negreiro que naufragara 6 anos antes na costa do Japão e fora resgatado, havia sido repatriado de Nagasaki e surgira na ilha de Santa Helena na costa ocidental da África.

Dizia ele: “Mal cheguei à praia, fui preso pelos nativos que me arrebataram os pertences e o bote, e me enfiaram em uma gaiola semelhante às usadas para exposição pública de animais.” “Forçaramme a pisar imagens, ameaçando que seríamos todos mortos se recusássemos.”

Provavelmente, muitos americanos foram levados a pensar que seria inútil tentar negociações pacíficas com um país tão selvagem. A tese de oposição à expedição ao Japão se apagou das páginas do New York Daily Times desde então, e a opinião pública começou a se unificar a favor do envio da esquadra de Perry.

Mas desperta interesse a emenda corretiva publicada pelo próprio jornal um ano após:

“O tratamento dado pelo Japão ao náufrago foi o oposto daquele relatado anteriormente. A bem da justiça ao Japão, o aprisionamento dos marujos (do navio baleeiro) foi uma medida necessária, devida à insolência e desregramento deles. … A proteção aos náufragos já está determinada pela legislação entre os japoneses.” [1, pg. 202]

Primeiro, divulgam a notícia de que “o Japão é um país selvagem” para destruir a oposição à expedição, e tão logo as negociações de Perry alcançaram sucesso, emedam para dizer que “o Japão é um país civilizado”. É de se supor que isso tenha indiretamente realçado o sucesso de Perry. É de se pensar que se tratou de uma manobra da opinião pública, corriqueira nesse país onde ela é influente.

 

“O Japão se tornará a Inglaterra do Oriente”

 

Perry, por outro lado, estudara bem o Japão. Estudara sobre a Conquista das Três Coreias empreendida pela Imperatriz Jingū, e sobre os xoguns Yoritomo e Ama (Masako Hōjō). Sabia que se tratava de um país onde a educação era mais abrangente que qual quer outro, e que camponeses, por mais pobres que fossem, sabiam ao menos ler.

Uma das pessoas que instruíram Perry acerca do Japão foi Aaron Palmer. Em sua primeira proposta, Palmer escrevera o seguinte sobre o país:

“– É um povo enérgico, cuja capacidade de absorção de novidades dir-se-ia mais europeia que propriamente asiática; – É um povo dotado de cavalheirismo, que preza a honra, e nisto difere de qualquer outro povo asiático; – Estabelecem uma linha de separação com a tendência à bajulação desavergonhada tão comum em países da Ásia. O código de conduta deles toma por base a honra e a lealdade másculas. – Não se deixaram subordinar à China e nunca foram invadidos ou colonizados por estrangeiros.”

Palmer chegou a afirmar até que “O Japão virá a ser a Inglaterra do Oriente.”

Com certeza, ele pensava desde o início que comércios como a venda do ópio à China, altamente lucrativos, não seria possível com o Japão. Por isso mesmo ele pretendia do Japão tão somente o fornecimento de “base de reabastecimento de carvão aos navios a vapor na rota entre São Francisco e Xangai” e nada mais.

 

A decisão do xogunato de Edo

 

Por outro lado, o xogunato de Tokugawa estava também obtendo informações referentes às atividades dos Estados Unidos por intermédio da Holanda. Em 1852, fora notificado de que “navios de guerra comandados por Perry chegariam ao castelo de Edo após a primavera do próximo ano”.

Em relatório do ano seguinte, a Holanda reportava que “segundo informações posteriores, a expedição ao Japão já havia partido”, e listava minuciosamente a tonelagem de cada navio, a quantidade de canhões e a tripulação e concluía: “São ao todo 236 canhões e 3125 tripulantes”.

Na época, o cônsul holandês residente nos Estados Unidos enviava o seguinte relatório ao governo de seu país:

“A marinha americana almeja proteger os direitos comerciais americanos que se estendem pela Ásia Oriental e garantir a segurança da costa pacífica americana. ” [1, pg. 182]

Informações dessa natureza chegavam também ao xogunato de Edo. Assim, é de se acreditar que o xogunato já estivesse ciente de que, embora o poderio militar da esquadra de Perry fosse irresistível, os americanos não pensavam em invadir o Japão, e que objetivavam tão somente “obter bases de reabastecimento de carvão aos seus navios a vapor”.

Pode-se dizer, assim, que foi extremamente plausível a decisão do xogunato, de aceitar em primeira instância a exigência de Perry para depois buscar em regime de urgência uma capacitação militar adaptada aos tempos modernos, a fim de defender por meios próprios a própria liberdade nos “mares em batalha” disputados pelas potências ocidentais.

Em 1867, quatorze anos após a chegada de Perry, a companhia Pacific Mail de navios a vapor inaugurava a rota São Francisco – Yokohama – Xangai – Hong-Kong.

O Japão, contudo, passava por um rápido desenvolvimento e se transformava aos poucos em novo rival dos americanos na disputa dos direitos comerciais na China. Cumpria-se dessa forma a previsão de Palmer, de que o Japão se tornaria a Inglaterra do Oriente. As causas remotas da grande guerra do Pacífico se escondiam aqui.


Referência: (1) Nihon Kaikoku (A abertura do Japão) – Sōki Watanabe, Sōshisha, 2008


 

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