【Cultura Japonesa Vol. 7】O que é cerimônia do chá?

Texto de Madoka (Sôen) Hayashi

“Chadô” ou “Cha-no-Yu” é uma cultura e se chama, em inglês,“Tea Ceremony”, e em português, “Cerimônia do chá” ou“Caminho do chá”.
“Não sei direito, mas tem que girar o chawan nas mãos, isso incomoda.E sentar de pernas dobradas sobre o tatami faz a pernadoer, não é mesmo?”
Muitas pessoas têm esta impressão sobre a cerimônia do chá.
“Chá é para ser tomado em companhia de gente agradável, conversando…Em vez disso, ao que parece, há um cerimonial incômodoa ser cumprido. É preciso dizer que está esplêndido, as e se não estiver? Tem que dizer, mesmo assim?”
Ao que parece, essa é a impressão geral que as pessoas têm a respeito da cerimônia do chá nos dias de hoje.
O golfe, o basquete, o vôlei, o beisebol, o tênis, enfim, o esporte possui regras diversas. O mesmo acontece com os poemas de estilo Haiku, Senryū (haiku satírico) e Tanka. Mesmo na pintura, seja pintura japonesa, pintura a óleo e aquarela, existem regras relativas a pigmentos e tinturas.
Por ser apenas um ato de beber, e não um esporte ou uma arte como as outras, talvez seja difícil compreender o porquê da necessidade de regras na cerimônia do chá.
O chadô é uma arte. Os japoneses podem ser os únicos que elevaram o simples ato de beber ao nível da arte, levando nisso 500 anos.
Em outros países, como a China e Turquia (café), existem culturas parecidas, mas nada que esteja ao nível da perfeição, seja artística, filosófica ou estética da cerimônia do chá japonesa. A cerimônia do chá é uma arte intermediada pelo ato de tomar o chá e pelos movimentos corporais.
Ela passou por transições diversas ao longo do tempo por contribuições ditadas pelo senso artístico dos mestres do chá. Trata-se de uma cultura tradicional que abriga em seu âmago uma longa história de 500 anos. As regras, aparentemente complicadas, são necessárias para moldar o chadô, assim como existem regras para todas as expressões culturais existentes.
As regras de cerimônia do chá incluindo atos ou ações são chamadas de Temae, e parecem ser complexas.
Agora vamos explicar sobre a cerimônia de chá dividindo em vários aspetos.

O que é chadô?

Não é nada complicado, em absoluto. Os movimentos possuem cada um deles, um significado. Os praticantes do buyō (dança japonesa) perceberão de imediato a existência de semelhança entre essas duas artes nesse aspecto, ao se recordarem de que no buyō, cada pequeno gesto das mãos tem significados diversos. Os movimentos são elaborados de forma a não chamarem atenção, serem contidos e simples. O andar sobre o tatami com os pés enfiados em tabi (meias japonesas), sem levantar os calcanhares denominado “suriashi”, comuns tanto em buyō como em nōh, embelezam as passadas quando se veste o quimono tradicional japonês.
Os movimentos básicos do chadô com o lenço de seda conhecido por “fukusa sabaki” é ensinado em três etapas durante as instruções do “warigeiko”.
Em termos mais complexos, a cerimônia do chá envolve elementos filosóficos, artísticos, sociais, disciplinares e cerimoniais.
Tenshin Okakura, diretor do Departamento Oriental do Museu de Artes de Boston, chega até a afirmar que o chadô é a “religião da estética”. Tetsuzō Tanikawa, filósofo e esteticista, afirma que chadô é uma arte integrada intermediada por movimentos corporais, que o anfitrião e os convidados encenam em um mesmo palco. Há uma profunda filosofia em tudo isso. Não se trata apenas de saciar a sede do corpo, e sim de saciar a sede espiritual.

A planta do chá e a história do chadô

Dizem que a semente do chá é originária da planície Yunkoi Yungui no Himalaia, Província de Yunnan, na China. Isso há mais de mil anos a. C. Espalhou-se de lá ao Japão, Ásia, Índia, Europa, América e Brasil (1812). A planta possui duas espécies, a saber, a chinesa e a de Assam. A espécie chinesa é empregada no chá verde, enquanto a de Assam, em chá preto.
O chá é classificado, conforme o processo de fabricação e grau de oxidação nos seguintes tipos: chá não oxidado (chá verde), semi- oxidado (chá oolong), e oxidado (chá preto). O matchá empregado em chadô é produzido a partir do tencha, chá verde de alta qualidade moída em moedeiras de pedra para ser reduzida a pó muito fino. Ele é batido com o chasen (batedeira de bambu) e produzir espuma.
No Japão, registros datados do século 8, da época do Imperador Shōmu, dão conta da realização da “cerimônia do chá” como parte do cerimonial religioso. Depreende-se que nessa época, portanto, o chá já havia sido levado ao país. Depois disso, após um período de desuso, um monge denominado Eisai, no século 12, recomendava ao xogum Minamoto-no-Sanetomo a ingestão do chá para curar ressacas. Ele documentou sobre os benefícios do chá no seu livro “Kissa Yōjō Ki” (Relato sobre o Tratamento da Saúde com o Chá), até hoje conservada, e a ofereceu ao xogum, e assim, o uso do chá começou a se espalhar entre a classe dos samurais.
Mas o chadô começou a tomar forma no século 15, segundo dizem na época do xogum Yoshimasa Ashikaga, o oitavo do xogunato Ashikaga, construtor do famoso Ginkakuji (Pavilhão Prateado).
Esse foi o período cultural Higashiyama, quando um grupo de artistas conselheiros conhecidos por Dōbōshū rodeavam o xogum. Eles traziam em seus nomes a designação Ami. São os artistas como Nōami, Sōami e Zeami, entre outros.
Depois, já no século 16, época de Nobunaga Oda e Hideyoshi Toyotomi, surge Sen no Rikyū, o maior mestre de todo o Japão, que toma para si a tarefa de ensinar e propagar a cerimônia do chá. Rikyū deixou realizações preciosíssimas, de sumarização e complementação dos trabalhos anteriores. Após ele, seus descendentes e discípulos continuaram até hoje o chadô.

A integridade do chadô como cultura tradicional japonesa

Chadô é uma arte intermediada pelo ato simples de tomar o chá, mas como cultura tradicional, cuja espiritualidade é muito profunda e com muita diversidade como ética, filosofia, moralidade.
Um exemplo é o lugar em que realiza a cerimônia, que se chama Chashitsu, uma sala de chá construída conforme o estilo arquitetônico conhecido por Sukiya. E o jardim defronte ao Chashitsu, que se chama Roji, também tem espiritualidade especial. O estilo de Sukiya, ou jeito de construir Roji, tem significado muito importante na história de arquitetura.
Para a ocasião, se vestem roupas tradicionais. Não devem ser absolutamente chamativas. Preferem-se roupas discretas, tanto na cor como no formato (nó do obi, faixa que segura o quimono).
O “shōgo chaji”, o mais formal entre as cerimônias de chadô, leva quatro horas para terminar, e é executada segundo a sequência sumitemae – cerimônia do carvão, kaiseki – refeição, koicha – chá forte e usucha – chá fraco. Durante a kaiseki, costuma-se servir saquê, mas não se trata de um banquete. Pode-se dizer que é uma refeição comedida.
Neste momento há uma sequência de normas e regras. Não se fala muito, e procura-se sentir o chá através da pele e dos cinco sentidos. Trata-se de um momento de entrega ao silêncio. O que existe no recinto: – seja o jiku (caligrafia ou pintura japonesa) exposta no toko, o chawan (tigela), o mizusashi (recipiente de água fresca), o furo (fogareiro portátil para aquecer água), o kama (pote ou chaleira), o chabana (arranjo floral), e tudo o mais, são artigos selecionados especialmente pelo anfitrião em consideração à ocasião. O anfitrião seleciona objetos de arte de alto valor, peças que possuem valor afetivo muito grande etc. Em conformidade com o tema da reunião de chá.

O Chadô no Brasil Histórico e particularidades

Fogareiro (furo) Toyama (Fonte Sôen Hayashi)
Fogareiro (furo) Toyama (Fonte Sôen Hayashi)

Em 1954, no Brasil, por ocasião da celebração dos 400 anos de fundação da cidade de São Paulo, a colônia japonesa juntou esforços para construir, no Parque Ibirapuera, o Pavilhão Japonês. Em comemoração ao evento, vieram para o Brasil Sen Sōkō, na época jovem mestre herdeiro da Escola Urasenke (mais tarde XV Grão-Mestre Sen Sôshitsu), em companhia de Naya Yoshiharu, seu irmão mais jovem, que participaram da inauguração do Pavilhão.
O chadô no Brasil se iniciou nessa oportunidade. No ano seguinte, fundou-se também a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, e se formou um grupo de 7 professoras, entre os quais, para começar a Sra. Isoe (Sôkô), esposa do primeiro presidente da sociedade, Kiyoshi Yamamoto, e a sra. Yoshie (Sôhô) Takeda. Iniciava-se a divulgação da cerimônia de chá.
Muitas pessoas vieram estudar o chadô, motivadas quer pela atração ou pela saudade do Japão, quer pela curiosidade despertada pela cerimônia. A partir de 1979, a Universidade de São Paulo iniciou preleções acerca do Chadô, provocando um aumento de estudantes brasileiros dessa arte. Em 2014, foi realizada a convenção do 60º aniversário de Urasenke no Brasil e desde então começou a aumentar o número de chajin brasileiros.
Mesmo distantes do Japão, há no Brasil colecionadores de utensílios do chá como o senhor Carlos Cirylo Sōju, mestre brasileiro de chadô, uma pessoa rica em sensibilidade pela arte e que tem realizado várias reuniões de chá. Tive a oportunidade de participar da “cerimônia do chá do entardecer”, por ele organizada. Ele escolheu a hora mística do cair da tarde, quando o sol poente é aos poucos substituído por trevas da noite. Eu me espantei pelo seu senso artístico, de escolher exatamente essa hora. A cerimônia foi realizada no hotel em que ele se hospedava, e se tornou para mim uma inesquecível lembrança.
O senhor Erisson Thompson de Lima Júnior Sōson, professor de Ikebana, trouxe de Belém 40 peças de cuia feita de cabaça para a Cerimônia do Chá em comemoração ao 60º Aniversário, com a ideia de utilizá-lo como tigela de chá na Sala Amazonas. Foi uma bela cerimônia brasileira.
Temos em Londrina o senhor Klécio de Oliveira Santos, que possui diversos utensílios de chadô adquiridos através da Internet.
Ele prepara cinzas para furo bem limpas juntando cinza em pizzaria e filtrá-las com água. Em 2016, quando se realizou a cerimônia no Jardim Japonês de Maringá, ele nos trouxe até tabakobon (bandeja ou caixa com utensílios para fumo) e dora (gongo).
O senhor Roberto Augusto Neves Sōzen é muito hábil, e nos produz peças como a tampa para o mizusashi. Eu havia recebido de certa pessoa um balde para gelo de prata para vinho, e me ocorreu transformá-lo em mizusashi. Pedi-lhe então que me fizesse uma tampa para ele, e recebi uma maravilhosa. Ela é grande e vistosa. Temos também o senhor Leonardo Boiko, que está atualmente estudando em Dusseldorf. Ele consegue ler em japonês, e é muito esforçado. É de se esperar que surjam no futuro bons chajin brasileiros como eles.

Para os principiantes

O anfitrião Roberto e ilustre convidado, sucessor na ocasião e atual 16º Iemoto de Urasenke, Genmoku
O anfitrião Roberto e ilustre convidado, sucessor na ocasião e atual 16º Iemoto de Urasenke, Genmoku

Ao ler estas coisas, será que deu vontade de praticar, de exercitar o chadô?
O chashitsu, o recinto da cerimônia, é um espaço de outras dimensões. Ali não se fala de rumores das pessoas, de dinheiro (finanças), de relacionamento entre homem e mulher ou de política. Ouve-se o ruído da fervura da água no kama, o canto dos pássaros, o som da água fervente recolhida por hishaku (concha de bambu); observa-se o carvão sendo transformado em cinzas pelo fogo, a luz solar filtrada pelas ramagens, o padrão das sombras formadas no shōji (janela corrediça com papel). Enfim, presta-se atenção à voz da natureza e se apura os sentidos, isso é a cerimônia do chá, o cha-no-yu.
O chadô tem muito a ver com o Zen. O termo “chazen ichimi” (chá e zen são afins) expressa esse relacionamento. Como o Zen, o chadô é uma prática. Não se aprende por intermédio de raciocínio mental, mas se absorve pelo corpo. Trata-se de uma revelação através de discernimento intuitivo, de uma comunicação de mente para mente por tácito entendimento.
E por fim, vamos explicar o que significa “Wa, kei, sei, jaku”, termo que exprime os fundamentos do chadô. “Wa” significa paz, a base da sociedade humana que permite aos homens viverem em harmonia uns com outros. “Kei” significa respeito, ao próximo e autocontenção. “Sei” quer dizer pureza, não apenas a visível, mas também a invisível, da alma.

Jardim japonês e salão de chá no Festival do Japão (Fonte: Sôen Hayashi)
Jardim japonês e salão de chá no Festival do Japão (Fonte: Sôen Hayashi)

“Jaku” é a tranquilidade imperturbável. Esse termo é também conhecido por “quatro princípios”. O “wabi” (a beleza da simplicidade) e o “sabi” (a beleza da serenidade que vem com o passar do tempo) no chadô exprimem, como o “yūgen” (misterioso e profundo sentido do belo) e “iki” (elegância), o senso estético da cultura tradicional japonesa.

 

 

 

Informação
Centro de Chadô Urasenke do Brasil
Endereço Rua São Joaquim 381, 4º andar / Sala 44 – Liberdade
CEP 01508-001 – São Paulo/SP
Telefone 11-3271-9159 FAX: 11-3208-5485
E-mail berthahoshi@gmail.com (português)
ura.s.hayashi@gmail.com (japonês)
Site www.chadourasenke.org.br


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