【Cultura Japonesa Vol. 6】Assim lutou o povo de Okinawa

Leão esculpido em pedra de Tomimori
Leão esculpido em pedra de Tomimori

Pouco antes da derrota final, o comando da marinha em Okinawa enviava um telegrama: “ – Assim lutou o povo de Okinawa. Conceda-se a ele doravante especial deferência”. Muitas pessoas ficaram profundamente impressionados com o teor do telegrama e trabalharam por Okinawa.

Edição de 18 de Abril de 2010
Texto de Masaomi Ise

 

Conceda-se a ele doravante especial deferência.”

 

Na fase final da Batalha de Okinawa, o Comando da Força Naval sediada em Okinawa, à beira da extinção, enviava ao Supremo Comando da Marinha Japonesa um telegrama nos termos seguintes: “Assim lutou o povo de Okinawa. Conceda-se a ele doravante especial deferência”.

Okinawa fora palco da única batalha terrestre em todo o território japonês. Mesmo às vésperas da derrocada final, o Comando, após reportar a luta corajosa e sofrida do povo de Okinawa, solicitava “doravante especial deferência” em mensagem telegráfica carregada de calor humano. Esse telegrama deu consolo ao povo de Okinawa e sensibilizou após a guerra muitos políticos impulsionando o processo de reincorporação de Okinawa ao Japão. Falemos um pouco do seu autor.

 

O telefonema do destino

 

Minoru Ohta (Wikimedia commons)
Minoru Ohta (Wikimedia
commons)

O autor do telegrama foi o general Minoru Ohta, comandante da marinha japonesa em Okinawa. Um telefonema decidiu o destino do general Ohta. Escreve Katsuko, quinta filha do general: (1, p. 67)

1945, logo após a retirada do pinheiro,hora do jantar. O telefonema ao papai , que estava à mesa bem-humorado, cercado por seus 7 filhos, se transformou em um acontecimento inesquecível para nós, por toda a vida. A tensão se vez visível no rosto da mamãe, a primeira a atender. Até nós, crianças, pudemos sentir, na fala do pai que atendia a ligação, o clima de tensão.”

Ele estava sendo repentinamente nomeado para assumir Minoru Ohta Okinawa, quando a invasão americana à ilha estava prestes a acontecer. Havia um motivo para isso – o antecessor era experiente em navegação, mas nada entendia de operações terrestres. A situação se tornava dia a dia crítica, mas os preparativos não avançavam. Nessas condições, a escolha recaiu sobre o general Ohta, tido como o maior especialista em batalhas terrestres dentro da Marinha.

Ele participara do conflito de Xangai lutando valentemente como comandante dos fuzileiros navais, e era reconhecido pelo seu trabalho de resgate de japoneses residentes que estavam em perigo eminente de serem exterminados. No Japão inteiro, os japoneses celebraram a vitória nesse conflito formando procissões de lanternas, mas o general Ohta, abatido, entregava-se à bebida. Dizia:

“– É, deixei que muitos morressem. Para mim, em cada uma daquelas lanternas, parece que vejo a alma dos fuzileiros navais meus subordinados, mortos em combate!”, e continuava bebendo noite adentro.

 

Minha intenção é ser enterrado em Okinawa”

 

Em 20 de janeiro de 1945, dia da sua nomeação, o general Ohta chegava em um hidroplano ao posto de comando para assumir o posto. Restavam apenas dois meses para o início da invasão americana em fins de março.

Imediatamente, ele percorreu a ilha de carro para inspecionar como andavam as posições de defesa. Vinha precedido pela fama de especialista em combate da marinha em terra, e por cima, exímio lutador de kendô. Todos o imaginavam um general feroz, resoluto e corajoso. Mas a primeira impressão os traiu. Era baixote, o rosto redondo e bondoso, dir-se-ia mais um camponês velhinho e bonachão.

Mesmo assim, os oficiais e soldados da frente de batalha ganham coragem pela simples presença do general comandante. Esses detalhes sutis não escapavam a Ohta, que realizava a inspeção.

Tokuei Horikawa, soldado maquinista de 1ª classe (natural de Okinawa, posteriormente presidente da Toyopet de Okinawa) que servia de motorista durante a inspeção, relata que o general Ohta debatia estratégia no carro com oficiais do Estado Maior. ( 1, p. 343)

Ouvindo distraidamente a conversa, compreendi que ele previa o ataque americano e que estava profundamente preocupado com o futuro de Okinawa. Eu me assustei, porque não imaginava tudo isso.
Ele, porém, prosseguia com suas instruções sobre tática e defesa, despreocupadamente, rindo até de vez em quando. Fiquei profundamente impressionado. Aí estava o verdadeiro veterano de mil batalhas!
Creio que foi na viagem de regresso do porto de Baten (península de Chinen). Ele me disse, falando às minhas costas: ‘– Horikawa, você é um felizardo!’ Não entendi do que ele falava, mas ele completou: ‘– Pois você será enterrado em sua própria terra!’ Entendi então que ele viera disposto a morrer, a ser enterrado em Okinawa. Sensibilizado, não encontrei palavras para responder.”

 

Desculpe o incômodo”

 

O centro de comando das tropas de Okinawa se achava então na Vila de Oroku ao sul de Naha (atual cidade de Tomigusuku). Situava-se no cume de um morro, de onde se avistava o aeroporto de Oroku (atual Aeroporto de Naha), à beira do litoral oeste.

Um abrigo subterrâneo antiaéreo, de 470 metros de extensão, fora escavado nesse local, e servia de sede do comando. A terra escavada fora amontoada próximo às duas entradas existentes, ao norte e ao sul. Havia uma propriedade rural pertencente à família Kamechi perto da entrada sul.

Vendo que a terra estava sendo amontoada sobre a sua plantação de cana, o senhor Kamechi foi reclamar com os soldados que trabalhavam. Um sub-oficial surgiu correndo, e berrou irritado: “ – O que você está reclamando, numa emergência como esta? “ – Ele estava nervoso, pois deveria terminar esse abrigo sede do comando antes da chegada das tropas americanas.

Nisso surgiu o general Ohta, que desatento aos soldados e oficiais que se punham em posição de sentido e lhe prestavam continência, dirigiu-se diretamente ao senhor Kamechi com brandura:

“– Sinto muito pelo incômodo que lhe causo. Entretanto, trata-se de uma obra de emergência. Peço que compreenda bem, e colabore conosco. Por sinal, será que poderia colher alguma cana para nós?”

O senhor Kamechi, subitamente tenso quando soube que falava com o comandante, respondeu: “– Por favor, sirva-se à vontade!” e o caso se resolveu.

O general Ohta se preocupou também com a evacuação dos moradores para o norte da ilha. A evacuação de 100 mil habitantes – idosos, mulheres e crianças em idade escolar para o exterior da ilha havia sido decidida em reunião de gabinete em julho do ano prévio, e 80 mil pessoas já haviam sido evacuadas até março do ano.

A evacuação ao norte da ilha estava sendo conduzida ativamente pelo governador Akira Shimada. Ela estava sendo realizada com muita dificuldade, em virtude da escassez de meios de transporte. Mas o batalhão de construções da Marinha, sediada na Vila de Oroku, disponibilizou todos os caminhões que possuía para ajudar a evacuação, e por isso a vila conseguiu terminar a evacuação antes das outras.

 

A Esquadra Suicida não deve pensar apenas em procurar a morte”

 

Lancha torpedeira suicida (Shin-yo) (Wikimedia commons)
Lancha torpedeira suicida (Shin-yo) (Wikimedia
commons)

O bombardeio das forças americanas teve início em 23 de março. Mil e centenas de aviões efetuaram o ataque, metralhando e bombardeando por vezes seguidas. E a partir do dia 24 seguinte, 8 encouraçados e 27 destroieres cobriram o sul da ilha com o bombardeio de obuses de seus canhões.

O general Ohta ordenou a orpedeiros e lanchas torpedeiras suicidas (Shin-yo-tai) sob seu comando que fossem ao ataque.

Do 27º Esquadrão de torpedeiros, 10 torpedeiros se lançaram ao ataque na noite do dia 27, disparando 16 torpedos e afun dando 2 cruzadores e danificando 1 contratorpedeiros. O general expediu telegrama de congratulação pelos resultados alcançados.

Por outro lado, 42º Esquadrão de lanchas torpedeiras suicidas saíram também para o ataque, mas não conseguiram contato com o inimigo. O comandante do esquadrão tenente-coronel Toyohiro se impacientava, quando recebeu a notícia de que navios inimigos foram avistados. E na noite do dia 30, por decisão própria, enviou para o ataque 12 lanchas da 3a Esquadra.

Contudo, essas lanchas não conseguiram outra vez avistar o inimigo. Além disso, se atrasaram em regressar pela manhã à base. Não houve tempo para se recolherem ao abrigo, e foram deixadas escondidas sob o arvoredo do litoral, onde sofreram ataques de caças inimigos. Seus torpedos explodiram, e todas as 12 lanchas foram destruídas. O tenente-coronel Toyohiro reportou a sua falha por telegrama ao general Ohta. (1, p. 375).

O telegrama de resposta veio em seguida. Eu estava certo de que iria dessa vez levar uma severa reprimenda, mas a mensagem era outra. Dizia: ‘Não se apressar em morrer. Em tudo, decidir com máxima cautela”. Mesmo em circunstâncias como aquelas, a vida estava sendo valorizada.

 

Até a tarde, pudemos avançar apenas um pé. E tivemos perdas pesadas a cada polegada”

 

O exército americano iniciou o desembarque em 1 de abril. Nesse dia, não houve reação alguma do exército japonês, parecia até engodo de primeiro de abril. Mas à medida que avançavam para o sul da ilha, os americanos enfrentaram forte resistência do exército japonês, que havia escavado trincheiras subterrâneas na espessa camada de recifes de coral. A Marinha japonesa deslocava 4 batalhões da elite dos fuzileiros navais para lutar ao lado da infantaria do exército.

Cedo ou tarde, seriam derrotados, isso era visível aos olhos de todos. Mas a estratégia traçada pelo coronel Hiromichi Yahara, do Estado Maior do exército japonês, surtia efeito: não seriam gloriosamente aniquilados, reteriam o exército americano que fosse por um dia a mais, para desgastá-lo ao máximo. Houve até dia em que o comando do exército americano fez constar em seu relatório: “Até a tarde, pudemos avançar apenas um pé. E tivemos perdas pesadas a cada polegada”.

Cerca de 1900 aviões da marinha e do exército japonês realizavam ataques suicidas contra a frota americana, afundando 34 belonaves e danificando outras 368, entre porta-aviões e navios de guerra.

O Exército e a Marinha japonesa contaram ao todo aproximadamente 65 mil mortos em batalha (exceto as baixas civis). Em contraposição, o total das baixas americanas, inclusive mortos e feridos em combate terrestre, vítimas de neurose de guerra, e vítimas dos ataques suicidas contra navios de guerra ascendia a 75 mil, o maior número de baixas de toda a batalha do Pacífico.

Esta experiência fez os americanos temerem 100 mil baixas caso levassem avante a invasão a Hondo (as quatro ilhas principais do Japão), e foi um dos motivos que os levou a reconsiderar a dura exigência de rendição incondicional. O caminho para a paz se abria.

 

Embora meu corpo se apodreça nas plagas de Okinawa

 

Dois meses após o desembarque no litoral oeste da área central da ilha, o exército americano avançava gradualmente rumo ao sul lutando ferozmente contra tropas japonesas até atingir em 4 de junho a região de Oroku, onde se achava o posto de comando da Marinha japonesa. O exército japonês recuava até Mabuni no extremo sul da ilha, onde preparava sua última resistência. Após dar cobertura à retirada das tropas do exército, o general Ohta redigiu um telegrama ao exército: “– Defenderei a área de Oroku com a tropa sobrevivente, e como militar, darei fim à minha existência”.

Inconformado em ser precedido na aniquilação pelas tropas da marinha, o comandante Ushijima do exército respondia em telegrama: “Desejo profundamente que se junte a nós na hora final“, mas o general Ohta permaneceu irremovível.

Em 6 de junho, o exército americano dominou completamente o aeroporto de Oroku e o litoral dos arredores. A frente se restringia a um pequeno círculo de cerca de 4 km de diâmetro, com centro no abrigo sede do comando da marinha. Nesse dia à tarde, o general Ohta compunha o verso:

Que o meu corpo apodreça nas plagas de Okinawa, A ilha da Pátria será defendida e preservada à posteridade”

Conceda-se ao povo de Okinawa doravante especial deferência”

O extenso telegrama mencionado no início deste capítulo, que se inicia por “Assim lutou o povo de Okinawa”, foi redigido logo depois. O general Ushijma reportava a forma como o povo dessa província se comportou durante a batalha feroz com profunda compaixão. Transcrevemos aqui em linguagem coloquial uma parte desse relatório:

Após o início do ataque inimigo à ilha principal de Okinawa, O Exército e a Marinha, inteiramente empenhados na batalha de defesa, pouco puderam fazer pela população da província. Não obstante, tanto quanto eu sei, a população jovem e adulta atendeu integralmente à convocação para a defesa. Restaram idosos, mulheres e crianças, relegados à própria sorte, sem a quem recorrer. Ainda por cima, tiveram suas casas e pertences todos destruídos, queimados por sucessivos bombardeios de obuses inimigos, e deixados apenas com a roupa do corpo. Refugiam-se em abrigos antiaéreos apertados em locais onde não perturbariam as operações militares que mal e mal os protege de ataques, vivem em extrema pobreza expostos a chuvas e ventos.
Sem mencionar ainda as mulheres jovens, que se adiantam para servir ao exército, não apenas como enfermeiras ou cozinheiras, mas também, para transportar granadas, e até se oferecendo para participar em pelotões de voluntários de ataques de arma branca suicidas. Acreditando que se o inimigo vier, os idosos e crianças serão de qualquer forma chacinados e as mulheres levadas para serem violentadas, muitos decidem se despedir em vida. Até existem pais que chegam a abandonar filhas pequenas à entrada dos quartéis. As enfermeiras, então, prosseguem cuidando dos feridos desamparados que o exército deixou para trás em seu deslocamento. Elas se comportam com extrema seriedade, e se percebe que não se trata de sentimentalismo ocasional.
E quando recebem durante a noite repentinas ordens de deslocamento a pontos distantes motivadas sempre que o exército revisa sua tática, aqueles que não dispõem de meios de transporte se põem em marcha sem única reclamação no meio da chuva.”

E o general conclui:

A ilha se transforma em terra calcinada, sem uma árvore ou planta. Dizem que o alimento que sobrou só atende o mês de junho. Assim lutou o povo de Okinawa. Conceda-se a ele, doravante, especial deferência.”

 

O suicídio do general Ohta

 

As tropas da marinha e do exército resistiram até o fim. O exército americano relata em registro de guerra:

Os fuzileiros navais encontraram forte resistência das tropas do exército e marinha japonesa, e pouco avançaram durante os dias 7 e 8 de junho, após dois dias de combate. Os tanques não puderam ser utilizados. A camada de lodo era muito espessa, minas haviam sido enterradas em larga área, e as colinas dos arredores estavam cheias de ninhos de metralhadora.”

A resistência prosseguia ainda no dia 11 de junho. O general Ohta ordenava a retirada do abrigo subterrâneo aos seus subordinados, tantos quantos possível, para organizarem a guerra de guerrilha atrás das linhas inimigas. Tratava-se de um recurso para evitar que fossem envolvidos no suicídio final. Em adição, notificava o Exército dessas ordens, para que esses oficiais e soldados não fossem tomados como desertores.

Na tarde do dia 12, o inimigo ocupava o morro acima da sede do comando. A hora final se aproximava. Uma instrução foi dada: Os aptos deveriam preservar suas vidas até o fim e lutar.

Uma hora da madrugada do dia 13, uma ordem foi transmitida em altos brados: “Fujam todos, o abrigo será explodido!” Tiros de revólver foram ouvidos – o general Ohta e seis subordinados se suicidavam. A forte explosão de bomba ecoou pelo abrigo subterrâneo, seguido de vendaval. As luzes se apagaram. Sobreveio a escuridão.

Sede de comando do abrigo subterrâneo naval japonês onde o general Ohta cometeu suicídio (Wikimedia commons)
Sede de comando do abrigo subterrâneo naval japonês onde o general Ohta cometeu suicídio (Wikimedia
commons)

Referência: 1. “ 沖縄県民斯ク戦ヘリ―大田実海軍中将一家の昭和史” (Assim Lutou o Povo da Província

de Okinawa – História de Showa da Família do General da Marinha Minhoru Ohta) (Trad. literal) – Yozo Tamura – Kodansha Bunko, 1997


Este texto é um capítulo extraído do primeiro volume da Cultura Japonesa.

Pode acessar a página de explicação sobre a Cultura Japonesa clicando na imagem da capa abaixo.

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