Para políticos nikkeis, prisão de Lula mostra ‘amadurecimento’ do país

Lula chega à sede da Superintendência da Polícia Federal, em Curitba, onde cumpre pena(Marcello Casal – Agencia Brasil)

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que cumpre pena na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde o último dia 7, está mostrando aos brasileiros que, “independentemente de quem seja o agente identificado como criminoso”, a justiça esta sendo feita. Pelo menos essa é a opinião do deputado federal Junji Abe (MDB-SP). Para ele, “de modo geral, penso que a população vem assimilando a necessidade de combater a impunidade”. “Isto é positivo para a evolução social, política e democrática do país”, disse Junji, afirmando concordar “plenamente” com o trabalho desenvolvido pela Operação Lava Jato, “defendendo que todos os culpados sejam punidos com o devido rigor, porque nenhum cidadão está acima da lei”.
“No caso específico do ex-presidente Lula, creio que a situação tenha ficado um pouco confusa em razão da subjetividade de interpretação do que consta da Constituição no que tange à presunção de inocência”, conta Abe, explicando que “a divisão entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), com duas leituras diferentes, é prova que a prisão após julgamento em 2ª instância é um tema que já deveria ter sido avaliado pelo Congresso Nacional”.
De acordo com o parlamentar, “se este for o entendimento, é preciso constar da Carta Magna, sem margem para outra interpretação”. “Faltou estabelecer com clareza. Sem essa transparência, o assunto corre o risco de ser objeto de interpretações variadas, dependendo da composição do STF”, analisa.
Para outro político nikkei ouvido pelo Jornal Nippak, o também deputado federal Walter Ihoshi (PSD-SP), a prisão de Lula mostra que as instituições no país “estão funcionando” e que o processo de democratização “está consolidado”. “A prisão de um ex-presidente da República demonstra a força da Operação Lava Jato e a determinação do juiz Sergio Moro. “Infelizmente chegamos a um ponto em que um ex-presidente da República é preso, mas por outro lado demonstra que podemos ter certeza que no Brasil a lei é igual para todos, seja ele rico ou pobre, seja a pessoa poderosa ou não. Prova que a Lava Jato está funcionando e que as instiuições estão muito consolidadas. E a democracia também”, opinina Ihoshi, acrescentando que “fica muito claro para a sociedade que as regras valem para todos”.

Atentos – “Se existiam dúvidas com relação a isso no país, que só os pobres ou aqueles que praticam pequenos delitos iam presos, estamos vendo que também os grandes empresários, pessoas conhecidas da vida pública nacional estão sendo presas e a justiça está sendo feita”, destacou. Para Ihoshi, “o recado que fica para a sociedade é que a corrupção está sendo atacada e que a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o Judiciário estão atentos ao que acontece”. “O mais importante agora é que gestores públicos e parlamentares alterem as sua condutas porque as coisas estão acontecendo para valer”.
Tanto Junji Abe como Walter Ihoshi acham possível que ocorram novas prisões. Para Ihoshi, a Lava Jato ainda investiga politicos, empresários e também partidos políticos. “Sabemos que vários outos partidos também estavam envolvidos nesse processo, especialmente aqueles que fizeram coalizão com os ex-presidentes Lula e Dilma [Rousseff], como o PMDB, o PP e até mesmo membros do PSDB. É um processo que ainda não acabou e deve se estender por mais um tempo”, disse Ihoshi.
Para Junji Abe, “devem ocorrer tantas prisões quantas forem necessárias para punir os responsáveis por malfeitos”.

Eleições – Abe e Ihoshi também concordam que, com a prisão de Lula, as próximas eleições devem ser ainda mais difíceis do que já se previa. “Será um pleito muito difícil, haja visto o descrédito geral em relação à classe política, agravado pela sucessão de falk news (notícias falsas) fartamente disseminadas na Internet. De um lado é importante que as pessoas tenham maior conhecimento sobre seus virtuais candidatos. De outro, muitos podem sofrer acusações indevidas e não terem condições operacionais de desfazer as inverdades”, explica Junji Abe, para quem as eleições “dependerão muito do bom senso do eleitor para separar o joio do trigo, não levando para a cabine de votação, por mais legítimos que sejam, os sentimentos de insatisfação, indiferença, protesto ou revolta que possa redundar em voto emocional. Em outras palavras, não acolher tudo como verdade. Nem para cultuar nem para depreciar alguem”, analisa Junji Abe que, na dúvida, sugere que o eleitor “consulte seu candidato e veja seus argumentos e/ou defesa”. “Ou seja, formar opinião somente após apurar os dois lados de uma notícia”.
Para Walter Ihoshi, o sentimento hoje dos eleitores é votar em candidatos que não tenham problema algum com corrupção. “Acho que essa é a grande demanda da sociedade que busca nos seus representantes, sejam eles municipais, estaduais ou federais, pessoas com condutas ilibadas, ou seja, ficha limpa, sem envolvimento algum com corrupção e, ao mesmo tempo, candidatos com capacidade adminstrativa e capacidade politica”, disse Ihoshi, afirmando que “o jogo está apenas começando”.

Indigestão – Segundo Ihoshi, as próximas eleições deverão ser um “marco” para o país. “A Lava Jato e essas operações estão dando um recado para nós que vivemos na política e somos homens públicos. O papel dos eleitores será muito importante nas próximas eleições. Chegou o momento da sociedade brasileira despertar sua cidadania no que tange escolher bons candidatos, escolher bem bem seus representantes”, destaca Ihoshi, que não acredita em uma possível candidatura de Lula à Presidência da República.
“Com esse episódio, o PT perdeu muita força no cenário nacional, ainda que tenha alguma representatividade do eleitorado no Norte e Nordeste do país. Mas mesmo que encontre uma brecha legal, acho pouco provável que o Lula se candidate. Vamos ter uma disputa muito fragmentada”, diz Ihoshi, que acredita no surgimento de “novas figuras”. “O ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, é um deles”, arrisca Ihoshi.
Para Junji Abe, o eleitor terá de buscar subsídios para fazer sua escolha “e não confiar naquilo que está sendo oferecido nas redes sociais”. “Ali pode haver algo mais indigesto que lhe fará mal mais tarde”, explica Abe.

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