OPINIÃO: A visita da princesa Mako, o último grande marco dos isseis, integração e ponte de ligação

No registro de nomes póstumos da região de Lins, das 39 pessoas que morreram em 1920, 30 eram menores abaixo de 5 anos.
No registro de nomes póstumos da região de Lins, das 39 pessoas que morreram em 1920, 30 eram menores abaixo de 5 anos.

Ontem, dia 18, a princesa Mako desembarcou no Rio. No dia 19, sua alteza se dirigirá a Paraná, dia 21, São Paulo, e no fim de semana estará no Festival do Japão na Cerimônia Oficial de Comemoração dos 110 anos da Imigração Japonesa ao Brasil.
Para a maioria dos isseis (japoneses imigrantes que nasceram no Japão) que agora têm idade média aproximada de 80 anos, este provavelmente será o último marco comemorativo da imigração que festejarão.
Ainda há isseis envolvidos na organização da cerimônia, como Yoshiharu Kikuchi, presidente do Comitê Executivo da Cerimônia, e Yasuo Yamada, presidente da Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil (Kenren). Mas será difícil imaginá-los daqui a 10 anos.
A princesa Mako será a primeira integrante da família imperial japonesa a visitar o interior paulista depois de 60 anos. Esta oportunidade é única. Se alguém da família imperial vier fazer outra visita oficial na próxima comemoração dos 120 anos, até lá terão restado poucos isseis vivos.
Além disso, os locais para onde ela se dirigirá: Marília, Promissão, Colônia Hirano e Araçatuba são grandes assentamentos que concentraram milhares de japoneses na época da Segunda Guerra Mundial.
Por exemplo, se há 3 anos, na viagem organizada anualmente pelo Kenren aos locais em que vieram os imigrantes japoneses, visitamos o templo Nishi Honganji de Lins, e fiquei surpreso quando me apresentaram o Registro de Nomes Póstumos com cerca de 3 mil nomes da região de Lins que também inclui Promissão e a Colônia Hirano.
Motohashi Mikihisa, chefe da caravana, comentou: “fiquei assustado ao ver o Registro de Nomes Póstumos nas páginas referentes a 1921 e 22. Morreram muitos bebês, de zero, 3 meses e 3 anos. Em algumas páginas, metade da folha é composta por crianças assim. É inimaginável agora. Duvidei do que vi. Isso me fez conscientizar das dificuldades que um imigrante enfrentou ao vir a uma terra diferente. O Kenren também realiza anualmente uma missa no Memorial em Homenagem aos Imigrantes Desconhecidos que se localiza no Parque do Ibirapuera. A família imperial e os políticos também passam por lá sempre para prestarem suas homenagens. Quero manter esse sentimento de respeito que temos pelos nossos antepassados”.
Quem propôs a construção do Memorial em Homenagem aos Imigrantes Desconhecidos foi Tatsuo Fujikawa, o primeiro secretário da Federação Japonesa das Associações de Famílias Emigrantes ao Exterior. Tatsuo ajudou a enviar japoneses ao Brasil durante 16 anos através dessa Federação. Foi visitar as famílias que ajudou a enviar para saber como estavam e ficou chocado ao ver o grande número de imigrantes falecidos desconhecidos. Sentiu-se na obrigação de fazer um culto por esses pioneiros, pediu demissão e se tornou monge aos 57 anos.
Em 20 de setembro de 1986, Fujikawa faleceu na margem do Rio Amazonas de onde pode se ver o cemitério dos imigrantes japoneses no lado oposto. O registro feito pela polícia local diz: “morte por afogamento durante banho no rio”. O cineasta Jun Okamura, em seu documentário “Amazon no Dokkyo (O Canto do Sutra na Amazônia)” de 2004, obteve um comentário fabuloso: “Pensando agora, sinto que a ação foi premeditada”.
Segundo o documentário, em suas últimas anotações, Fujikawa escreveu: “Ouço a voz dos falecidos desconhecidos a me chamar”, “chego a ter uma premonição espiritual de que morrerei acidentalmente”. Assim, fica a possibilidade de que ele tenha entrado no rio consciente do perigo e passou para o lado dos falecidos desconhecidos. O memorial precitado é aquele que homenageia essas almas.
Encontramos situação parecida na Colônia de Tomé-Açu, no Pará, onde a princesa Mako tem uma visita agendada. Na cerimônia fúnebre dos pioneiros falecidos realizada no templo Nishi Honganji de Tomé-Açu, em novembro do ano passado, o Registro de Nomes Póstumos com 913 nomes daqueles que faleceram desde o início do assentamento na região, ao longo de 88 anos, foi entregue aos cuidados do templo.
Em 2009, quando fui fazer a matéria dos 80 anos da imigração na Amazônia, Shuji Kakuta, morador da região, apresentou-me aquilo que ele chamou de “tesouro magnífico”. Era um pergaminho antigo com o título caindo aos pedaços: “Livro de registro dos falecidos da Colônia de Acará”. Acará é o nome antigo de Tomé-Açu.
Ao abrir o rolo, o primeiro nome da lista era Shimaichi Ishii que faleceu de amebíase com apenas 21 anos no dia 19 de fevereiro de 1929. Era um dos membros da missão da Cia de Colonização da América Latina (Nantaku) que foi preparar o terreno para receber os imigrantes.
Dos seis falecidos daquele ano, além de Ishii e de outro adulto, os quatro restantes eram crianças pequenas trazidas pelos pais na primeira leva de imigrantes. O número vai aumentando ano a ano: cinco em 1930, 14 em 1931, 25 em 1932 e mais da metade tinha menos de 4 anos.
“Este pergaminho guarda o sangue, suor e lágrimas de nossos antepassados”. A imagem de Kakuta pressionando as pálpebras quando proferia essas palavras ficou gravada em minha mente.
Alvares Machado, cidade da Alta Sorocabana, não faz parte da visita da princesa, mas tive a mesma impressão quando fui ver as pedras mortuárias do cemitério japonês de lá. Fico estarrecido ao ver o número de registro de bebês que morreram antes de completar 1 ano de idade.
O melhor culto que poderá ser dado a essas almas pioneiras é ter alguém da família imperial indo oferecer flores pessoalmente nesses locais.
Além disso, o interior de São Paulo também foi o violento campo de batalha entre os vitoristas (kachigumi) e derrotistas (makegumi). Por isso mesmo gostaria que esta comemoração dos 110 anos tivesse o espírito da integração e da passagem para a próxima geração.
Em Promissão, os nikkeis que haviam se dividido em duas associações desde o conflito vitorista-derrotista está aproveitando a oportunidade para realizar a união em uma única organização. Já se passaram 73 anos desde o fim da guerra. Na época, a maioria dos envolvidos no conflito foi para a prisão.
Alguém poderia ter a iniciativa de pedir a Tokuichi Hidaka, de Marília, que dizem ser o único ex-preso vivo da ilha Anchieta (para onde foram enviados os presos vitoristas logo após a guerra); Akira Yamauchi (morador de Tupã), filho de outro ex-preso, Fusatoshi Yamauchi; e Shunichiro, Shunji e Shunzo, os três filhos de Kanji Aoki; a participarem da cerimônia em Marília.

No começo do livro de registro dos falecidos da Colônia de Tomé-Açu (Colônia de Acará), dos seis falecidos de 1929, quatro tinham menos de 3 anos.
No começo do livro de registro dos falecidos da Colônia de Tomé-Açu (Colônia de Acará), dos seis falecidos de 1929, quatro tinham menos de 3 anos.

Gostaria que a oportunidade fosse a chance de integrar os divididos e superar o conflito vitorista-derrotista. E gostaria que os jovens do interior que ainda mantém uma forte identidade nikkei gravasse em seus olhos o amor que os isseis sentem pela família imperial.
E se fosse possível, também gostaria que a princesa Mako tivesse oportunidade de ter contato com as senhoras e os jovens que trabalham no fundo dos estandes das associações de província.
São as figuras centrais que sustentam aquela que dizem ser a maior festividade cultural japonesa fora do Japão. Gostaria que a princesa provasse as iguarias regionais preparadas pelas associações de província.
A matéria em português sobre a vinda da princesa Mako publicada no jornal NIPPAK eletrônico (http://bit.ly/2JnIWP8) ganhou 3 mil curtidas em pouco tempo. É um número que indica a grande expectativa que a vinda da princesa Mako está gerando nos nikkeis.
E ao mesmo tempo demonstra que os leitores de jornais japoneses também estão passando por uma mudança de geração. Uma nova comunidade que lê as notícias em português está emergindo. Gostaria muito que as pessoas recomendassem a assinatura do jornal NIPPAK aos filhos e netos. (Texto original em japonês, Masayuki Fukasawa)

Comentários
Loading...