ÂNGELA HIRATA: ‘Nosso grande desafio é compreender a cultura japonesa porque a gente acha que compreende’

A presidente da Japan House São Paulo com o cônsul Yasushi Noguchi: “A JHSP não tem mais volta” (Aldo Shiguti)
A presidente da Japan House São Paulo com o cônsul Yasushi Noguchi: “A JHSP não tem mais volta” (Aldo Shiguti)

Iniciativa global do governo japonês, a Japan House São Paulo comemorou um ano de atividades com números surpreendentes. Inaugurada em 6 de maio do ano passado na Avenida Paulista com a premissa de apresentar o Japão contemporâneo aos brasileiros, a JHSP recebeu investimento de cerca de US$ 30 milhões do governo japonês. Em 365 dias, a Casa do Japão recebeu mais de 790 mil visitantes (até esta terça-feira, 22) e apresentou oito exposições. O espaço promoveu ainda 45 workshops e palestras que foram acompanhadas por mais de 3600 pessoas. Números que superam – e muito – a previsão inicial do governo japonês, que esperavam cerca de 150 mil visitantes no primeiro ano e que, certamente, contribuirão para um estudo sobre novos investimentos – a ideia era que a casa se tornasse autossustentável a partir de março de 2019.
Mas engana-se quem imagina que isso é motivo para deixar a executiva Ângela Hirata acomodada. “Agora a responsabilidade é maior”, diz a presidente que, assim como a Japan House, também ela precisou vencer algumas desconfianças da própria comunidade nikkei. E nisso, o seu jeito ajudou. Sincera, direta e extremamente simpática com todos que a procuram Ângela, ao contrário do que muitos pensam, não foi escolhida por acaso pelo governo japonês para comandar a primeira e até hoje única das três Japan House em pleno funcionamento no mundo – as outras duas, em Los Angeles e Londres, devem ser inauguradas até o final deste ano.
Conheça um pouco mais sobre a nikkei que comanda a Japan House São Paulo nesta entrevista concedida ao Jornal Nippak:

Jornal Nippak: Gostaria que a sra. fizesse um balanço do primeiro de funcionamento da JHSP levando em consideração alguns números apresentados por vocês nesse período. Em seu primeiro ano de atividade, o espaço recebeu cerca de 790 mil visitantes, realizou 8 exposições e organizou 45 workshops com a participação de 3600 pessoas. O que representa esses números?
Ângela Hirata: Diria que nós trabalhamos para fazer com que a JHSP fosse reconhecida como uma divulgação do Japão contemporâneo, um Japão de paz e que vem atuando nesse sentido, além de um Japão próspero. Enfim, um Japão até então desconhecido pela grande maioria dos brasileiros. Nossa missão foi a de apresentar o que é o Japão contemporâneo porque nós conhecemos um Japão que nossos antepassados trouxeram para cá e a gente sempre pensou e agiu em função desse Japão que nós conhecíamosmos e que já está bem enraizado. Acredito que isto também foi bastante positivo para nós, daí essa resposta de a Japan House receber tantas pessoas. Então, essa introdução do Japão foi muito importante.

J.N.: Quer dizer então que você ficou surpresa…
A.H.: Sim, devo admitir que não esperava essa resposta. Para eu participar do processo de licitação no Japão, pensei: ‘É importante o que o Japão está querendo fazer, ou seja, mostrar o Japão contemporâneo’. Mas vou ser sincera, achava que era difícil eu conseguir ser contemplada. Mas fui. E depois comecei a refletir o que viria a ser esse Japão contemporâneo. Sabia que o Japão era bom em termos de tecnologia de ponta, sabia que o Japão era muito perfeccionista, sabia que no Japão existia uma organização muito diferente da nossa mas não tão perfeita que eu não enxergava. Um Japão que, em menos de 20 anos depois da guerra que devastou o país, lançou o shinkansen (trem bala) e vem até hoje sem nenhum acidente. Um Japão que começa mostrar o outro lado. Vivi uma fase da minha adolescência ouvindo as pessoas falarem que o Japão era um país imitador, que copiava e fazia miniaturas. Mas na verdade, não somente copiou como copiou para melhorar. É por isso que o Japão conquistou seu espaço sem fazer alardes, mostrando o que a Japão House está mostrando hoje. Então, essa resposta acabou surpreendendo até mesmo o próprio governo japonês que esperava, no primeiro ano, receber cerca de 150 mil visitantes. Acho que isso representa o respeito que a população brasileira tem em relação ao Japão.

J.N.: Esssa descoberta de um novo Japão foi aos poucos?
A.H.: Primeiro, pensei o que seria esse Japão contemporâneo. Sabia que tinha robótica, tecnologia de ponta… Aí você começa a ver os carros, você vê as grandes marcas, mas não consegue ver quem está por detrás disso. Quem criou isso? Qual é o país que todos os anos lança de dois a três prêmios nobel? Para mim é uma surpresa como brasileira e filha de japoneses, poder ter essa satisfação de divulgar o que os nossos antepassados podem oferecer para o mundo. É um Japão que não espera nigúem estender a mão e pegar no colo. Digo isso por causa dos acidentes naturais que eles sofrem. E não é pouca coisa. Mas eles superam tudo com garra e determinação. E de onde vem essa força? E fui buscar a resposta porque para mim todo dia aprendo algo. Existe uma coisa que se chama religião, que é o xintoísmo. O xintoísmo cultua a natureza. Eles cultuam mata, árvore, animal… Hoje muito se fala de preservação da natureza, mas os japoneses já estavam fazendo isso. Daí o motivo para eles não renderem diante de acidentes naturais. O japonês é um povo de fazer acontecer no silêncio. E mostra para o mundo de forma perfeita. Às vezes brinco que os japoneses não sabem fazer marketing. Não, eles sabem fazer o perfeito, mas não são de falar. Veja o caso do professor Shunji Yamanaka [que estava com a exposição Prototyping in Tokyo na JHSP]. Tenho que abaixar a cabeça para ele. Ele faz desde uma pequena peça para relógio até peça para aeroespaço. Se você perguntar algo algo sobre Medicina ele tem resposta, sobre arte e robótica é a mesma coisa. Tanto que um dia perguntei se ele era desse planeta. Ele falou: “Doushite? Por que você pergunta?”. O senhor sabe tudo. Ele respondeu: “Eu não sei tudo, cada dia aprendo algo”. Vê a humildade da pessoa? E foi assim com cada um que recebi nessa casa. Esse é o Japão que o mundo está reconhecendo. Outra coisa interessante é o fato de o povo brasileiro fazer fila para ver nossas exposições. Eles não vem por vir, mas para entender e conhecer. A exposição do Oscar Oiwa é outro evento muito importante porque ele é nissei. Fiquei um pouco com receio. Avisei o pessoal do Japão que queria trazer o Oscar Oiwa por causa dos 110 anos da imigração. Ele nasceu no Brasil, foi para o Japão se aprimorar e entender a arte japonesa e está acontecendo no mundo.

J.N.: Mas a sra. tem total autonomia para decidir…
A.H.: Sim, mas sempre com a anuência do produtor Hara Kenya. Por exemplo, ele dá sugestões de que produtos podem ser vendidos nas lojas porque não adiante trazer produtos que já estão sendo vendidos no Brasil, temos que trazer algo diferenciado. Nunca tivemos lojas de furoshiki, por exemplo. Na loja Shin (no térreo) os visitantes vão encontrar produtos que não são encontrados no Brasil, mesmo a cerâmica. Compramos sempre algo que está alinhado no estilo que ele sugere. Outra coisa que acho importante é apresentarmos exposições que o público pode tocar, mexer e ver. E tem sempre alguém explicando, tem sempre uma história atrás.

J.N.: Por que a JHSP atrai tanto os brasileiros?
A.H.: Eles querem entender mais o que é o Japão e os japoneses. Aqueles que já conheciam o Japão querem conhecer mais e aqueles que não tinham muito interesse passaram a querer não só a entender como também a visitar o Japão. Isso me dá muita alegria mas também muita responsabilidade.

J.N.: Qual a frequência do público de não descendentes?
A.H.: Diria que entre 85% e 90%. E recebemos visitantes de outros países também como o Paraguai e a Colômbia, além da Europa. Tenho muito orgulho o fato de a Japan House ser a primeira e por enquanto única no mundo e estar sendo conhecida no mundo. O New York Times fez uma matéria dentro da coluna ‘36 Hours’ dando uma série de sugestões para turistas que vem para São Paulo e uma delas é passar pela Japan House São Paulo. Saiu também uma matéria no Discovery Channel do Canadá, e nos noticiários dos Estados e na França.

J.N.: Esses 15% ou 20% de nikkeis procuram exatamente o que?
A.H.: O que eu enxergo de Japão moderno. E ficam surpresos e ogulhosos ao mesmo tempo. É mais ou menos como me sinto. Tanto que seu sei que chegaram a falar porque me escolheram se eu sempre trabalhei em empresas e não estou tão ligada à comunidade nikkei, porque na minha época ou se trabalhva na Cooperativa Agrícola de Cotia ou se entrava na Nambei Guinko (Banco América do Sul). E porque a Japan House tem que ser na Av. Paulista? Na época o então cônsul [Takahiro] Nakamae disse que eu precisa fazer um approach e que iria me ajudar. Minha maneira sempre foi muito sincera e aberta e felizmente consegui que todos entendessem e hoje todos dizem que a JHSP é um orgulho para a comunidade nikkei.

Desde que foi inaugurada, JHSP já recebeu cerca de 790 mil pessoas (divulgação)
Desde que foi inaugurada, JHSP já recebeu cerca de 790 mil pessoas (divulgação)

J.N.: Como se a Japan House fosse também deles…
A.H.: Você disse certo. Como se fosse deles. Sempre digo que a Japan House não é a minha casa mas a nossa casa. Outra coisa que acho importante foi saber que contribuição poderíamos dar para os 110 anos da imigração japonesa no Brasil. Reuni os funcionários e diretores para criar um produto para os 110 anos da imigração e espalhar para o Brasil. Dai surgiu a parceria com a YKZ, que lançou produtos com a logomarca dos 110 anos. Também pedi para o Bradesco, através da Fundação Kunito Miyasaka, abrir uma conta especial para a comunidade. Será para criar uma espécie de fundo mas não só para a comunidade nikkei e não para os 110 anos, mas para ser usado em uma eventual emergência. Se cada um depositar um ou dois reais imagine quanto isso não dará? Mas com a condição de que seja feita prestação de contas.

J.N.: A sra disse que foi a primeira a ser inaugurada e a única em funcionamento. As outras duas, em Londres e Los Angeles, cuja previsão era para serem inauguradas na mesma época da JHSP ainda não estão em funcionamento?
A.H.: A única completamente pronta é esta. Por isso digo que é uma satisfação. A única coisa que temos que tomar cuidado é para não nos acomodarmos pelo fato de em um ano termos recebido quase cinco vezes mais visitantes que o governo japonês esperava. Ou seja, em um ano conquistamos o que era esperado em cinco. Agora a responsabilidade é maior. Para isso foi e está sendo muito importante o apoio do Consulado Geral do Japão em São Paulo, que está nos orientando.

J.N.: E acredito que o governo japonês deve acompanhar esses números com bastante interesse…
A.H.: Estamos sempre em contato com o cônsul, que está sempre comunicando com o Gaimusho. Tive oportunidade de conhecer o ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, Taro Kono, e sempre tem alguém do governo vindo aqui. O Taro Kono quis saber minha opinião sobre a Japan House. Disse a ele que, para o Brasil, a JHSP não tem mais volta, tem que seguir para frente porque se fechar será uma vergonha para o Japão e eu não terei onde ficar no Brasil (risos).

J.N.: Mas qual foi a avalição do ministro?
A.H.: Que estamos indo muito bem.

J.N.: O governo japonês investiu cerca de US$ 30 milhões na Japan House São Paulo e a previsão inicial era a de que a partir de março de 2019 a JHSP se tornasse autossustentável. Mudou alguma coisa?
A.H.: Esse planejamento deve ser revisado. Tudo indica que o governo japonês continuará investindo, mas não nesse valor porque esse valor incluiu a construção. Mas independente disso já estou começcando a trabalhar para dar sustentabilidade para a Japan House. Isso significa não somente dinheiro em si. Por exemplo, tem uma empresa brasileira que se associa a uma empresa brasileira e cria uma capacitação maior industrial ou de business ou mesmo melhoria de qualidade com menor custo. Coisa relevante que existe em uma empresa japonesa e possa ser importado e também matéria-prima ou alguma coisa que possibilite trazer melhoria de economia porque isso tem muito a ver com atrair investimentos.

J.N.: Essa revisão do governo japonês foi em função justamente da resposta positiva desse primeiro ano de funcionamento?
A.H.: Com certeza. Se você começar ter uma resposta de melhoria de economia para uma boa sustentabilidade da Japan House, logicamente os investimentos vão diminuir gradativamente até zerar totalmente, o que espero que isso aconteça. Estamos caminhando para esse lado porque a Japan House não é somente arte tem também a possibilidade de linkar com a agricultura. A agricultura japonesa é extremamente avançada. Conheci uma empresa que criou um plantio sem terra, mais avançado que hidroponia e que já está sendo exportado para o Oriente Médio, onde não tem terra fértil.

J.N.: E quando deve ser anunciado esse novo investimento?
A.H.: Acredito eles devam divulgar entre o final deste ano e início do próximo, quando começar um novo ciclo.

J.N.: Hoje a sra diria que a Japan House poderia ser autosustentável em quanto tempo?
A.H.: Acredito mais cinco ou seis anos. Totalmente ainda não, vai depender muito do cenário econômico, da melhoria das empresas e da agricultura. Isso também traz dinheiro para o país. Acredito que isso será levado em consideração.

J.N.: Na sua opinião, qual foi o grande desafio da Japan House até agora e qual será o desafio daqui para frente?
A.H.: O desafio é compreender a cultura japonesa porque você acha que compreende. Olha que tive experiência de viajar mais de 100 países, cada qual com sua cultura e costumes. Aqui mesmo a gente vê isso. O paulista é diferente do carioca. Protecionismo você até consegue negociar, mas diferença cultural não, tem que respeitar. Essa é uma das barreiras que eu tenho. Tenho que ouvir, entender e respeitar para que eles respeitem também. Esse é o grande desafio. No Japão, quando você vai de uma província para outra também encontra diferenças culturais. O que se pensa em Osaka é diferente do pensamento de Tóquio, que será diferente do que se pensa em Hiroshima e assim por diante. Você tem que saber ouvir muito.

J.N.: Qual o teu sonho que você ainda espera realizar aqui na Japan House?
A.H.: Trazer um espetáculo musical com o Takarazuka, uma companhia teatral formada somente por mulheres. Quem sabe quando a Japan House completar cinco anos possamos fazer num lugar bem bacana como o Teatro Municipal. São mulheres, uma mais linda que a outra, e que fazem papel de homens. Mas só para trazer a companhia, entre equipe de produção e artistas, é preciso um boing. São quase 100 pessoas. É muito caro, mas é meu sonho.

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