JORGE NAGAO: Quase memória

Jô Soares publicou o seu livro de memórias. Juca Kfouri, também. Fernando Chagas, meu amigo historiador, posta em seu Face deliciosas histórias de sua juventude. E agora chegou o filme Quase Memória, baseado no livro homônimo de Carlos Heitor Cony. Memórias, portanto, está na moda, então, antes que me esqueça de lembrar, vou contar alguma coisa que vivi, lá atrás.
Há uns 60 anos, Seu Mário e Dona Helena, como meus pais, Tadatoshi/Setsuko, eram conhecidos, tinham um bar-mercadinho na zona last de Sampa. Como em toda vila, tinha um bicheiro que recolhia as apostas feitas em nosso missê. Não sei como e nem quando, o bicheiro decidiu que eu e meu irmão Nelson deveríamos buscar o resultado do jogo do bicho em um bar a 2 km do nosso. Meninos com 12 anos no máximo, a gente se revezava, indo e voltando a pé, sob sol ou chuva, sem ganhar um tostão, para pegar um pedaço do papel com as cinco milhares premiadas do dia. De volta ao bar, um grupo de apostadores nos saudavam animados “que bicho deu?” , esperançosos de ter acertado no bicho e assim ganhar um dindim.
Acho que depois do futebol, o jogo do bicho era o principal assunto do dia. De tanto ouvir falar desse jogo, logo aprendi que o bicho número 1/01-02-03-04 era/é o avestruz, depois vinha a águia-2, passando pelo macaco-8, cavalo-11, jacaré-15 até chegar no último bicho, a vaca-25/97-98-99-00. Aposta-se na milhar, na centena, na dezena ou apenas no bicho. Entendeu, bicho? Não sei porque naquela época a gíria para “cara” era bicho. Ainda hoje, há caras que chamam seus amigos de bicho. É isso aí, bicho!

Nos bons tempos do mercadinho-bar, era o point do Paulista FC, time de várzea que tinha um ataque poderoso: Sílvio, Brando e Pepe. Este último jogou no Juventus da Moóca. Sílvio era especialista em faltas e Brando jogava bonito, além de ser um cara ingênuo e muito engraçado. Todo fim de semana, a equipe se concentrava em nosso bar para depois sair de caminhão, se o jogo era fora, ou a pé se a peleja fosse em nosso campo que ficava a 2 km dali. Na volta, haja cerveja, porque o movimento do bar era intenso. Muitas vezes acompanhei o Paulista porque dava gosto ver time que vencia e convencia mesmo jogando fora de casa.
No alto da prateleira do bar, ficavam os principais troféus conquistados pelo time. Outra atração do bar era uma enorme tabela do campeonato paulista com a posição e a pontuação dos times. Quase sempre o SFC estava no topo e a SEP, em segundo. Dizia-se que se jogasse uma moeda pro alto e desse cara, o SFC seria o campeão, se desse coroa, daria Palmeiras; se a moeda caísse de pé, o campeão seria o SPFC e o Timão, naquela época era timinho, só seria campeão se a moeda parasse no ar. hahaha.
“ Tôcerto” era o apelido de um santista fanático. Graças ao alvinegro praiano, ele bebeu muita cerveja de graça graças às apostas no Peixe, e eu, de carona, ganhava minhas guaranás pagas por ele. Tinha muitas figuras interessantes que animavam as tardes/noites do bar mas que aos poucos fui esquecendo de lembrar.
A decadência do bar-mercadinho começou com a chegada do Seu Rodolfo, um poderoso concorrente que se instalou no outro quarteirão, e arrastou os nossos fregueses. Os nossos fornecedores pararam de fornecer. Lembro que andava quilômetros para comprar uma mortadela grande. Noutro dia, andava outros quilômetros para comprar linguiça noutro lugar. Ficava horas no Pepe Supermercado para comprar pacotes de fósforos entre outras coisas.
Para mim, foi um alívio quando esse mercadinho-bar baixou as portas. Mudamos de casa e fomos recomeçar a vida. Nos anos seguintes, Roberto, Nelson e eu entramos na USP e a vida familiar melhorou bem. Acredito que a vivência naquele mercadinho-bar foi importante para nós, apesar de tudo. Por isso, lembro com carinho daqueles tempos quando comecei a escrever os primeiros poemas e canções.

Valeu, Paulista FC, valeu galera da Vila Fidélis! E vamoqvamo!

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