ERIKA TAMURA: Abandono infantil

Participei de uma palestra em Shimane, onde a psicóloga Mayra Kurade, abordou sobre o tema “abandono infantil”.
No caso, o abandono a que se refere o artigo de hoje, não significa que os pais abandonaram seus filhos em determinado lugar e sumiram, não! Tem a ver com o abandono diário, no dia a dia, aquele que acontece dentro de casa mesmo.
A psicóloga contou uma historinha, bem simples, mas com um conteúdo bem reflexivo, onde um menino chamado Bernardo, pedia pela atenção da mãe, a todo momento, e escutava sempre: “Agora não, Bernardo!”. E isso se repetiu durante dias, semanas, onde a mãe e o pai, sempre estavam ocupados demais com os seus afazeres, e nem olhavam para o filho. Eis que em uma noite, no quarto de Bernardo, apareceu um monstro que o engoliu. No dia seguinte, o monstro foi atrás dos pais de Bernardo que, sem nem perceber o que aconteceu, apenas falou: “Agora não, Bernardo!”.
E essa história, mesmo que bem fictícia, retrata o cotidiano de muitas famílias brasileiras no Japão. O diálogo passa a não existir mais, pois os pais trabalham muito, muitas horas, e quando chegam em casa, só querem descansar.
E aí, é que começam todos os problemas que envolvem educação no Japão. Afinal, como os pais vão saber se está tudo bem com os filhos, se nem ao menos perguntaram nada. Pior ainda, tem muitos pais que mal conhecem os filhos que têm, mesmo morando na mesma casa.
Você sabe o que o seu filho gosta? Que tipo de música ele curte? Quem é o melhor amigo dele? O que ele fez na escola hoje? O que ele comeu na escola hoje? Ele gosta de que tipo de comida?
Muitos pais acham que sabem essas respostas, mas não sabem. Acabam surpreendidos com as respostas. Isso é apenas um exemplo do cotidiano, se aprofundarmos nos casos com problemas, iremos colocar o dedo na ferida de muitas famílias.
Não é a toa que os problemas que chegam até a ONG onde trabalho, tem aumentado, e muito, no assunto relacionamento familiar. Claro que não é uma regra geral, existem os pais que acompanham os filhos, investem parte do seu tempo em qualidade no convívio com os filhos. Mas estamos falando aqui dos problemas, e nesse caso, a estrutura familiar faz toda a diferença.
Existem os casos também, onde os filhos vão em escola japonesa e acabam esquecendo a língua portuguesa, e os pais, sem o domínio do idioma japonês, acaba perdendo o vínculo de comunicação com os filhos. Podendo ir além, onde em alguns casos, os filhos têm vergonha que seus pais falem em português na frente de seus amigos, dificultando ainda mais o convívio familiar, e criando assim uma crise de identidade, seguida por uma depressão.
Não é fácil educar filhos, mas educar filhos no exterior exige mais do que dedicação, exige flexibilidade, conhecimento cultural e um eterno aprendizado junto com os filhos. Só quem entender isso e estiver dispost a encarar tudo isso, conseguirá transponir barreiras.
Criei meus filhos no Japão, foi difícil? Sim, muito. Mas consegui, primeiro que, nunca deixei de falar português com eles. E apesar de relutarem, acabaram por entender que, só teriam vantagens sabendo dois idiomas. Mas o mais difícil foi com o mais velho, onde eu não entendia nada da cultura educacional no Japão, e tivemos que aprender juntos. Muitas vezes nós dois levávamos bronca dos professores, afinal, tudo era novidade.
Choramos juntos, sofremos juntos, mas também evoluímos juntos. Hoje meu filho está no Brasil, lembramos as histórias dando risada de tudo, mas não foi fácil.
Enfim, barreiras superadas, check list ok, histórias para contar e muita experiência para passar aos outros. Por isso gosto de contar as minhas histórias aqui, muitos acham que estou aqui para me gabar. Nada disso, eu quero compartilhar mesmo, quero que saibam tudo o que passei nesse Japão. E olha que não é mérito exclusivamente meu não, todos os brasileiros que aqui vivem, tem alguma experiência para dividir, uma história de superação (ou várias), são páginas para o livro da vida.
Os brasileiros deveriam escrever o livro: “Quem nunca…” seria divertido ler.
Enfim, o triste fato do abandono infantil no Japão, é real, e decidi falar sobre isso, porque sei que tem solução, e é tão simples: priorizar o tempo com os filhos. Um detalhe que faz toda a diferença. Só assim os pais poderão perceber uma mudança de comportamento dos filhos no caso de bullying, depressão, sofrimento, angústia… Os jovens têm tudo isso, sabia? E é tão bom quando a ajuda vem de casa.
Reconfortante para a criança é saber que pode contar com os seus pais a qualquer hora. Eu, mesmo com meus 40 anos, me sinto tão bem quando eu penso que tenho o colo dos meus pais para me apoiar. Sei que eles estarão ao meu lado sempre, e olha que as vezes quero conversar com eles as duas da manhã, e a minha mãe acorda só pra me ouvir. O melhor é ouvir da boca deles: Tenho orgulho de você! Faz toda a diferença…

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