De olho no futuro, Hospital Santa Cruz celebra seu 79º aniversário e os 110 anos da imigração

Evento em comemoração dos 79 anos do Santa Cruz reuniu autoridades e lideranças da comunidade (Jiro Mochizuki)
Evento em comemoração dos 79 anos do Santa Cruz reuniu autoridades e lideranças da comunidade (Jiro Mochizuki)

Inaugurado em 1939, o Hospital Santa Cruz tem planos de expandir suas instalações. “O foco neste terceiro mandato será buscar o crescimento do hospital”, afirmou o presidente Renato Ishiwaka ao Jornal Nippak. Segundo ele, o objetivo “é continuar atendendo a todos com eficiência e, ao mesmo tempo, garantir a sobrevivência da instituição” num mercado cada vez mais concorrido, “com as operadoras de saúde cada vez mais “verticalizadas”.

O presidente do HSC, Renato Ishikawa (Jiro Mochizuki)
O presidente do HSC, Renato Ishikawa (Jiro Mochizuki)

“Está cada vez mais difícil negociar preços e hoje, de 90% a 95% de nossos clientes são de operadoras de saúde. Desde 2011 estamos apresentando resultados positivos, mas isso não tem sido suficiente. Temos sempre que buscar uma escala. Esse é o nosso grande desafio. Não temos muita saída a não ser buscar a expansão física do hospital. E estamos trabalhando nisso”, explicou Ishikawa, destacando a contribuição do vereador Aurélio Nomura para legalizar a construção atual.
O vereador conta que no início deste ano foi “acionado” por Renato Ishikawa para ajudar na regularização da construção “pois só assim será possível ampliar o hospital”. “Já nos reunimos com a secretária de Urbanismo e Licenciamento, Eloisa Proença, que vem se empenhando para resolver todas as pendências”, explicou Nomura.

Aurelio Nomura (Jiro Mochizuki)
Aurelio Nomura (Jiro Mochizuki)

O projeto prevê o aumento dos atuais 170 leitos para 300, além de 16 salas de cirurgias e 70 leitos de UTI, mas segundo Ishikawa, o mais importante – e considerado o “gargalo do hospital’ – será triplicar o número de vagas de estacionamento, que passaria das atuais 160 para 500 vagas.
“Construir em uma área com o hospital funcionando será outro grande desafio, mas não temos outra alternativa. Precisamos preparar o HSC para o futuro”, disse ele, lembrando que o Santa Cruz foi construído com a colaboração do governo e do povo japonês e dos imigrantes japoneses.”Se não fizermos isso seremos comprados por alguém e não podemos sequer pensar nisso e sim em termos dois hospitais de referência”, disse Ishikawa, referindo-se também ao Hospital Nipo-Brasileiro mantido pelo Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo).

Referência – Reconduzido ao cargo para seu terceiro mandato, Renato Ishikawa lembra que a fundação do Santa Cruz está diretamente ligada com a trajetória dos primeiros imigrantes no Brasil. “Graças ao esforço de todos foi possível arrecadar fundos que permitiu inaugurar o HSC em 1939. Ao longo dos anos, o HSC evoluiu e se transformou numa referência no campo da medicina, qualidade de atendimento de seus pacientes e nossa missão sempre foi a de atender a todos”, afirmou, explicando que “durante esses 79 anos o Santa Cruz manteve estreitos laços entre o Brasil e o Japão, além de contribuir com a capacitação profisisonal de sua equipe médica e a qualidade na prestação de serviços, oferecendo equipamentos de última geração.
“Por tudo isso, o HSC é hoje reconhecido como um dos principais simbolos do processo de integração e cooperação entre as duas nações. Construímos uma enorme ponte entre o Brasil e o Japão na área da saúde e temos plena convicção que sempre haverá muito que comemorarmos juntos”, destacou o presidente da instituição durante evento realizado no último dia 11 em comemoração aos 79 anos do Hospital Santa Cruz e os 110 anos da Imigração Japonesa no Brasil.
Na ocasião, além de ser apresentado um panorama do segmento de saúde no Brasil e suas perspectivas para o futuro, também foi lançado o livro ‘Coletânea de Poemas Tanka da Família Imperial do Japão’, com 130 poemas traduzido pelos doutores Masato Ninomiya e Sonia Regina Longhi Ninomiya.

Delfim Netto (Jiro Mochizuki)
Delfim Netto (Jiro Mochizuki)

Cerimônia – Dividida em duas partes, a cerimônia contou com palestras e depoimentos de autoridades, empresários e representantes da comunidade nikkei. Estiveram presentes o cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi, o economista e ex-ministro Antonio Delfim Netto; o vice-presidente da Toyota do Brasil, Celso Simomura; a presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Harumi Goya; a presidente e fundadora da Rede Brasileira Blue Tree Hotels, Chieko Aoki; o representante sênior da Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), Hiroshi Sato; o professor Titular de Geriatria da FMUSP e diretor do Serviço de Geriatria do HC-FMUSP, Wilson Jacob Filho; o deputado estadual Hélio Nishimoto (PSDB) e os vereadores Aurélio Nomura (PSDB) e George Hato (PMDB), além do presidente do Subdepartamento Médico da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa, Kenjiro Takayanagi; o presidente do Enkyo, Akeo Yogui e o coordenador de Regulação do Sistema Único de Saúde (SUS) no município de São Paulo, Sandro Garcia Hiláro, entre outros.

Cônsul Yasushi Noguchi (Jiro Mochizuki)
Cônsul Yasushi Noguchi (Jiro Mochizuki)

Crise – Falando sobre a “Visão japonesa sobre a integração entre o Brasil e o Japão”, o cônsul geral Yasushi Noguchi destacou a importância da inauguração do HSC para a comunidade nikkei. “Entendo que, para os primeiros imigrantes, era muiito dificil expressar, em português, o que estavam sentindo. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo de sua história, o HSC contribuiu muito para a comunidade japonesa e também para a sociedade braisleira”, disse o cônsul que lembrou também a participação do Santa Cruz nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos da Rio 2016, quando enviou médicos e enfermeiros para atender turistas japoneses que visitaram o país. “Gostaria de lembrar também que o HSC mantém intercâmbio com as universidades japonesas e, dessa maneira, contribui ainda para estreitar os laços entre o Japão e o Brasil”, disse Noguchi, afirmando que “há alguns anos o governo japonês outorgou equipamentos médicos para o Santa Cruz. “Espero que o HSC continue com esse importante trabalho”, afirmou.

No bigode – Em seu depoimento como paciente do Santa Cruz, o professor Delfim Netto destacou o “papel extraordinário que os japoneses e o Japão exerceram para o desenvolvimento econômico do Brasil”. “Rapidamente, a imigração japonesa mudou a estrutura da agricultura brasileira. Foi uma mudança profunda e que continua até hoje. Além disso, o governo japonês sempre apoiou o governo brasileiro de maneira extraordinária. Lembro de um episódio, quando explodiu a crise do petroléo, em 1979, e o mundo se fechou. Não havia ninguém que pudesse financiar um país como o Brasil. Nós fomos ao Japão e o Japão deu um crédito de 2 bilhões de dólares na base do bigode”, contou Delfim Netto.
Já Hiroshi Sato disse que nos últimos anos a Jica tem desenvolvido atividades buscando estimular a cooperação e parceria entre diversas áreas com a comunidade nipo-brasileira. “Na área médica, temos implantado atividades em parceria com hospitais e médicos nipo-brasileiros e empresas da área médica do Japão, acelerando desta forma a promoção de negócios e o desenvolvimento país”, disse on representante da Jica, acrescentando que, no final deste mês será realizada uma reunião liderada pelo HSC com o objetivo de fortalecer a parceria entre os hospitais nipo-brasileiros, bem como entre os hospitais nipo-brasileiros e as empresas japonesas.
Convidada para falar sobre as “Perspectivas dos nikkeis brasileiros sobre a integração entre as duas nações”, a presidente do Bunkyo disse se tratar de um tema “interessante”, mas “complexo”, “levando-se em consideração que a palavra integração envolve inúmeras considerações”. Por isso se ateve ao tema intercâmbio entre as duas nações, destacando itens que considerou pertinentes, como a vinda dos primeiros imigrantes a um país “antípoda”. “Para os fazendreiros paulistas, os japoneses representavam mão de obra para substituir a mão de obra escrava. Para os imigrantes japoneses essa era a terra prometida, para juntar recursos rapidamente e retornar à terra natal. Historicamente sabemos que não foi nada disso que aconteceu. Os dois países, ao longo dos anos, protagonizaram passagens que vão desde o rompimento das relações diplomáticas na Segunda Guerra, na década de 40, até se tornarem grandes parceiros na construção de grandes projetos nacinais para a produção agrícola na regiçao do Cerrado e na exploração de minério na década de 70”, explicou Harumi Goya, lembrando que “depois veio o resfriamento das relações decorrentes da moratória brasileira em 80 e nos últimos anos registra-se uma retomada cautelosa das relações economicas e bilaterais”.

110 anos – “Enfim, são fases que de certa forma vão influir na postura dos nikkeis relacionadas a terra natal e seus ancestrais”, observou Harumi. “Estamos prestes a comemorar os 110 anos da presença da imigração japonesa neste país e aquele antigo peso geográfico e cultural de país antipoda parece ter sido superado”, disse ela, acrescentando que os anos 80 trouxeram “ventos favoráveia”. Trata-se de uma fase de grande interesse dos brasileiros por tudo que se relaciona ao Japão, principalmente por sua cultura. Podemos dizer que o sashimi deixou de ser peixe cru para conquistar a alta gastronomia do nosso país”, recordou Harumi, destacando que, a partir de 2008, a crise financeira global atinge diretamente a economia japonesa e, em consequência, o emprego dos dekasseguis.

Desafio – “Cerca de 120 mil pessoas retornaram ao Brasil, sendo que cerca de 40 mil deles foram beneficiados com a ajuda do governo japonês. Nessa mesma ocasião o Brasil apresentou perspectivas positivas de estabilidade e crescimento econômico, estimulando as empresaas estrangeiras, incluindo as japonesas. Infelizmente, a crise dos anos 90 ainda não foi totalmente superada. Passado o período de quarentena, tem crescido o numero de dekasseguis retornando ao Japão. Ao mesmo tempo, o governo nipônico tem resistido em liberar o visto de longa permanência para trabalhadores yonseis, mais interessados em manter a mão de obra de países vizinhos”, disse.
Para a presidente da principal entidade nikkei do país, neste cenário de incertezas, tanto no Brasil como no Japão, o desafio dos líderes das entidades é tentar compreender e elaborar propostas de soluções a serem buscadas, adequadas às reais necessidades nikkeis e também buscar soluções junto aos governos dos dois países. “Assim, efetivamente, atuaremos no fomento do intercâmbio bilateral”, concluiu.

Masato Ninomiya (Jiro Mochizuki)
Masato Ninomiya (Jiro Mochizuki)

Dekasseguis – Para o vice-presidente do HSC, Masato Ninomiya, não se pode falar das relações entre o Brasil e o Japão sem mencionar a presença dos imigrantes e seus descendentes, que já estão sexta geração, em um número que chega a 3 milhões de pessoas. Em sua fala, Ninomiya destacou ainda que hoje mais de 180 mil brasileiros residem no Japão, “muitos deles com vistos permanentes e outros que obtiveram nacionalidade japonesa”.
“Podemos calcular que mais de 600 mil brasileiros conheceram o Japão nos últimos 30 anos num movimento que passou a ser denominado dekassegui. Apesar dos muitos problemas, considera-se positiva a sua experiência no país e pode-se afirmar que o seu conhecimento sobre o Japão e o Brasil constitui-se importante vinculo para o estreitamento das relações dos dois países”, afirmou, destacando que “há grande número de brasileiros, filhos destes decasseguis, estudando nas universidades japonesas, e também muitos que frequentam as universidades brasileiras, tendo retornado ao país após alguns anos de permanência no Japão”.
“Eles constituem grande esperança para o futuro no relacionamento bilateral”, explica Ninomiya, afirmando que “Brasil e Japão caminham juntos em importantes iniciativas no cenário da política internacional”.
“Discute-se, neste momento, a nível empresarial e governamental, a celebração do acordo de parceria ecônomica entre o Japão e o Mercosul a exemplo da União Europeia, o que impulsionará de forma marcante os laços comerciais entre o Brasil e o Japão”.
Sobre o esforço de pessoas que contribuíram para o engrandecimento do HSC, Ninomiya disse que, “talvez fosse o caso de lembrar que muitos sacrificaram nesta construção pois era o desejo dos imigrantes que tinham dificuldade de comunicação, principalmente quando adoeciam”.

Intercâmbio – A doação que veio da Casa Imperial do Japão, conta, não só estimulou as empresas japonesas a contribuirem para a causa do hospital mas também fez com que os imigrantes, cuja situação financeira ainda era frágil, contribuíssem em respeito à figura do imperador.
Dos anos mais difíceis de sua administração, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Japão, ao movimento cívico de sua retomada, até finalmente ter representantes no colegiado – Ninomiya enfatizou o papel decisivo das empresas japonesas em atividade no país, lideradas pela Câmara de Comércio e Indústria Japonesa no Brasil, além do apoio do governo japonês através da Embaixada e do Consulado Geral do Japão em São Paulo, além de autarquias como a Jica.

Ninomiya destacou os “profícuos intercâmbios com unversidades japonesas, representadadoas tradicionalmente pela Universidade de Keio, cujos médicos foram os primeiros a serem enviados pelo governo japonês na década de 1920, e mais recentemente com s Universidades de Tsukuba e de Osaka. E citou médicos como o doutor Yoshinobu Takeda e Sentaro Takeoka, entre outros, com destaque para o Dr. Shizuo Hosoe.
O vice-presidente lembrou ainda as visitas do príncipe Akishino e da princesa Kiko ao HSC, em 2015 – a primeira de um membro da família imperial em 76 anos de história – e de Akie Abe, esposa do primeiro-ministro Shinzo Abe, em 2014. “Nesses 79 anos, o HSC vem ocupando um papel importante na história da imigração japonesa do Brasil, quer seja no atendimento de nipo-brasileiros, de japoneses que têm dificuldades com o idioma e também de brasileiros pela vantagem geográfica que ele ocupa, praticamente no centro da cidade de São Paulo. Este é o nosso propósito, de dar continuidade, queremos continuar trabalhando e contamos com apoio de todos, finalizou Ninomiya.

Comentários
Loading...