CANTO DO BACURI > Mari Satake: Triste abril

As horas voam e ela vê a tela em branco à sua frente.
Palavras escapam de seus dedos. Segundos depois, ela as apaga. Novamente a tela em branco. Fica nesse movimento. Escreve, apaga. Apaga, escreve. É a crise. Vai passar. Ou ao menos, ela espera que passe.
Em seus pensamentos, apenas uma indagação. Onde foi que errou. Mas ela sabe que não errou. Apenas os ventos sopraram para rumos diferentes ao que ela imaginou. Fica se indagando se tivesse feito assim ou assado tudo seria diferente e ele não teria ido. Refaz seus pensamentos. Sabe que não existe esta possibilidade e é preciso encarar os fatos.
A verdade é esta. Está irremediavelmente só. Aliás, como sempre esteve na vida. Os dez anos de convivência foram bons, tiveram muitos momentos felizes mas, a verdade é que ela sempre foi este ser estranho, incapaz de se conectar totalmente a quem quer que seja. Talvez, ele tenha se cansado disso. Mas ele também, tinha lá suas defesas intransponíveis. Mas de que adianta ficar ruminando sobre isto ou aquilo? De nada mais adiantará. O fato é que ele se foi e a ausência dele dói.
E ficar só em casa por estes dias, não será nada bom, ela pensa. Arruma uma pequena mala, toma algumas providências em sua casa e enquanto pensa para onde poderia ir, ela se lembra de uns e outros amigos ou amigas que fizeram suas malas e partiram para viver em outras cidades, de outras maneiras.
Não. Agora não é o momento de procurar nenhum deles. Ela precisa encontrar o seu jeito, a sua forma de se reencontrar.
Desta vez, nenhum destino lhe ocorre. Dirige pelas ruas da cidade. É noite. A cidade está deserta, abandonada. Pelas calçadas e marquises dos prédios nas grandes avenidas, pequenos montes cobertos com os ralos cobertores. Parada no farol, o maltrapilho a aborda pedindo um trocado. Ela faz que não. Ela se lembra da angústia de Ang sempre que se deparava com estas cenas. Ele queria que ela fosse com ele para viver em seu país. Dizia que lá não veriam cenas deste tipo. Agora, ela se pergunta, por que não foi? Pensa nele, nas últimas palavras que ele lhe disse antes de sumir pelo corredor do embarque.
Ir embora do país. Será?
Ela começa a pensar na possibilidade.

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